Em São Tomé e Príncipe, o teatro não ocupa apenas o espaço simbólico da cultura. Funciona como linguagem pública, meio de educação informal e ferramenta de contacto direto com as comunidades.
É a partir dessa experiência que o escritor, professor universitário e dramaturgo Pedro Sequeira de Carvalho constrói a sua intervenção artística, assumindo a escrita teatral como forma de participação cívica. À frente da companhia teatral DEMOS, o autor inscreve o palco no quotidiano social, tratando temas que atravessam a vida coletiva e recusam o silêncio, da desigualdade à violência doméstica, da pobreza às tensões geracionais.
Na entrevista, o dramaturgo descreve um país onde o teatro encontra aceitação junto da população e onde as mensagens transmitidas pelos artistas são recebidas com seriedade. Essa relação de proximidade explica o uso recorrente das artes cénicas por instituições públicas e organizações não governamentais como meio de sensibilização. Para Pedro Sequeira de Carvalho, o teatro distingue-se pela capacidade de falar a todos em simultâneo, ultrapassando barreiras sociais, etárias ou culturais, e transformando a criação artística num exercício de consciencialização coletiva. É nesse ponto que o artista assume também uma função pedagógica, sem abdicar do rigor dramatúrgico nem da leitura crítica da realidade.
O entrevistado não ignora, porém, a fragilidade estrutural do setor. As artes cénicas surgem como um dos segmentos mais desprotegidos da cultura são-tomense, marcadas pela ausência de políticas públicas consistentes, financiamento regular e espaços adequados. Ainda assim, Pedro Sequeira de Carvalho insiste na dimensão transformadora do teatro, tanto para quem assiste como para quem cria. O seu objetivo mantém-se claro: afirmar a dramaturgia como uma ferramenta capaz de provocar mudanças reais na sociedade são-tomense, ensinando a encarar a realidade e a pensar o futuro a partir do palco.
A presidência da companhia teatral DEMOS tem sido marcada por uma forte ligação entre criação artística e intervenção social. De que forma o teatro pode funcionar, no contexto são-tomense, como instrumento de consciencialização cívica e transformação social?
De várias formas. O teatro sempre teve uma boa aceitação na sociedade são-tomense, tanto é que os poderes, tanto central como local e regional, sempre recorreram ao teatro para passarem as mensagens de sensibilização. E o uso de teatro como ferramenta para a passagem de informações tem sido frequente também nas organizações não governamentais - nacionais e internacionais. E as mensagens transmitidas pelo teatro têm essa possibilidade de ser transversais, inclusivas, animadas, propositadas, gerais e particulares. O teatro é uma arma cujo o tiro pode servir para as pessoas de todas as cores, todas as raças, todas as idades, todos os credos, todas as filosofias, portanto, é uma arte sublime pela capacidade que tem de atingir a consciência de todos. Desta forma, produzindo peças que transmitem conteúdos de consciencialização cívica e de transformação social e fazendo com que essas peças cheguem aos públicos alvos, acredito que o teatro pode funcionar como um catalisador de mudanças sociais positivas no nosso país.
Ao longo do seu percurso, produziu dezenas de peças centradas em temas como igualdade de género, discriminação, violência doméstica e pobreza. Como é feito o processo de escolha destas problemáticas e que critérios orientam a construção dramatúrgica?
Creio que não sou eu que escolho os temas, mas sim são os temas que me escolhem, na medida em que quando esses temas fazem parte da sociedade de uma forma perturbadora, ao pondo de não poderem ser mais ignorados, eu não vejo outra alternativa senão escrever sobre os mesmos. No ano passado comemoramos os 50 anos da nossa Independência - fomos colónia portuguesa - e, volvidos os 50 anos, esses problemas estão presentes a fustigar as nossas sociedades como um todo. Mesmo que tentamos ignorar esses problemas sociais, eles não nos ignoram, por isso, uma forma de exercermos a cidadania ativa é escrever peças teatrais sobre esses temas.
Para a construção de um país, cada um cidadão deve participar na luta com a ferramenta que tem e eu, enquanto escritor e dramaturgo, uso a escrita de peças teatrais como a arma que tenho. E tenho ainda uma mais-valia, por ser o presidente de um grupo teatral, o grupo DEMOS, assim, as peças que escrevo já tem autores e palcos para serem exibidas. Devo-lhe dizer que escrevo também sobre mais outros temas, escrevo sobre o passado, escrevo sobre o futuro, portanto, escrevo sobre os três tempos que fazem parte das nossas vidas.
Que objetivos pretende alcançar?
O meu maior objetivo é fazer do teatro uma grande ferramenta transformadora da sociedade são-tomense. Quero que o teatro tenha tanta força que a sua voz possa fazer cair o poder e erguer o poder. O teatro pode exercer uma força transformadora muito grande numa sociedade, tanto de forma individual como coletiva. O teatro é um gigante adormecido. Espero que um dia a nossa sociedade possa conhecer o seu verdadeiro poder.
Que resultados pode apontar?
