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Epistocracia - O óptimo é inimigo do bom





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Um dos meus podcasts preferidos é o 45 Graus, feito pelo José Maria Pimentel. Sempre com convidados interessantes, de várias áreas, tem sido frequentemente um guia para novas descobertas. E bem a propósito, o último episódio teve como convidado o Stephen Gouveia, um filósofo português, e apresentou-me uma ideia que eu desconhecia: a epistocracia.

A epistocracia é uma forma de governo, em que tem o poder de decidir são as pessoas que mais conhecimento têm, que mais estudaram e que mais sabem. Dito de outra forma, é uma ditadura de sábios. A ideia subjacente é a de que, em princípio, os sábios são os mais qualificados para tomar decisões visto que são eles, passe a expressão, sabem. Os ignorantes, na melhor das hipóteses, só atrapalham e até era preferível para o bem comum, se os ignorantes se abstivessem de participar na vida pública.

Assim escrito, de uma forma um pouco bruta, a ideia pode desagradar mas repare que implicitamente todos nós tendemos a delegar decisões importantes em quem sabe mais do que nós. Vamos ao médico quando temos um problema de saúde, pedimos a um electricista para fazer uma instalação eléctrica e a um canalizador para reparar um aquecimento central avariado. E temos também um limite mínimo de idade para o voto, com o argumento de que é necessária alguma maturidade e experiência, logo conhecimento, para votar. Por isso, porque não levar a ideia até à sua conclusão natural, e escolher em sábios em vez de políticos armados em sabichões ?

O problema está nos detalhes, como é hábito. Não há garantia nenhuma de que um governo de sábios seja melhor do que um governo formado por pessoas escolhidas ao calhas por entre os cidadãos de um país. E para ver que assim é, tenho vários contra-exemplos de como o conhecimento, por si só, não é garantia de boas decisões.

Primeiro contra-argumento: a gestão da pandemia do Covid-19 foi em larga medida gerida, decidida e secundada por grupos de sábios. Independentemente do que se pense das decisões tomadas, ninguém pode afirmar que as decisões não tiveram nem custos nem consequências. Pode-se argumentar que seria sempre esse o caso, mas duvido que exista gente que queira passar a viver em permanente modo de pandemia.

Segundo contra-argumento, o xadrez é um jogo cujo desfecho depende apenas e só do conhecimento e experiência dos jogadores. É certo que um jogador experiente ganha facilmente a um maçarico, mas quando se trata de confrontos ao mesmo nível o desfecho é desconhecido. Ora se basta o conhecimento para tomar sempre decisões acertadas, os jogos de xadrez de alto nível terminavam sempre empatados. O que não é o caso, e até quando se tratou do Kasparov contra um computador, o Deep Blue acabou por ganhar mas pelo meio teve várias derrotas.

Terceiro contra-argumento, o jogo da sueca permite aos jogadores revelar as cartas que possuem. Ao fim de uma ou duas jogadas, qualquer jogador que saiba contar, conheça os sinais e perceba um bocadinho de probabilidades, sabe as cartas na mão dos outros. Neste tipo de jogos, a vitória seria óbvia ao final da primeira, segunda jogada. Mas raramente é esse o caso. Novamente, o conhecimento não é garantia de vitória.

Resumindo e concluíndo, o conhecimento por si só não é garantia de qualidade na tomada de decisão. Porque vivemos rodeados de incertezas, não é possível garantir que uma decisão muito bem informada seja a melhor.

Daqui não se retira obviamente, que tanto vale a opinião de um bruto como a de um doutor. Hoje em dia, existem vários organismos compostos por especialistas que decidem vários aspectos na nossa vida. Desde a medição do tempo, às regras para construir uma casa e passando pelas exigências sanitárias em restaurantes, muito da nossa vida social é regulada por decisões tomadas por sábios. E ainda bem que sim, prefiro as exigências de uma ASAE a uma forte diarreia. Mas note-se que estes organismos de especialistas regulam assuntos muito concretos, não temos o Bureau International de Poids e Mesures a decidir políticas de emigração, a contratação de professores ou a regular o trânsito em Bruxelas. É aqui que reside o ponto fraco da epistocracia, é apenas ditadura sobre outro nome.

Mas existe um outro problema com a epistocracia, pelo menos na forma como foi apresentada no podcast. A vantagem da epistocracia sobre a democracia seria de que a escolha dos governantes seria feita com critérios objetivos e não com base em critérios emocionais, como frequentemente acontece em democracias. O que é verdade. Mas uma democracia não é só eleições de X em X anos. É também a liberdade de expressão, o respeito pela lei e pelas minorias (étnicas, políticas, sociais). E a democracia é também uma forma de resolver conflitos de forma pacífica, de conseguir combinar objetivos comuns e de coexistência pacífica entre diferentes visões do mundo. Confundir eleições com democracia é tomar a árvore pela floresta.

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Nelson Gonçalves
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