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(Tempo de leitura: 4 - 7 minutos)


- Recordas-te? Conheci-te embrenhado num qualquer livro de filosofia naquela biblioteca...

- Sim, estava concentrado na Alegoria da Caverna, de Platão. 

- Platão... Foi complexa a sua compreensão mas também foi a descoberta da intrepertação do mundo de forma alegórica. 

- O que em literatura, por exemplo, pode ser uma história, um poema, uma imagem usando personagens e eventos simbólicos para representar eventos mais profundos ou ideias abstratas, muitas vezes ensinando uma moral ou lição.

- Ah! Não, não vamos aprofundar, esta memória tem a ver com o momento do nosso reencontro.

- Eu sei, foi somente o completar do significado daquele dia de estudo na biblioteca. 

- Assim nos conhecemos.

Sorriram e abraçaram-se, neste reencontro. Naquela pastelaria na baixa da cidade.

Patrícia cruzou-se com o Bruno, por mero acaso, numa biblioteca pública da cidade onde ambos viviam, ha vários anos. 

Ela tinha levantado um livro sobre a história da cidade, do qual pretendia retirar informação para um trabalho de arquitetura e sentou-se numa mesa de quatro lugares onde numa das extremidades se encontrava o que viria a ser um amigo.

Quando tentava pendurar a sua mala nas costas da cadeira onde se sentou, inadvertidamente deixou-a cair e ouviu-se o barulho que não sendo exagerado, incomodou o rapaz do outro lado. 

- Psss...  Levantou o dedo para tapar a boca para que ela ficasse em silêncio, olhando-a fixamente.

Ela ficou aborrecida porque não teve culpa, contudo pediu desculpa baixinho. Ele anuiu com um ligeiro baixar da cabeça.

Passado algum tempo, o Bruno levantou-se e saiu da mesa deixando o livro sobre o qual estava concentrado, um caderno onde colocava os seus  apontamentos, uma caneta e uma pasta.

"O que terá ido fazer?", pensou Patrícia.

Passado uns minutos, o Bruno surge com uma chávena de café na mão e volta à sua leitura e apontamentos. 

E, Patrícia nao se inibiu de meter conversa.

- Desculpe, mas não sabia que se podia tomar café numa biblioteca. Não é que o cheiro me incomode, até aprecio pois um bom café é sempre bem vindo.

Comentou em voz baixa. E ele respondeu em sussurro. Afinal, ele era simpático. 

- É verdade, de uma forma geral não é uma situação comum. Esta biblioteca junto o útil ao agradável e funciona de forma um pouco diferente. Quer um café?

- Não, obrigada. Realmente, é uma novidade para mim. Da próxima vez, tomarei um também. 

E ambos, sorrindo, voltaram a embrenhar-se nas respetivas leituras.

Algum tempo depois, ele foi-se embora, dizendo um "Adeus, até qualquer dia."

Ela ainda permaneceu algum tempo, pensando como foi um momento agradável com aquele estranho, e retirou-se posteriormente.

Não deixou de pensar nele. Houve algo que despertou a sua atenção. Para além de ter sentido uma certa raiva, momentânea, pela petulância dele quando a mandou calar na biblioteca, foi simpático quando lhe ofereceu um café. Pequenos gestos que mexeram consigo, e um misto de curiosidade e de atração ficaram em si sobre alguém que lhe pareceu diferente dos homens que conhecia.

Durante vários meses não voltaram a ver-se. 

Ela continuou com a sua vida, trabalhando numa sociedade de arquitetos e continuando à procura de ideias para novos projetos, fazendo formações sobre o seu trabalho e continuando a fazer pesquisas diversas naquela biblioteca. 

Habituou-se a tirar um café da máquina que a biblioteca tinha instalado para servir os seus frequentadores, enquanto ali permaneciam, e lembrava-se sempre do Bruno. Aliás, nem chegou a saber qual era o seu nome. 