Hoje, já vemos resultados significativos. Por exemplo, em termos dos espetáculos ao vivo,já temos uma grande aceitação. Já conquistamos os corações de muitas pessoas. Muitas são as pessoas que não conheciam o poder do teatro, talvez nunca imaginaram estar a sair de casa para irem assistir a um espetáculo de teatro, mas agora já o fazem. Por exemplo, há um espaço denominado “Teatro às Sextas” que foi criado e é dinamizado pelo Derio Quinto, também autor, em que há apresentações quinzenais de diferentes grupos, nós sentimos a euforia de muitos espetadores e solicitações relativamente aos dias das nossas atuações. E, para nós, é uma honra ver uma família inteira a sair de casa para ir assistir às nossas peças. É uma mudança que tem acontecido aos poucos e acredito que ainda há muito espaços para o crescimento, ainda há muitos espaços a serem ocupados pelo teatro em São Tomé e Príncipe. Mesmo os artistas também têm sentido os desafios, devido às frequências com que são abordados nas ruas, o feedback das pessoas relatando as mudanças que ocorreram nas suas vidas depois de terem assistido a uma determinada peça. Temos uma artista conhecida por Saco de Boxe, ela talvez seja uma das mulheres mais conhecidas do nosso país, isto porque ela está sempre nos ecrãs dos televisores, computadores, telemóveis dos expetadores. Basta ela andar nas ruas que há sempre comentários das pessoas sobre as suas identidades com as peças dela. As pessoas falam das mudanças, falam das transformações, falam das coisas que deixaram de fazer e das coisas que passaram a fazer por causa das mensagens que são transmitidas nas atuações dela. Falo dela por ser a atriz maior, mas os outros também têm feitos papeis que têm causados mudanças nas vidas das pessoas. Sobre isto, também há um aspeto, devo salientar, que é a mudança que o teatro causa nas vidas dos autores. Os autores têm encarado com mais seriedade esta vida de autor, porque estão a sentir que cada atuação é uma atuação na vida de quem assiste e na sua própria vida.
Muitas das questões abordadas nas suas peças estão alinhadas com agendas globais como o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos. Como equilibra essa dimensão universal com as especificidades culturais e sociais de São Tomé e Príncipe?
Eu devo informar-lhe que sou mestre em Direito Público e Desenvolvimento Sustentável pela USTP - Universidade de São Tomé e Príncipe, portanto, sou moldado neste sentido; as questões de agendas globais, como o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos,fazem parte quase do meu DNA académico. Sou licenciado em Direito e sou advogado, sou professor universitário e também tenho uma veia política social e partidária, portanto, sou um cidadão preocupado com o estado atual do mundo e piamente crente de que é possível construirmos um mundo melhor para os nossos filhos, para os filhos dos nossos filhos, para os filhos dos filhos dos nossos filhos...
O teatro social implica contacto direto com comunidades, escolas e públicos vulneráveis. Que impacto concreto tem observado junto do público e que mudanças considera mais significativas após as apresentações?
As comunidades levam à sério as mensagens que os artistas transmitem. Os artistas, de uma forma ou de outra, inspiram as pessoas nas comunidades, nas escolas e os públicos vulneráveis. Há momentos em que não sentimos diretamente as mudanças, mas, quando vemos de forma individual, quando, por outros meios, recebemos o feedback junto ao público, ficamos com a certeza de que o nosso trabalho não tem sido em vão. Há trabalho que, até certo ponto, negligenciamos, que é usar as ferramentas para medirmos os impactos das nossas atuações na vida do público e, como muitas vezes não usamos essas ferramentas da forma mais efectiva, ficamos sem saber, de uma forma geral, quais impactos as atuações têm causado nas vidas dessas pessoas. Mas é surpreendente, pela positiva, quando recebemos as reações do público. As pessoas falam de forma envolvente sobre as formas positivas que as nossas peças impactaram nas suas vidas.
Tem trabalhado temas sensíveis como o alcoolismo e a gravidez na adolescência, que exigem abordagem responsável. Qual é o papel do artista quando a criação cruza fronteiras entre arte, educação e intervenção social?
As peças educativas têm as suas características próprias, uma vez que nelas o artista não faz somente a arte pela arte. Nessas peças vê-se um reforço de preocupação em relação ao conteúdo, tanto é que é frequente o artista solicitar os apoios dos profissionais dessas áreas para assessoria na adequação das mensagens a ser transmitidas.
Enquanto escritor, professor e homem de teatro são-tomense, como avalia o atual estado das artes cénicas em São Tomé e Príncipe, no contexto social, e que caminhos considera essenciais para fortalecer o setor cultural no país?
As artes cénicas são um parente pobre da cultura e, se a cultura está mal em termos de projeção, as artes cénicas estão na parte mais degradante deste lençol. Não há programas, não há financiamentos, não há incentivos, não há espaços suficientes para as atuações e divulgações dos trabalhos, não há orçamento, não há políticas públicas culturais que incentivam a criação e produção das artes cénicas. O diagnóstico realístico ainda soa dramático. E, apesar das esperanças, a curto prazo, não tenho sólidos motivos para antever dias melhores. Temos que ter pessoas com cultura a cuidar da cultura. Sem sensibilidade, sem amor jamais haverá atenção. Ainda bem que a esperança é a última coisa que morre e, um dos papeis dos artistas é, justamente, ensinar a encarar a realidade.




