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        A Capela de Nossa Senhora da Esperança, na aldeia de Abrunhosa, foi erguida no século xvɪɪɪ. Fica num alto, de ares benfazejos e vistas desafogadas.

        Reinava o sossego, só nós a visitávamos, isso trouxe valor acrescentado.

        Por fora, denota feição simples, mas no interior de regra barroca abunda o ornato. Cedo captei o horror ao vazio e a tentativa de seduzir o crente através do sentido da visão.

        Os trabalhos de talha, dourada e policromada, são lindos e esmerados — exuberantes, nalguns pontos. Encontramo‑los, por exemplo, nos três retábulos, na cobertura de caixotões da capela‑mor, na zona do arco cruzeiro, no púlpito e nas sanefas. A teatralidade caraterística do Barroco é evidente nas esculturas do retábulo‑mor que representam a padroeira, São João Evangelista e São João Batista. São João Evangelista tem a cabeça e um dos braços voltados para Nossa Senhora da Esperança, o escorço do santo sugere entrega e rendição.

        A vida dos fiéis não se cingia ao universo religioso, passava igualmente pela existência mundana (em cujo curso eles deviam proceder com retidão). Lembram‑no os painéis azulejares que recriam cenas do quotidiano, cenas galantes e de banquete, cenas de caça e outras. A azulejaria define contraste com a talha e com a pintura e enriquece o programa decorativo da capela.

        Já no nartece, os azulejos são de figura avulsa, como os de Delft, e reproduzem, nomeadamente, figuras humanas, aves, flores, frutos, edifícios e embarcações.

        Quanto à pintura, assinalo as figuras femininas, enquadradas por arcos e pilastras, que evocam as virtudes cardeais e desse jeito indicam critérios que devem presidir à conduta dos devotos. Estão inscritas no registo superior das paredes laterais da nave (acima dos silhares de azulejos). A cobertura da nave, pintada por Pascoal Parente, produz efeito trompe‑l’oeil e dirige o olhar para o medalhão central, no qual está representada, em composição com muitos anjos, a Virgem glorificada.

        Bendita seja a Capela de Nossa Senhora da Esperança e o seu interior cenográfico, de que não sei nem posso apresentar aqui narrativa completa. Terão arrebatado muita gente, empolgaram‑nos a nós também.

        De Abrunhosa, seguimos para Casal do Meio, onde observámos o exterior do imóvel, provavelmente quinhentista, que foi cadeia e sede do município de Rio de Moinhos. A aldeia pareceu‑nos despovoada, a única pessoa que vimos foi um adepto do Benfica. Ufano dentro da sua t‑shirt garrida, deixou‑nos ressaibo de ela simbolizar o que de mais precioso tinha na vida.

        Em Silvã de Cima, uma dádiva do acaso e a resposta a uma pergunta do meu espírito curioso conduziram‑nos à presença de José Graça, com quem fomos à igrejita da terra, consagrada a São Silvestre. Desvanecido no‑la mostrou, pois ao seu empenho e aos seus conhecimentos de construção civil devem os paroquianos o restauro da igreja, outrora objeto de infiltrações de água.

        Em nicho de uma parede lateral, lobrigámos uma bela escultura de São Marcos, acompanhado pelo leão. O retábulo‑mor, dourado e policromo, exalava artifício de cor e a pia batismal, de pacotilha, era kitsch.

        José dispôs‑se a guiar‑nos ao Santuário de Nosso Senhor dos Caminhos, em Rãs.

        No recinto do santuário, grupos de piqueniqueiros e ares rasgados por música pimba.

        O corpo da igreja, ao qual está adossada a torre sineira, ostenta face rematada por frontão no qual prevalece a curva e a contracurva. Apesar do toque elegante do frontão, a cantaria de granito pesa, transmite ar sóbrio e maciço ao templo.

        No interior, não desgostei do retábulo‑mor nem dos dois retábulos colaterais ao arco cruzeiro e dispostos em ângulo, os três de talha branca e dourada. Mas esse espaço interno parecia‑me liofilizado, carecia de pátina. Quentura e comoção, senti‑as nas mensagens escritas num caderno, com expressões de gratidão e pedidos ao orago. Nos textos em francês, como nas maisons que antes víramos — ainda em reboco e com a pintura à espera do regresso definitivo dos proprietários —, topámos a marca da emigração. No português paupérrimo, percebi um país que, em alguns estratos, mal saiu do analfabetismo.

        Perto da igreja, causam estranheza duas fiadas de colunas de granito. Foram concebidas como esteios da cobertura de local destinado a descanso dos peregrinos e, em tempo de romaria, a acolher os andores. Por falta de verbas, a obra ficou por terminar.

        Homem de bons bofes, José convidou‑nos para beber uma pinga em sua casa, em Silvã de Cima, onde ele e a sua mulher acabaram por nos oferecer rico lanche ajantarado, com produtos da terra. Depressa nos outorgaram todos os alvarás da benquerença e, durante a visita à adega, ainda fomos presenteados com uma garrafa de tinto.

        Deixámos terras de Sátão e o distrito de Viseu envoltos em munificência beirã e, no que me diz respeito, mais disposto a temperar o vezo que me traz feliz: estar sozinho ou acompanhado apenas pela Jūratė, e procurar o trato somente com pessoas de quem gosto muito.

 

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Paulo Pego
Author: Paulo PegoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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