(Tempo de leitura: 2 - 3 minutos)
Faixas e cartazes de protesto em casas rurais de Barroso, com mensagens contra a exploração mineira de lítio, ilustrando a oposição da população local ao projeto referido no artigo.


BOTICAS – A região do Barroso, em Trás-os-Montes, prepara-se para aquela que será a maior transformação da sua história milenar. Com a recente "luz verde" de Bruxelas e um apoio financeiro da AICEP que pode chegar aos 110 milhões de euros, o projeto da Savannah Resources em Boticas avança a passos largos.

No entanto, o que para a economia europeia é um "projeto estratégico", para as populações locais é o princípio do fim de um modo de vida único no mundo.

A Paisagem: Do Verde das Serras às Crateras a Céu Aberto

A classificação do Barroso como Património Agrícola Mundial pela FAO está agora sob pressão direta. A exploração de lítio não será uma intervenção discreta: as prospeções indicam um potencial que ultrapassa as 100 milhões de toneladas de minério.
Na prática, isto significa a abertura de enormes crateras a céu aberto. A paisagem de socalcos e montes virgens será substituída por uma zona industrial de grande escala, com movimentação constante de maquinaria pesada e a criação de escombreiras que alterarão de forma irreversível a orografia da região.

Agricultura e Pastorícia: O Fim da Transumância?

O impacto mais profundo sente-se no solo e na água. O Barroso vive da agricultura de subsistência e da pastorícia, baseada num sistema comunitário de gestão de baldios.
 * Corte de Linhas de Água: A mineração exige consumos hídricos massivos, o que levanta sérios receios sobre a sobrevivência dos "lameiros" (pastagens naturais regadas).
 * O Gado Barrosão: Sem pastos e com o ruído constante das detonações, os criadores temem que o gado bovino — símbolo da região — perca as condições de pastoreio livre que garantem a qualidade da carne DOP.
 * Expropriações: Com o processo de expropriação a entrar na fase final, muitos agricultores veem-se forçados a abandonar terras que pertencem às suas famílias há gerações.

Um Conflito de Valores: Ecologia vs. Estratégia

A associação "Unidos em Defesa de Covas do Barroso" acusa o Estado português de sacrificar o bem-estar das populações em nome da transição energética europeia. Enquanto o Governo e a União Europeia defendem que o lítio de Boticas é essencial para fabricar baterias para 47 milhões de carros elétricos, os locais lembram que "não há ecologia sem pessoas".
O recente indeferimento judicial da ação para anular o contrato de concessão foi um balde de água fria para os movimentos cívicos, mas a resistência continua viva, com acampamentos e protestos que prometem marcar o verão de 2026.

O Barroso tornou-se o palco principal de um paradoxo moderno: para descarbonizar as cidades e cumprir as metas climáticas de Paris, a Europa parece disposta a sacrificar um dos seus últimos redutos de sustentabilidade rural tradicional. A "luz verde" de Bruxelas pode iluminar o futuro dos carros elétricos, mas projeta uma sombra de incerteza sobre o destino das gentes de Boticas.

Lítio, Barroso, Boticas, Savannah Resources, exploração mineira, transição energética, património agrícola, agricultura, pastorícia, Covas do Barroso, impacto ambiental, expropriações, carros elétricos, desenvolvimento regional, Trás-os-Montes, sustentabilidade, biodiversidade, economia verde.


 



 

EMBAIXADA DE PORTUGAL

Temos em linha

Temos 20024 visitantes e 1 membro em linha

NOTÍCIAS RECENTES

We use cookies
Usamos cookies no nosso site. Alguns deles são essenciais para o funcionamento do site, enquanto outros nos ajudam a melhorar a experiência do utilizador (cookies de rastreamento). Você pode decidir se permite os cookies ou não. Tenha em atenção que, se os rejeitar, poderá não conseguir utilizar todas as funcionalidades do site.