Todo o cogumelo é comestível. Alguns, só uma vez.
A sabedoria popular tem destas profundidades inesperadas. Há tratados de filosofia inteira que não conseguem dizer tanto sobre a condição humana. Andamos todos por aqui a provar cogumelos, ideias, amores, ideologias, certezas absolutas e dietas milagrosas, convencidos de que a experiência nos fará crescer. Por vezes faz. Outras vezes é apenas a primeira e a última.
Mas insistimos.
Isto porque somos, porventura, criaturas estranhas, dotadas de uma capacidade quase sobrenatural para caminhar em direcção ao precipício, enquanto discutimos a cor das flores que crescem à sua beira.
Tenho ouvido muita gente falar do medo. Medo do futuro. Medo do passado. Medo da inteligência artificial. Medo do aquecimento global. Medo dos estrangeiros. Medo dos vizinhos. Medo das palavras.
Das palavras?
Quais?
E porquê?
As palavras não passam de pequenos recipientes onde despejamos os nossos fantasmas. Não mordem. O problema começa quando alguém decide acreditar nelas, e as interpreta à sua maneira.
Toda a gente se declara defensora da liberdade de expressão, desde que ninguém expresse aquilo que ela não deseja ouvir. Temos direito à indignação. Temos direito ao sentimento de indignação. Temos até direito à indignação pela insuficiente valorização da nossa indignação. Mas já não temos grande prática na arte da conversa.
As palavras andam cercadas. As pessoas calam-se. Auto-amarfanham-se. Medem sílabas. Pesam adjectivos. Vigiam metáforas. E acabam por dizer apenas aquilo que já foi previamente autorizado pelo consenso do momento. Não porque tenham mudado de opinião. Mas porque têm medo.
A palavra tornou-se uma questão moral. E quando a linguagem entra para o tribunal da moralidade permanente, o pensamento começa a pedir liberdade condicional.
Entretanto, o mundo prossegue a sua marcha triunfal. Um desfile magnífico de vaidades, estupidezes e indignações a prazo. Este mundo é um nojo, dizem uns. É uma maravilha, respondem outros. Suspeito que ambas as facções tenham razão e que nenhuma tenha percebido verdadeiramente do que está a falar.
O filósofo, que por acaso vive algures dentro da minha cabeça e paga uma renda vergonhosamente baixa, recorda-me frequentemente que sou apenas uma centelha de energia a viajar do nada para lugar nenhum. Uma breve perturbação estatística num universo indiferente. Um acidente cósmico convencido da sua importância.
E, no entanto, dou por mim a preocupar-me.
Com a idade.
Com o colesterol.
Com a mortalidade.
Com o destino da civilização ocidental.
Com a possibilidade de me esquecer onde deixei os óculos.
É extraordinário.
Uma centelha que vai do nada para lugar nenhum e que, apesar disso, acha indispensável emitir opinião sobre tudo.
Dantes, quando alguém queria assustar o próximo, falava-se do Apocalipse. Havia cavaleiros, trombetas, bestas de muitas cabeças e outras comodidades imaginativas destinadas a inquietar os espíritos. Hoje temos a IA Agêntica. Convenhamos que o nome não ajuda. Parece uma dessas personagens burocráticas encarregadas de encerrar a humanidade por falta de comparência.
Dizem-me que funciona como um verdadeiro solucionador de problemas. Age de forma proactiva. Aprende. Decide. Corrige-se. Avalia cada passo e ajusta o plano se algo correr mal. Não dorme, não almoça, não adoece, não faz greve, não chega atrasada por causa do trânsito nem precisa de reuniões para preparar reuniões destinadas a marcar futuras reuniões. Trabalha vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, sem uma única crise existencial.
É difícil competir com semelhante falta de humanidade.
E ainda estamos a começar.
A ficção não estará à altura da vida, mas, as mais das vezes, a vida também não está à altura da ficção. A imaginação humana inventou máquinas inteligentes muito antes de elas existirem. O que não previu foi que as receberíamos com tanta indiferença.
Basta olhar à nossa volta. Armazéns quase inteiramente automatizados. Linhas de produção onde os braços mecânicos trabalham sem descanso. Fábricas onde os robôs constroem robôs. Sistemas capazes de produzir imagens, música, texto e voz com uma rapidez que transforma o talento humano numa actividade de paciência.
Olho para o mapa do mundo, e vejo que o futuro já se divide. Se há exemplo que merece atenção, é o do Império do Meio. Impressiona-me menos a tecnologia do que a visão. Enquanto milhões de jovens são preparados para criar com a Inteligência Artificial, grande parte da Europa continua entretida a discutir se a ferramenta é útil ou perigosa, como se ambas as coisas não pudessem ser verdade ao mesmo tempo.
Por cá, tendemos a tratar a tecnologia como um brinquedo. Os outros utilizam-na como uma alavanca. Na China, encurtam-se decisões, aceitam-se mais riscos, e age-se. Enquanto isso, na Europa, instalou-se um sistema sofisticado de imobilidade, com mais validações, mais reuniões, mais camadas, mais protecção contra o erro e uma urgência cada vez menor em fazer. Afeiçoamo-nos à arte de explicar porque não podemos executar, em vez de querermos ser os melhores a provar que o podemos fazer.
Daqui a alguns anos, a diferença tornar-se-á evidente. Possivelmente quando já não houver muito a fazer.
Olho para os mais novos, para essa vasta multidão de gente que já trabalha, situada entre os vinte e cinco e os quarenta e cinco anos, e vejo uma serenidade que me desconcerta. Caminham para o emprego como quem embarca num paquete convencidos de que o mar permanecerá sempre calmo. Têm benefícios. Têm horários. Têm direitos. Têm aplicações para gerir a ansiedade produzida pelo excesso de aplicações destinadas a gerir a ansiedade. E acreditam, com uma fé que faria inveja aos santos antigos, que o amanhã será uma repetição ligeiramente melhorada do dia de hoje.
