É perfeitamente natural que, após quase sete anos sem uma estreia em sala de um filme do universo “Star Wars”, a escolha tenha recaído sobre o bounty hunter mandaloriano e o seu curioso foundling.
Afinal de contas “The Mandalorian”, estreada em 2019, foi apenas o segundo sucesso indiscutível deste universo na era Disney depois de “Rogue One” (2016) pelo que não restam dúvidas quanto à sua importância na definição do futuro do franchise.
Ainda assim, esta aposta seguiu um caminho pouco comum. Levar para a sala de cinema uma narrativa originada na televisão enquanto a série ainda decorre não é propriamente um modelo frequente. Há muitas séries que geram adaptações cinematográficas, outras que prolongam a sua história no grande ecrã após o fim da exibição televisiva, e algumas até encontram no cinema o seu desfecho. Mas séries que inserem um filme canónico a meio da sua existência são praticamente inexistentes. Aliás, se excluirmos a animação e os telefilmes, o exemplo mais próximo que me ocorre é o universo “The X-Files” com o seu primeiro filme, “Fight the Future”.
E a verdade é que, nesse caso, funcionou. O filme elevou a mitologia da série para uma escala que a televisão da época ainda não conseguia sustentar, expandiu o lore de forma relevante, apresentou um arco significativo para as personagens e teve um verdadeiro peso narrativo dentro da continuidade geral. Havia uma justificação clara para existir enquanto filme. Não era só um episódio mais longo, era um acontecimento importante dentro daquele universo.
É precisamente aí que “The Mandalorian and Grogu” tropeça. Vou ser já muito claro e brutalmente honesto: para mim, o maior problema de “The Mandalorian and Grogu” não é aquilo que faz, mas aquilo que nem sequer tentou fazer.
É que o filme de Jon Favreau não é incompetente, nem é sequer particularmente dececionante. As personagens continuam carismáticas, o universo mantém intacta a sua capacidade de despertar curiosidade e a produção apresenta o nível de visual que o público espera da franquia “Star Wars”. Mas nada disto responde à pergunta fundamental que paira no ar desde que vimos o primeiro trailer: porque é que esta história precisava de ser um filme? A resposta, infelizmente, nunca chega.
A aventura protagonizada por Din Djarin e Grogu desenrola-se com a mesma lógica episódica que definiu grande parte da série televisiva. Há uma missão, obstáculos pelo caminho, algumas referências para os fãs mais atentos e um conjunto de encontros que permitem explorar mais um recanto da galáxia. Tudo funciona. O problema é que funciona exatamente da mesma forma que funcionaria num normal episódio da série. Não há aqui uma ameaça de dimensão invulgar. Não existe uma transformação significativa das personagens. O estado do universo permanece essencialmente inalterado quando os créditos finais surgem. A narrativa avança, mas história daqueles personagens raramente parece progredir. Quando o filme termina, a sensação dominante não é a de ter assistido a um capítulo decisivo, mas de termos visto só mais um episódio normal.
Sendo que essa ausência de ambição narrativa fica ainda mais evidente porque “The Mandalorian” nunca foi uma série particularmente tímida nas suas aspirações. Ao longo das suas três temporadas, e especialmente nas duas primeiras, a produção serviu simultaneamente de porta de entrada para novos espectadores e de eixo central para uma parte significativa do universo “Star Wars” pós trilogia original. Introduziu personagens, recuperou outras, estabeleceu ligações a outras séries e filmes e ajudou a preparar o terreno para futuras narrativas. Independentemente da opinião de cada um sobre essas escolhas, raramente se podia acusar a série de pensar pequeno. Por isso mesmo, a contenção de “The Mandalorian and Grogu” surpreende. Não é que uma história simples seja necessariamente um problema, mas o filme parece incapaz de transformar essa simplicidade em algo cinematograficamente relevante.
Isto não significa que o filme seja aborrecido. Pelo contrário. Favreau continua a demonstrar uma compreensão invejável do ritmo de aventura que sempre esteve no ADN de “Star Wars”. A narrativa avança sem grandes tempos mortos, as sequências de ação são eficazes e o humor surge com naturalidade suficiente para evitar os excessos que por vezes afetam outras produções, quer deste universo quer de outros. Existe também um conforto quase imediato em regressar a estas personagens. Din Djarin continua a ser um protagonista meio silencioso, mas eficaz, enquanto Grogu mantém intacta a capacidade de captar a atenção do público com gestos mínimos. A química entre ambos continua a ser o verdadeiro coração da narrativa e é, em grande medida, aquilo que vai sustentando o filme durante os seus momentos menos inspirados. Contudo, essa familiaridade acaba por se tornar parte do problema. Um filme pode viver do reencontro com personagens queridas pelo público, mas dificilmente sobrevive apenas disso. A dada altura é necessário justificar o investimento emocional pedido ao espectador. É necessário que algo mude, que algo seja posto em causa ou que algo seja conquistado. “The Mandalorian and Grogu” parece recear constantemente dar esse passo de forma contundente.