O tempo passou e um dia, Patrícia encontrava-se numa pastelaria na baixa da cidade, usufruindo do seu lazer após um longo dia de trabalho e aproveitando as últimas horas de sol, quando entra um homem que se parecia com alguém que ela já tinha visto algures. O gesticular e a voz, e quando ele se virou, reconheceu-o daquela biblioteca.

Era o Bruno, mas ela não sabia ainda o seu nome.

Ele passa por ela, depois de ter pedido um café, e vai sentar-se numa mesa oposta onde ela se encontrava.

Patrícia observava-o. Um misto de sensações invadiram-na.  Não sabia bem o que fazer, se o interpelava ou não. Pensou que, se não fosse agora, provavelmente não voltaria a ter outra oportunidade. E arriscou.

- Olá. Desculpe o incómodo. 

Ele olhou para ela sem a reconhecer.

- Olá. Não há qualquer problema. Diga, s.f.f.

- Não se recorda de mim?

Bruno continuou a olhá-la sem reação.

- Não.

Patrícia sentiu-se constrangida e quase arrependida. 

- Desculpe, mais uma vez, mas nós cruzámo-nos há algum tempo atrás, naquela biblioteca que abriu há uns meses e em que me mandou calar porque a minha mala caiu e fez barulho e posteriormente, foi buscar um café e eu fiz-lhe constatar que nunca tinha visto uma biblioteca oferecer café a quem a frequentava.

- Hum, tenho uma vaga ideia... Sim, é verdade. Como está? Eu fiquei surpreendido por não saber disso. Pareceu-me ser uma pessoa que já lá ia há algum tempo e, à partida, deveria saber pois a empregada costuma informar sobre isso.

Convidou-a a sentar-se.

Patrícia pediu-lhe para aguardar um pouco e foi buscar a sua mala e o café que tinha na sua mesa. Algo também comum aos dois, ambos apreviavam café. Sentou-se à sua frente.

- Pois, não fui informada. Talvez por causa da conversa que tivemos e isso deve tê-la distraído. Mas, de facto, após aquele encontro eu continuo a frequentá-la, é um local muito agradável e bonito, arquitetonicamente.

- Também vou lá, esporadicamente. Gosto de estudar lá, mas como tenho a biblioteca da universidade não o faço com tanta frequência. 

- Ah, ainda estuda?!

Bruno sorri, pela quase ingenuidade.

- Sim, e não dessa forma. Sou professor de filosofia.

- Ah, muito bem.

- A propósito, estamos com uma conversa já longa, digamos, e ainda não sabemos o nome de ambos. Como se chama?

- Patrícia 

- Sou o Bruno. É  um gosto conhecer uma aficionada de bibliotecas.

- Correção, daquela biblioteca. E de café. Muito prazer, professor. É um filósofo também?

- Não, apesar de defender algumas ideias. Sou fundamentalmente um didata. E a Patrícia ainda não me disse o que faz.

- Sou arquiteta e trabalho numa sociedade. Gosto do que faço e o facto de poder contribuir para criar e construir algo é algo que me aproxima da comunidade e que me satisfaz pelo meu contributo.

- E gosta de estudar?

- Estudar história, sim. Principalmente de arquitetura ou relacionada. Porque a história revela factos que permitem a análise de erros passados e a construção de um futuro mais correto. E no caso da arquitetura, reflete a evolução do homem transformando necessidades básicas de abrigo em expressões artisticas e técnicas. Não cria apenas edifícios, também conta a história como as sociedades se organizam e se apropriam de territórios.

- Hum, muito podemos debater entre nós pois com a filosofia é semelhante, sendo que a história da filosofia é o estudo do processo histórico e do  desenvolvimento do pensamento. Mas, muito há para dizer e ainda descobrir.

A conversa prolongou-se e acabaram por se despedir, após trocarem contactos.

Nasceu uma amizade, mas a vida de ambos alterou-se e afastaram-se.

Voltaram a reencontrar-se anos mais tarde, naquela biblioteca, que entre livros e debates, a amizade de Patrícia e Bruno se cimentou até ao final dos seus dias.


 



 

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