Centenas de milhares de cristãos siríacos foram mortos no genocídio Sayfo de 1915, com consequências ainda hoje. Em Bruxelas, uma exposição e um documentário recordam a memória de um povo que se recusou a desaparecer.
A comuna de Woluwe-Saint-Lambert acolheu, no âmbito da exposição “SAYFO 1915: o povo siríaco – história de um genocídio esquecido”, a projeção do documentário Zahqa dlo kolo, dedicado à memória do genocídio do povo siríaco. O jornal Luso esteve presente na sessão.
Organizada pela European Syriac Union, a iniciativa recordou um dos genocídios menos conhecidos do século XX. Estima-se que entre 250 mil e 500 mil siríacos cristãos tenham sido mortos em 1915, durante o declínio do Império Otomano, através de massacres, fome e deportações forçadas em massa.
Produzido pela Suroyo TV, o documentário reúne testemunhos de sobreviventes e descendentes das vítimas, revelando décadas de sofrimento, perseguição religiosa e deslocações forçadas. Ao longo da obra, relatos pessoais cruzam-se com imagens de arquivo chocantes, mostrando cidades destruídas, deportações em massa que eram na realidade marchas forçadas pelo deserto sem alimento nem proteção, com execuções de famílias inteiras, pilhagens, violações, enforcamentos públicos, decapitações, desventramentos, cercos de cidades até à morte por fome e famílias destruídas e separadas pela violência.
O filme retrata o terror vivido pelas comunidades cristãs siríacas perseguidas por forças otomanas, curdos e grupos armados locais. Muitos cristãos foram assassinados nas suas casas; outros foram obrigados a abandonar as suas terras sob ameaça de morte.
O Luso falou com participantes presentes no evento, que partilharam memórias dolorosas e traumáticas transmitidas entre gerações. Uma testemunha recordou que, em criança, a família barricava portas e janelas com móveis para tentar impedir ataques à família durante a noite. Ainda hoje, muitos membros da comunidade carregam profundas marcas emocionais do genocídio e vivem dispersos pela diáspora.
A exposição pretende sensibilizar o público para a história deste povo cristão originário da Mesopotâmia — atuais territórios da Turquia, Síria, Iraque, Líbano e Irão — e alertar para a perseguição religiosa que continua a atingir cristãos em alguns destes países e outras regiões do mundo, sendo alguns destes, dos países mais perigosos do mundo para cristãos, segundo um estudo da Open Doors.
O evento destacou ainda a importância da preservação da memória coletiva, da língua aramaica e da identidade cultural siríaca. A exibição terminou com um momento de convívio, partilha e reflexão entre participantes e organizadores, num ambiente marcado pela homenagem às vítimas e pela defesa da dignidade humana e do dever de memória.