Talvez seja. Talvez não.
Às pessoas em idade produtiva, o futuro poderá apresentar-se sob a forma de uma pergunta incómoda:
- Que lugar resta ao Homem quando a máquina pensa, decide e executa, sem intervenção humana?
Aos que agora começam a vida, a adaptação será talvez mais fácil. Também mais dolorosa. Crescerão num mundo que lhes parecerá natural e que aos mais velhos continua a soar a ficção científica.
Há, contudo, um aspecto que me diverte. Durante décadas prosperaram os lambe-botas, os especialistas da reverência, os profissionais da bajulação e os amorfos. Talvez as máquinas venham introduzir uma certa brutalidade meritocrática. Os algoritmos não se deixam impressionar por sorrisos servis nem por elogios oportunos.
Pelo menos por enquanto.
O lado menos optimista permanece inalterável. A política continuará a ser política. Os interesses continuarão a ser interesses. As estruturas de poder apenas mudarão de vestuário. Ao longo dos séculos, os homens aperfeiçoaram as ferramentas; raramente aperfeiçoaram na mesma medida as intenções. Continuaremos, provavelmente, a ser aquilo que sempre fomos; habitantes de um mundo governado por uma minoria suficientemente organizada para mandar e por uma maioria suficientemente distraída para obedecer.
O dinheiro não existe, a não ser para o pobre e para o remediado. Os restantes limitam-se a mover algarismos de um lado para o outro, como sacerdotes de uma religião cujos deuses habitam servidores remotos e cujos milagres se realizam por débito directo. Sabemos que o dinheiro é uma convenção. Mas uma convenção extraordinariamente persuasiva. Experimentem dizer isso ao padeiro quando chegar a hora de pagar o pão.
Aproxima-se um tempo de abundância tecnológica e de escassez de sentido. Os nossos dias correm o risco de ficarem cheios de nada. Nunca produzimos tanto. Nunca comunicámos tanto. Nunca estivemos tão ocupados. E, no entanto, nunca socializámos tão pouco. Estamos cada vez menos sociais, emparedados num isolamento que nenhuma rede consegue disfarçar.
A indústria já se encarrega de desenhar o remédio; companheiros digitais criados à nossa imagem e semelhança. Réplicas virtuais programadas para nos fazer companhia e ouvir os nossos desabafos. O Homem moderno corre o risco de acabar a conversar com o seu próprio eco, convencido de que encontrou um amigo.
Sabem que mais? Adoptem um cão. É muito mais saudável.
Se as máquinas trabalharem por nós, pensarem por nós, criarem por nós e decidirem por nós, que faremos nós?
Suspeito que essa seja a única questão verdadeiramente importante. E, curiosamente, é também aquela para a qual ainda ninguém parece ter resposta.
Pergunto-me, por vezes, o que aconteceu aos princípios. Não aos princípios proclamados nas redes sociais, que esses nascem de manhã e morrem antes do jantar. Refiro-me aos outros. Àqueles que serviam de âncora.
Tenho uma âncora. Não uma dessas âncoras enferrujadas que repousam no fundo dos portos, mas uma outra, invisível, que me permite saber onde estou mesmo quando ignoro para onde vou. Ela dá-me referências. Orientações. Norte.
Conheço-me razoavelmente bem. Pelo menos melhor do que aqueles que me explicam quem sou. E isso basta-me. Tem-me bastado sempre. E isso permite-me arriscar nas minhas escolhas.
Vivemos tempos de uma certa morrinha intelectual. Há opiniões em excesso e pensamento em défice. Muito ruído e pouca música. Muita convicção e escassa reflexão. Nunca foi tão fácil falar. Nunca pareceu tão difícil dizer alguma coisa. Mas talvez seja assim desde que o primeiro macaco descobriu a eloquência e decidiu explicar aos outros macacos como deveriam viver.
Já estou velho para morrer. Não porque a morte me assuste particularmente. Mas porque tenho mais o que fazer. Além disso, preocupar-me com a morte ocupa demasiado tempo à vida. E eu não quero.
Tenho ainda demasiadas conversas para ter comigo e com o mar, demasiados pôres-do-sol para contemplar sem qualquer utilidade prática, demasiados livros para deixar a meio e demasiadas pessoas para continuar a gostar em silêncio.
Pode vir quem quiser dizer que as minhas decisões de vida nada valem. Que escolhi mal. Que devia ter sido outra coisa, seguido outro rumo, acreditado noutras verdades.
Escuto com atenção.
Depois sigo caminho.
As esperanças caem como tordos. Cada dia, uma. Felizmente há muitas. E algumas sobrevivem. Escondidas. Teimosas. Ridículas até.
Talvez seja nelas que reside o último escândalo da condição humana. Sabermos tão pouco. Controlarmos tão pouco. Durarmos tão pouco. E, apesar disso, continuarmos a acordar todas as manhãs convencidos de que vale a pena viver mais um dia.
No fim de tudo, continuo à conversa com a vida.
Ela fala pouco.
Eu também.
Sentamo-nos os dois à mesma mesa, observando a comédia humana passar diante da janela. Às vezes rimo-nos. Outras vezes abanamos a cabeça. Frequentemente não percebemos nada.
E talvez seja essa a parte mais divertida.
Porque, afinal, uma centelha de energia a caminho de lugar nenhum não tem obrigação de compreender o universo. Tem apenas o dever de o atravessar com alguma curiosidade, um resto de ternura e sentido de humor suficiente para, de vez em quando, olhar para toda esta extraordinária confusão e dizer:
- Ri-te, carago!






















