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            Passear em Faro, cidade de dimensão indulgente, num dia de sol do mês de maio, foi um prazer. Os jacarandás estavam floridos e em todo o lado havia bule‑bule, que não era, porém, incomodativo.

            Guardo a melhor impressão da Igreja da Misericórdia, da Igreja do Carmo e da catedral, no restaurante CHECKin dei o melhor trato ao paladar. No presente texto, falarei desse estaminé e dos monumentos referidos. Não fomos ao Museu Municipal de Faro nem à Igreja de São Pedro. Se o tivéssemos feito, creio que das visitas caberia aqui raconto.

            A fachada da Igreja da Misericórdia não é especialmente chamativa. Tem três panos, balizados por pilastras. O central termina com frontão triangular, no qual se abriu um óculo, e os laterais são coroados por balaustrada. O pano meão é rasgado por janela de frontão curvo e pelo portal, em cuja parte superior se encontra uma escultura da Virgem, abrigada em nicho.

            A igreja tem planta de cruz grega, valorizei‑o por não ser comum. O arco cruzeiro, forrado de talha dourada, é bonito. Conquanto não seja dado ao Maneirismo, apreciei o retábulo da capela‑mor. No centro, exibe uma tela que reproduz a Visitação. As outras pinturas do retábulo figuram as Obras de Misericórdia (corporais). Do lado esquerdo, vestir os nus, dar de beber a quem tem sede e dar de comer a quem tem fome. Do lado direito, dar pousada aos peregrinos, visitar os presos e enterrar os mortos. No meio, em cima, dar assistência aos enfermos. Ao escrevê‑lo, verifico que, no tempo que levo de vida, nunca semelhantes atos de bem‑fazer foram tão necessários como hoje, em mundo minado por conflitos e açoitado por vergastas, cada vez mais ativas, de diferente espécie (pobreza, exploração, ausência de pouso digno para viver…). Mesmo o que parece óbvio — enterrar os mortos — deve ser, em países como a Ucrânia, difícil de pôr em prática.

            O que mais gostei de ver na capital algarvia foi a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, construída no século xvɪɪɪ e, em menor medida, na centúria seguinte.

            Obra de Diogo Tavares e Ataíde e organizada, de maneira simétrica, em três registos e três panos, a respetiva frontaria evidencia catadura verticalista. Os panos laterais correspondem ao corpo das torres sineiras. Entre os campanários corre balaustrada pintada de amarelo, cor que se repete em diversos elementos ornamentais do registo superior da fachada. Faro conquistou as cegonhas, vimo‑las no cume das torres sineiras e em vários pontos do frontispício.

            O interior da igreja é cenográfico, deixa a sensação de esplendor. Na nave, as quatro capelas laterais, reentrantes, ostentam adorno e retábulo de talha dourada. Predomina o estilo barroco, mas já há notas do Rococó. São todas vistosas, eu outorgo preferência às que se encontram do lado da Epístola, consagradas a São José (antiga Capela de São Vicente Ferrer) e a São Simão Stock. Ainda na nave, não fiquem sem menção o órgão e a tela que representa a Virgem do Leite. O arco cruzeiro, igualmente de talha, tem no topo uma cartela que dois anjos seguram e na qual se admira o brasão da Ordem Terceira do Carmo. A capela‑mor é local de aparato. A madeira pintada da respetiva cobertura em abóboda de berço gera efeito trompe‑l’oeil. Também aí surge representado o escudo carmelita. O retábulo, de talha dourada e com um grande trono, é obra de Manuel Martins, mestre do Barroco algarvio.

            A sacristia tem um belo teto, repartido em caixotões, com pintura atribuída a Clemente Velho de Sarre. O visitante pode afemençar a vista em diferentes imagens expostas nessa dependência, mormente numa escultura de Nossa Senhora do Monte do Carmo, porventura saída das mãos de Machado de Castro.

            A Capela dos Ossos fica num pátio e remonta a 1816. Para a edificar, fez‑se uso das ossadas existentes nas sepulturas de um cemitério que havia por trás da capela‑mor e que acolhia os restos mortais de membros da Ordem Terceira do Carmo.

            Porquanto a Capela dos Ossos tem um quê de pitoresco e talvez seja bem vendida aos turistas por essa razão, notei que, a caminho de tal templete, muitas almas passavam pela nave da igreja como cão por vinha vindimada. Não se detinham, não davam atenção à exuberância da talha dourada. Já o disse noutro texto[1]: em regra, quem vai de férias com a cabeça alveada termina‑as na mesma condição.

