Bruxelas prepara-se para vestir as cores nacionais no próximo dia 10 de junho, quando o Bois de la Cambre acolherá, como é tradição, as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, com controvérsia na aprovação das associações presentes.
A data, escolhida para homenagear Luís de Camões no aniversário da sua morte em 1580, evoca historicamente a identidade nacional e o orgulho da diáspora. No entanto, este ano, a atmosfera festiva é precedida por uma onda de contestação sem precedentes nas redes sociais e colocando em causa a transparência e a equidade no apoio às associações portuguesas no país.
O cerne da polémica reside na atuação da Federação das Associações Portuguesas na Bélgica (FAPB). Conforme detalhado em diversas notas de imprensa enviadas à redação do jornal Luso.eu e corroborado por denúncias que circulam amplamente na comunidade, pelo menos seis Associações Sem Fins Lucrativos (ASBL), incluindo algumas com histórico relevante na promoção cultural, foram impedidas de participar nos eventos oficiais.
A situação é ilustrada por casos emblemáticos de várias associações. "Os nossos estatutos foram alterados e, mesmo assim, ainda não podemos participar", lamenta um membro da "Lobos Motards ASBL". Ana Stebia acrescenta: "Pedimos acesso ao regulamento e informação para a participação da nossa Associação Portuguesa 10 de Junho em 2018 e, até hoje, nada; e-mails sem resposta, etc.". Há ainda informações de que pedidos de outras entidades, como a Casa do Benfica de Bruxelas, a Associação "A Ponte" e a Associação "Ribatejo", terão sido igualmente negados.
Estes testemunhos expõem a fragilidade dos argumentos oficiais. "Se os estatutos das associações são públicos e foram devidamente ajustados, os motivos práticos que levaram ao seu afastamento permanecem obscuros, levantando suspeitas de que a representatividade está a ser comprometida por favorecimentos pessoais em detrimento de critérios objetivos", afirma Manuel Meireles.
Num e-mail urgente, a que este jornal teve acesso, as associações excluídas questionam diretamente se a diplomacia portuguesa tem pleno conhecimento destas barreiras e exigem uma fundamentação oficial para as decisões da FAPB. O documento sublinha uma "perceção crescente de que a seleção não segue critérios objetivos", alertando para o risco de os fundos e oportunidades de celebração serem distribuídos dentro de um "círculo restrito". Foi enviado um pedido formal de esclarecimentos dirigido à Embaixada de Portugal na Bélgica, com o objetivo da sua tomada de conhecimento da situação e esperança da resolução do problema.
O 10 de junho, que durante o Estado Novo foi conhecido como "Dia da Raça", foi redefinido após a Revolução de 25 de Abril de 1974 para refletir valores democráticos e a inclusão de todas as comunidades emigrantes. As vozes discordantes da exclusão das associações no dia de Portugal, argumentam que, excluir associações legítimas das comemorações no Bois de la Cambre, contradiz o espírito inclusivo que a data passou a simbolizar nas últimas décadas.
Enquanto a comunidade aguarda uma resposta escrita da Embaixada sobre as medidas que tenciona tomar para garantir a lisura do processo, a data da festa no parque Bois de la Cambre aproxima-se. As associações portuguesas contam com o apoio da Embaixada de Portugal na Bélgica para a articulação institucional e garantir que os princípios de transparência, participação e representatividade sejam plenamente assegurados junto da comunidade portuguesa.