Narrativamente, o mandaloriano Din Djarin e o seu pupilo Grogu têm sido recrutados pela Nova República para desmantelar as fações remanescentes do Império na Orla Exterior. No entanto, a mais recente missão obriga-os a lidar diretamente com os Gémeos Hutt, primos de Jabba e pretendentes ao controlo do seu antigo império criminal, que detêm informações cruciais sobre o paradeiro e a identidade do misterioso Comandante Coin. Em troca desses dados, os Hutts cobram um favor pessoal, o resgate de Rotta, o filho de Jabba, um pedido com segundas intenções que lança a dupla de protagonistas numa teia de tensões e alianças perigosas na periferia da galáxia.
Este argumento, assinado por Jon Favreau, Dave Filoni e Noah Kloor, é talvez o melhor exemplo desta hesitação. A trama cumpre a sua função com eficiência suficiente, mas, para além de raramente surpreender, falta-lhe ambição. Os acontecimentos sucedem-se de forma lógica, os objetivos são claros e os conflitos facilmente identificáveis. O problema é que quase tudo parece decorrer segundo expectativas demasiado previsíveis, sem rasgo e sem impacto. O filme evita eficazmente erros graves, mas com isso escapa também aos riscos que poderiam melhorar significativamente a narrativa.
Quanto ao elenco, Grogu continua a ser trazido à vida através de uma combinação de animatronics, marionetas e efeitos visuais. Din Djarin mantém a voz de Pedro Pascal, apesar do fato do mandaloriano ser partilhado entre o ator e os duplos Brendan Wayne e Lateef Crowder. O restante elenco inclui nomes como Sigourney Weaver, no papel da Comandante Ward da Nova República, Steve Blum como Zeb Orrelios, Jeremy Allen White como Rotta The Hutt e até uma breve participação de Martin Scorsese que dá voz ao ardenniano Hugo Durant.
Naturalmente, os fãs encontrarão múltiplas referências ao universo alargado. Regressam personagens oriundas de “The Clone Wars” e “Rebels”, como Zeb, Rotta e Embo, assim como elementos familiares da iconografia da saga. Há AT-ATs e outros walkers imperiais, X-Wings da Nova República e até uma nova versão da Razor Crest para Din Djarin. E algumas destas referências são particularmente engenhosas, como por exemplo a sequência da arena de gladiadores, que funciona simultaneamente como espetáculo visual e homenagem ao primeiro “Star Wars” de 1977, já que as criaturas em combate evocam as peças do jogo de holochess visto a bordo da Millennium Falcon, enquanto o próprio design do espaço recria subtilmente a estética do tabuleiro. É um dos momentos em que o fan service deixa de ser apenas reconhecimento e passa a integrar-se organicamente na narrativa. E resulta muito bem.
Visualmente, o resultado mantém o padrão elevado que a série sempre estabeleceu desde o início. A utilização da tecnologia com efeitos práticos continua a produzir ambientes convincentes, a direção artística preserva a identidade visual que distingue esta fase do universo “Star Wars” e os efeitos especiais revelam um nível de acabamento que dificilmente desaponta. O problema é que aquilo que em 2019 era revolucionário para televisão há muito que já não surpreende em contexto cinematográfico. Durante décadas, a passagem da televisão para o cinema implicava uma transformação visível da escala. O grande ecrã permitia mostrar aquilo que a televisão não conseguia. Hoje, essa diferença é cada vez menos evidente e quando uma série já apresenta valores de produção desta dimensão, o cinema precisa de oferecer algo mais do que apenas uma versão ligeiramente maior da mesma experiência. Precisa de justificar a sua existência através do argumento, das emoções e do espetáculo. E “The Mandalorian and Grogu” raramente consegue exceder-se nesses campos. Cumpre, mas não extrapola.
A banda sonora de Ludwig Göransson mantém-se eficaz, recuperando os temas e a identidade sonora que ajudaram a definir a série desde a sua estreia e, tal como acontece com a realização de Favreau, o trabalho é competente, seguro e perfeitamente funcional. Mas, mais uma vez, dificilmente transcende aquilo que o público já esperava encontrar.
Talvez seja essa a maior ironia de “The Mandalorian and Grogu”. Durante anos, esta série representou uma das faces mais promissoras da renovação de “Star Wars”. Demonstrou que ainda existiam histórias para contar naquele universo, personagens capazes de conquistar uma nova geração de espectadores e caminhos alternativos aos conflitos eternamente centrados nos Jedis e nos Skywalkers em particular. Mas, ao chegar finalmente ao cinema, acaba por escolher a segurança em detrimento da ambição.
O resultado é um filme competente, agradável e frequentemente divertido. Um filme que dificilmente desagradará aos fãs da série. Mas também um filme que raramente parece compreender a oportunidade que tinha diante de si. Paradoxalmente, é precisamente pela ausência de falhas evidentes que se torna mais difícil ignorar a falta de ambição. Há competência em praticamente todos os departamentos. Há profissionalismo. Há experiência. O que raramente existe é a sensação de urgência criativa que costuma distinguir os capítulos verdadeiramente marcantes de uma franquia com quase cinquenta anos de história. Aliás, é sem grande dificuldade que identificamos episódios e arcos narrativos da série consideravelmente mais marcantes que este filme e cuja trama funcionaria muito melhor em sala do que esta.
Quando os créditos finais aparecem, a pergunta inicial permanece ainda sem uma resposta clara: o que havia nesta história que fosse merecedora de ter estreado em cinema? A resposta mais honesta é também a mais incómoda: Muito pouco.
Por: Mesquita Ricardo