            Perto da Igreja do Carmo, entrámos, a instâncias da Jūratė, na Loja dos Objetos Inúteis, um adelo. No meio do bricabraque, achei um bule que tomara a forma kitsch de um castelo e uma vasilha que figurava um peixe, usada para servir bebidas alcoólicas. O sortido transportou‑me ao passado, a casas onde vivi e a lugares que frequentei. Com os locais vieram as pessoas, a dívida inestimável que tenho para com a minha mãe, o pai que abomino, os avós que bem‑queria e a avó que me causava osga, o conjunto dos meus tios e tias (detesto a maioria dos que compõem essa agregação, só seria capaz de me sentar à mesa com quatro dos 11 elementos que a integram), a gente que estimo e os conhecidos que, se preciso fosse, pagaria para não voltar a encontrar. Estes enviesamentos da memória acabaram por me deixar feliz e ufano. Regozijava‑me por estar ali com a Jūratė, por me vir afastando de pessoas, coisas, eventos e circunstâncias que não me agradam — em matéria de bloqueio de números de telefone, sou campeão. Orgulhava‑me de, apesar das pisaduras de uma infância e de uma adolescência marcadas pelo indizível progenitor que tive (e tenho), ter aberto caminho pela vida afora.

            Referi a pertinência atual das Obras de Misericórdia, mas agora reconheço que sinto dificuldades em lidar com duas delas, de caráter espiritual: perdoar as injúrias e sofrer com paciência as fraquezas do próximo.

            Na Sé Catedral de Faro, registei impressão semelhante à que havia tido na Catedral de Santa Maria, em Viseu. Vi diversas obras de primeira água, mas não fui capaz de captar um todo concorde e gracioso.

            O complexo da sé tem origem numa igreja medieval, resulta de alterações e acrescentos feitos em períodos diversos, reúne elementos de vários estilos arquitetónicos. Quem da praça o observe guardará na memória o branquejar da frontaria caiada contra o bege dominante na construção de pedra aparelhada e aspeto robusto que lhe está adossada (é dizer, a torre sineira). O alto desta oferece um belo panorama, é verdade, e a três jovens australianas que aí encontrámos a vista provocava risadas de hiena.

            No interior da sé, gostei muito do órgão setecentista decorado com chinesices sobre fundo vermelho e das capelas onde se venera Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Conceição, São Domingos e Nossa Senhora dos Prazeres.

            Na Capela de Nossa Senhora do Rosário, o contraste entre o arco de entrada e o retábulo, ambos de talha dourada, e o revestimento azulejar atribuído a Gabriel del Barco produz um belo resultado. A Capela de Nossa Senhora da Conceição e aqueloutra devotada a São Domingos, góticas, ostentam igualmente forro azulejar e apresentam remate em abóbada, com nervuras e artesoada; na segunda, guarda‑se a arca tumular com a estátua jacente de Rui Valente, cavaleiro que esteve ao serviço do infante D. Henrique. A Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, um tesouro do Barroco, destaca‑se pela profusão ornamental e pelo trabalho de talha dourada.

            No museu catedralício, dedicado à arte religiosa, saltaram‑me aos olhos as estações da Via‑Sacra, de madeira e madrepérola, do século xɪx, e ainda, porque prezo a instrução e conservo costela de ensinante, uma escultura de madeira, de Setecentos, que representa Santa Ana.

            Quanto à Capela dos Ossos, voltada para o jardim da catedral, nada tem de particular a não ser a sua existência. A que se acha anexa à Igreja do Carmo dá‑lhe sota e basto.

            Boa manja e bom serviço, respeito pela sazonalidade, arte culinária do chefe Leonel Pereira, eis alguns atributos do restaurante CHECKin, nome que, afora ser de pronúncia simples para clientes de várias latitudes, espelha o trajeto de Leonel, que trabalhou em diversos continentes e já fez muito check‑in.

            Abrimos a refeição com matança (cacholeira frita, com fios de cebola cristalizada e servida sobre puré de batata), um dos pitéus sustentados nas memórias de infância do mestre‑cuco. Depois, vieram o lombo de bacalhau confitado em azeite extravirgem, guarnecido por xarém de plâncton e molho cremoso de alho, e a perna de pato confitada com puré de cenoura e batata gratinada. O checkout fez‑se por via de um cheesecake fresco, com morangos, lima, merengues e gelado de casca de tangerina. Tudo nos soube bem, a oferta gastronómica aliava o ingrediente de qualidade à confeção esmerada. Descoberto o xarém de plâncton, ficou a vontade de o voltar a provar. O vinho, um tinto do Alto Alentejo, de 2021, produzido por Rui Reguinga e Leonel Pereira, encorpado e com ótimo retrogosto, esteve à altura do alimento. Ao CHECKin entrego o meu melhor galardão.

[1] Castelo Branco, turismo para a selfie e não só.

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Paulo Pego
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