“Sentado tranquilamente à beira do rio, acabarás por ver passar o corpo do teu inimigo”, provérbio frequentemente atribuído à sabedoria chinesa.
Não é necessariamente um elogio da vingança. Ou da passividade. É talvez uma visão estratégica do tempo.
No início deste século, com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, acreditou-se no Ocidente que a prosperidade acabaria por produzir liberdade política. Apostou-se na mão-de-obra barata chinesa, num mercado gigantesco em expansão e numa integração económica que deu lucros colossais às multinacionais ocidentais.
Mas em Pequim faziam já uma leitura diferente. Integrar-se, sim. Prosperar, claro. Mas nunca aceitar a lógica política do Ocidente.
A China absorveu tecnologia, capital, conhecimento industrial e acesso aos mercados enquanto mantinha um sistema autoritário, repressivo e centralizado. E criou assim uma ditadura tecnologicamente sofisticada, industrialmente poderosa e… paciente.
Hoje domina sectores decisivos: baterias, painéis solares, minerais críticos, veículos eléctricos, partes importantes das cadeias industriais e segmentos cada vez mais sofisticados da inteligência artificial, e numa escala que as democracias ocidentais têm dificuldade em replicar.
Embora desde Obama que os alertas sobre a China já soassem, com Donald Trump entrou-se na lógica do confronto imediato: tarifas, ameaças, sanções, pressão pública, linguagem agressiva, negociação permanente. Como faz com os seus (amedrontados) aliados.
Essa estratégia pode produzir vitórias rápidas, mediáticas, eleitorais. Pode forçar concessões momentâneas. Mas enfrenta uma liderança chinesa que pensa de forma diferente.
Porque em Pequim existe a convicção de que o Ocidente entrou numa fase de desgaste relativo: polarização política extrema, ciclos eleitorais permanentes, fragmentação social, dependência financeira, fadiga estratégica, incapacidade crescente de pensar a longo prazo.
A propaganda chinesa explora constantemente essa imagem de um Ocidente agitado, dividido e errático em contraste com uma China que se apresenta como estável, disciplinada e paciente.
E é aqui que surge o grande choque da vivência do tempo nuns e noutros.
Trump personifica a aceleração permanente: resposta imediata, pressão constante, necessidade de vitória rápida, dramatização contínua.
O sistema chinês funciona quase ao contrário. Com vigilância política, controlo social, repressão das dissidências e concentração extrema de poder, a ditadura pode dar-se ao luxo do tempo longo. Aceita custos de curto prazo, suporta desacelerações económicas e transforma paciência estratégica em instrumento de poder.
Enquanto Washington procura frequentemente resultados dentro do próximo ciclo eleitoral, Pequim pensa em décadas.
E é isso que nos devia inquietar: a possibilidade de o imediatismo político das democracias entrar em desvantagem perante uma potência autoritária capaz de planear a longo prazo.
A Europa encontra-se no meio desta tensão.
Continua dependente militarmente dos Estados Unidos, mas depende cada vez mais da China para tecnologias verdes, minerais estratégicos e partes essenciais da transição energética. Ou seja: “compra” segurança aos americanos e electrificação aos chineses.
O tempo de uns e de outros não é o mesmo. E nas rivalidades longas entre grandes potências, o tempo pode ser uma arma decisiva. Era bom que os europeus soubessem onde está a sua melhor forma de estar no tempo longo. Requer visão estratégica... longa.

