OBRAS DE RECONSTRUÇÃO PROTELADAS Uma igreja, um incêndio e as obras de restauro que tardam!

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A igreja de Lavradas, paróquia de São Miguel foi, literalmente destruída por um violento incêndio que nela deflagrou, na gélida manhã de Dezembro do ano passado. Uma madrugada de infortúnio que colocou a população em sobressalto, atónita, desconsolada! A notícia galgava fronteiras e quase em simultâneo se assistia ao voraz furor das chamas, que deixaram apenas a solidez e a resistência das paredes.

O trágico epílogo, que causou apenas danos materiais, levou a freguesia a uma onda de curiosidade, de lamento e claro de solidarização; no mesmo ano, pouco tempo depois de outros grandes incêndios que, esses sim destruíram bens essenciais a tanta gente… E, bem pior que coisas foi, o número de vítimas mortais, que nenhum dinheiro poderá jamais compensar! A pavorosa calamidade dos fogos florestais, que abalou o país estava já na rota do esquecimento, quando este violento incêndio veio consumir boa parte do património local; a igreja por onde quase todos passam, naquela que é a vida e a história de uma paróquia.

De tal modo que mereceu a visita, algo inesperada, do presidente da República, bem ao seu modo; mediático e claro, popular. Manifestando-se desgostado com o sucedido, pois pudera! Mais uns comentários de ocasião, umas selfies e havia que rumar a outras paragens, com a ideia de missão cumprida.

Uma outra visita, bem mais antecipada, logo em cima do rescaldo, foi a do Sr. Bispo da Diocese, D. Anacleto Oliveira, que uns meses antes enjeitava não comparecer junto do seu povo, por uma outra causa que envolvia toda a comunidade Barquense! Veio a Lavradas contristar-se com a população, para de imediato lhe pedir solidariedade, contributos para uma rápida reconstrução da igreja. Apiedado com tão negro cenário regressou à sua mansão, certo de que o povo havia de corresponder, não ao seu premente apelo, mas antes, à voz da consciência de cada um e ao orgulho de reaver, com a maior brevidade, a recuperação e o pleno funcionamento do lugar de culto.

Donativos já superam os custos de reabilitação do templo!

E assim aconteceu, no que concerne à força contributiva da população, que aderiu de forma espontânea a uma onda solidária eficaz, com o objectivo da prometida e desejada reconstrução. E em pouco tempo se conseguiu o dinheiro necessário para iniciar e concluir as obras de restauro, tal era a vontade expressa pelas pessoas, que na sua maioria doaram parte das suas economias com esse intuito e não com a ideia de outros presumíveis planos. Há muito tempo que as ofertas ultrapassam os custos directos da reparação do templo. Estamos à espera de quê? -Pergunta recorrente, no povoado! Claro que o espaço cedido pela Junta de Freguesia se adapta à prática religiosa; entretanto, a solução provisória eterniza-se!

A causa deste atraso e consequente adiamento, parece ser um ou vários estudos, com radicais alterações, que visavam uma quase total transformação do local, incluindo a demolição da casa paroquial, que muito custou a edificar, suportada pelas gentes da terra; foram muitos os que recorreram a um empréstimo bancário, para custear essa obra, em tempos e circunstâncias adversas.

E a ser assim, os custos disparavam, deixando de ser uma simples reconstrução, tal como anunciado nos peditórios, para se tornar numa avultada e pomposa obra, que o povo não pode, nem deve pagar! Uma orientação - para muitos, surpreendente - contraditória, falaciosa e abusiva, relativamente aos princípios e aos objectivos estabelecidos no âmbito da recolha de dinheiro, com a designação/slogan: “donativos para a reconstrução da nossa igreja”. A proclamada reedificação foi ganhando a forma de uma mega transformação, posteriormente anunciada, por demolição daquela área e a construção de uma nova estrutura para o culto.

Tal inclinação, de todo paradoxal, está a ser travada pela razão e o bom senso da própria população da freguesia que quer, insistentemente, o início dos trabalhos, a recuperação e finalização da obra. Foi para isso mesmo que, com sacrifício, surgiram as generosas ofertas, expressiva subvenção popular.

Sensibilidade humana e cristã!

