Natureza como lugar comum – mas com limites



“Não se pode fazer o que se quer em espaço natural, como sair dos trilhos, porque nos espaços naturais existem outras regras – que nós não entendemos”.

Ouvi estas palavras no discurso de um grande entendedor da natureza da Ilha da Madeira. Num fim de semana dedicado à sustentabilidade, Raimundo Quintal, na sua sincera e irónica maneira de falar, expôs alguns dos problemas atuais e provocou o riso fácil aos participantes. De forma intencional ou não, foi automática a nossa inquietação face às questões que levantou, deixando-nos com a certeza de que, apesar de parte integrante do problema, somos também a solução.

O levantar destas questões trouxe-me à memória uma referência mundial no campo da evolução humana: Yuval Noah Harari. Nas suas intervenções precisas tem-nos dito o mesmo: “Temos de compreender que a natureza é muito complexa, e nós não a entendemos”. Esta reflexão coloca-nos a dúvida se, na tentativa de melhorar a nossa vida, estaremos nós a deslocar o nosso foco do essencial: de que a transformação se deveria dar, acima de tudo, no foro íntimo. Quando passamos de explorar a nossa interioridade para buscar, mais ambiciosamente, extensões fora de nós, estaremos, em tantas vias, a corromper sistemas que ainda não entendemos completamente. E essa é uma certeza.

Mas será esta uma razão para não olharmos a natureza como fonte de recursos naturais?

Não, a natureza é, no seu todo, um grande ecossistema, cujo fluxo distribui energia entre todos os seres vivos, através dos ciclos e dos múltiplos fenómenos. E é nesta rede intricada de conexões fundamentais que a vida acontece. Por esta razão, na aproximação à natureza, a atitude de moderação é a única capaz de responder conscientemente, dentro do espectro da nossa compreensão. A homeostase ecológica, ou o estado de equilíbrio entre os organismos, parece existir naturalmente sem intervenção humana. No entanto, na presença humana, a harmonia não tem de ser interrompida, se nela soubermos existir.

Torna-se cada vez mais difícil fazer as previsões exatas do nosso impacto, agora no âmbito tecnológico. É mais fácil amplificar um sistema por meio da tecnologia do que compreender as consequências indesejáveis de certas atitudes. Só conseguimos compreender de forma aproximada o que manipulamos, o resto está fora do nosso alcance.

Talvez a realidade não seja um sistema. Pelo menos não um sistema fechado, onde as complexas interações dos intervenientes não têm carácter fixo em ciclos repetitivos. Existem os padrões que se repetem no tempo, e nas diferentes escalas, e também existe o caos – o estado de fenómenos fora de uma ordem organizada, o carácter rebelde da natureza que não encaixa em modelos previsíveis. Tudo o que foge à ordem, falha na nossa compreensão. Tornam-se mistérios indiscritíveis que dificultam a comunicação. O conhecimento que temos é uma porção de uma verdade mais complexa, onde imagino acontecerem coisas fascinantes.

Já dizia o grande físico americano Richard Feynman: “A natureza utiliza longos fios para tecer os seus padrões, mas os bocados mais pequenos permitem revelar a estrutura de toda a tapeçaria.” Numa combinação invulgar entre entendimento científico e busca de sentido em esferas do imaginário, o cientista também nos permite pensar na relevância da nossa escala no cosmos: “É talvez porque os seus horizontes são demasiado limitados que algumas pessoas julgam que o homem é o centro do universo.”

Penso que a natureza saberá melhor das leis que nos incluem a nós próprios. Precisaríamos de “sair da ilha, para ver a ilha”, como José Saramago tão bem nos conduziu. No entanto, seria necessária uma capacidade sobrenatural para sair de um processo que nos inclui, de forma a poder visualizá-lo na sua plenitude. Infelizmente, de momento, a tecnologia ainda não nos permite fazer tal acrobacia de perceções, mas se tal acontecesse, talvez num universo paralelo, provavelmente não sairíamos mais dos trilhos relatados por Raimundo Quintal, constatando que esses trilhos são metáfora para tantos outros contextos naturais, onde o nosso apreço contribuiria para um maior equilíbrio fundamental.

 

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