Há datas que existem para nos fazer recordar. Não por obrigação cívica nem por rotina protocolar, mas porque o esquecimento, quando incide sobre certas memórias, cobra um preço que as gerações seguintes normalmente pagam em sangue.
O Dia da Europa é uma dessas datas, e este ano, como em todos os anos, vale a pena parar e perguntar: “o que é, afinal, esta Europa que celebramos?”
O continente europeu não chegou à paz por acaso nem por virtude natural dos seus povos. Chegou pela exaustão. Pela devastação. Por ter olhado para o espelho depois de 1945 e não ter reconhecido o rosto que lá encontrou. A Europa foi, durante séculos, um palco de guerras fratricidas, de impérios em colisão, de nacionalismos que prometiam grandeza e entregavam ruínas. Das Guerras religiosas às trincheiras da Flandres, passando pelos pogroms e pelas purgas, a história europeia é também uma história de uma violência que a civilização não soube conter.
Mas foi a Segunda Guerra Mundial que esgotou de vez a paciência da História. O nazismo e o fascismo não foram apenas regimes cruéis, foram a demonstração mais acabada do que acontece quando a política abandona a razão e abraça o instinto tribal, quando o Estado se torna instrumento de extermínio e a lei se dobra à vontade do mais forte. A vitória sobre esses regimes foi sangrenta e custosa paga com dezenas de milhões de vidas, com cidades reduzidas a escombros, com famílias desfeitas em campos de concentração e em frentes de batalha. Não foi uma vitória limpa nem indolor. Foi uma vitória arrancada com unhas e dentes à barbárie.
E foi precisamente nessa dor que nasceu uma ideia nova. Homens como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, um francês, um alemão e um italiano, filhos de nações que se haviam destruído mutuamente, decidiram que a única resposta sensata à guerra era a interdependência. Não a aliança militar entre vencedores e vencidos mas a integração económica e política entre iguais. A Declaração Schuman, assinada a 9 de Maio de 1950 não era um tratado de paz, era uma aposta no futuro. Uma aposta em que os países europeus poderiam construir juntos algo que nunca conseguiriam destruir separados.
O que se seguiu foi um trabalho de décadas, lento, imperfeito, frequentemente frustrante. A União Europeia não nasceu de uma revolução nem de um golpe de génio. Nasceu da negociação paciente entre democracias com visões diferentes do mundo. Sociais-democratas e democratas-cristãos, liberais e conservadores, federalistas convictos e defensores orgulhosos da soberania nacional, todos eles se sentaram à mesma mesa, todos eles cederam algo, e todos eles contribuíram para um projecto que nenhum deles, isoladamente, conseguiria imaginar até ao fim. É isso precisamente que torna a União Europeia singular. Não foi imposta por um poder hegemónico nem ditada por uma ideologia triunfante. Foi construída pelo compromisso entre adversários que partilhavam um valor fundamental, a democracia.
Hoje esse projecto enfrenta tensões que não seria honesto ignorar. O populismo corrói a confiança nas instituições, as desigualdades entre Estados-membros alimentam ressentimentos por vezes legítimos. A pressão migratória e as crises de segurança testam a solidariedade proclamada nos discursos. Além disso há, dentro e fora das fronteiras europeias, quem aposte abertamente no fracasso desta experiência, quem prefira um continente de nações fechadas sobre si mesmas, competindo entre si pela atenção, apoio e aliança de potências externas.
Celebrar o Dia da Europa não é celebrar a perfeição da União. É celebrar a alternativa que ela representa. É reconhecer que este espaço de paz, de liberdade de circulação, de direitos fundamentais garantidos por tribunais supranacionais, não é a norma da história europeia, é a excepção. Uma excepção que exigiu coragem política, imaginação e a disposição de aprender com os piores erros do passado.
A Europa que temos é a Europa que escolhemos. E escolhê-la de novo, todos os dias, com lucidez e sem ingenuidade, é talvez o acto político mais importante que as democracias europeias podem praticar.