Essa ousada tentativa, premeditada vontade, leva-nos ao cerne de uma séria questão: se de facto queriam fazer, a todo o preço, uma tal obra ajustava-se implicar financeiramente a Diocese de Viana e até o Vaticano, nos custos que ultrapassam a simples reconstrução prevista, que o povo já assumiu com sustentada soma em dinheiro recolhido, amplamente suficiente para já ter sido concluída, nesta altura, a reabilitação da igreja ardida! Outras questões se colocam e bem, que nos devem fazer pensar duas vezes: por que razão tem de ser os paroquianos, sempre os mesmos, a suportar tão elevado dispêndio, que contraindica a própria doutrina da Igreja? Que por sua vez pressagia a simplicidade e a pobreza, mas não se priva de, com alguma astúcia, auferir reiteradamente a quem tanto trabalha.

As demandas de arrimo já avassalam as comunidades portuguesas, num crescente aproveitamento da generosidade de toda essa gente, que raramente diz não a este género de iniciativas. Assistimos a uma suave, quase abençoada, perseguição que roça o limite do ilícito e da usurpação consentida; consideráveis obras com o dinheiro dos outros, quem não as faz?

Para quê ostentar uma tal grandeza quando, ali ao lado, temos o Centro Paroquial e Social, instituição de apoio à terceira idade, num obsoleto estado de conservação, esse sim, a precisar, não de obras, mas de uma nova infraestrutura que traga o devido conforto e a dignidade que merecem os nossos seniores e quem lá trabalha todos os dias!? E onde está a nossa vocação solidária em relação aos que sofrem terríveis consequências de catástrofes naturais; das dependências sociais e de pobreza extrema; dos migrantes e refugiados; das guerras e dos perniciosos efeitos das ditaduras? Ao que acrescem horripilantes factos, que desafiam profundamente a nossa sensibilidade, a saber: em cada minuto morrem cinco crianças por desnutrição, a fome que mata! E cerca de 30 mil pessoas morrem, todos os dias, com fome neste mundo de repugnantes discrepâncias; enquanto isso, outros esbanjam, até daquilo que não lhes pertence!

Se tivermos a coragem e a humildade de olhar para o mundo que nos rodeia, de observar bem, as imensas privações de carácter primário de tanta gente, nossos irmãos na fé, depressa nos apercebemos que a faustosa obra se dispensa a ela própria.

Não seria necessário intentar sobre tão aparatoso projecto, que veio despertar para outras preocupantes realidades da hodierna sociedade. Há prioridades na vida de uma comunidade, com muita mais proficiência social; questão de boa-fé, de sensibilidade humana e cristã. Claro que estamos perante um caso bem mais sério do que se pensa.  De tal modo que se criaram, inutilmente, divergências e outros pérfidos sentimentos de revolta e desagrado. Recuar e ponderar é um sinal de humildade importante; deve prevalecer a razão e a justiça também naquilo que são, os contributos de suporte financeiro, inteiramente assumido pelo povo.

A opinião que interpela!

Esta é, acima de tudo, uma reflexão caritativa, qual grito que adverte e interpela, no plausível propósito de danos causados pela ocorrência de um incêndio e consequente reparo. É, em suma, o que as pessoas pensam, mas não ousam dizer; outras há que não imaginam, nem conhecem as tendências e ambiguidade de quem pode e quer decidir. Talvez se declarassem melhor numa qualquer consulta unipessoal e decisória. O aparente retraimento deve-se, em boa medida ao medo da crítica e até de represálias; calar nem sempre é consentir. Há que saber fazer uma boa leitura dos silêncios, quais gritos que interpelam e acossam.

Ao produzir este parecer, que assino e assumo, penso naqueles que não se podem exprimir, aos que já se conformaram face a um certo poder que os ultrapassa e lhes tenta impor incomportáveis alternativas. Esta é também uma questão de consciência cívica e liberdade de expressão, sobre um caso que envolve a sociedade civil. Que tomou um rumo controverso e por isso, sujeito ao debate e à opinião pública. Não é doutrina, nem sequer uma questão de crença.

Nem pode ser interpretado como uma afronta ou obstáculo ao ímpeto das decisões já tomadas. Esta anotação comporta alguma preocupação e acima de tudo a partilha de valores, quiçá mal interpretados por uns, entendidos e adoptados por outros! Tudo isto faz parte, de certo modo, da conjuntura. Em muitos casos, por certo não será este, ocorre lembrar aquele velho ditado que diz: “a ocasião faz o ladrão”! A citação é de origem popular e relaciona-se com aspectos transversais à vida das pessoas. Para concluir deixo uma outra máxima, também ela eloquente, que me intimou da mesma forma que pode interpelar cada um de nós: “Quem tem olhos para ver, que veja”! “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”.

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