Tem-se assistido a uma migração cada vez em maior escala, dos países da América Central para os EUA, tendo atingindo proporções graves nos últimos anos. A solução para as últimas administrações dos EUA é fechar as fronteiras, e inclusive construir um muro entre o México e os EUA, como defendeu Donald Trump. O plano até já teve uma aprovação de um juíz federal e o que resta saber é de onde virá o dinheiro para construir o muro.

Será que iremos repetir aquilo a que assistimos com o triste episódio do muro de Berlim ? Será que o Muro conseguirá isolar os EUA do resto da América que se encontra a latitudes mais a sul ?

Bom talvez estas nem sejam as perguntas certas para perceber este fenómeno, que também existe na Europa. Aqui não há um muro, há sim um Mar enorme a separar dois continentes e que é incapaz de mitigar as migrações de pessoas de todas as idades e raças.

A pergunta a colocar é por que é que existem migrações ? Por que é que as pessoas estão prontas para deixarem os seus lares, as suas famílias, as suas terras, arriscando vidas e pagando somas enormes a grupos mafiosos para ir viver noutro país correndo o risco de serem re-patriadas, exploradas, ou de morrerem ?

Tomemos o exemplo das Honduras. Será que a culpa das migrações dos Hondurenhos é exclusiva ao Governo Hondurenho, como opinam os principais meios de comunicação social ? Na realidade como é óbvio, sabemos que as causas são sobretudo demográficas e económicas, e como tal as migrações são uma manifestação da profunda desigualdade entre os países de onde saem migrantes e os países onde chegam os migrantes.

Nas Honduras existe uma forte presença militar norte-americana, e essa presença começou na última década do século XIX, quando as primeiras empresas de banana começaram a instalar-se nas Honduras. Como escreveu Walter LaFeber no livro « Inevitable Revolutions: The United States in Central America » as “empresas americanas construíram estradas, estabeleceram o seu próprio sistema bancário, e subornaram funcionários do governo num ritmo vertiginoso”. Como resultado “Tornou-se um enclave controlado pelos estrangeiros que sistematicamente levou o País a uma economia de uma só colheita cuja riqueza foi transferida para Nova Orleans, Nova York e, mais tarde, para Boston.”

Em 1914, as companhias norte-americanas da banana, eram donas de mais de 400 mil hectares das melhores terras hondurenhas e cresceram tanto que nos anos 20, como LaFeber afirma « os camponeses não tinham esperança em aceder ao bom solo da sua nação ». Algumas décadas mais tarde o capital norte-americano veio a dominar os sectores de exploração mineira e o sector bancário, facilitado pelo fraco estado do sector empresarial interno das Honduras.

Esta foi a principal razão pela qual foi feita a famosa Guerra das Bananas, desde o final dos anos 90 do séc XIX até aos anos 30 do séc XX, onde era essencial defender os interesses norte-americanos, sobretudo da empresa norte-americana United Fruit Company (hoje em dia Chiquita), na produção de bananas, tabaco e cana-do-açucar, entre outros produtos na América Central.

O governo Hondurenho (força política) e o exercíto (força militar) ficaram fortemente dependentes de Washington. É precisamente daqui que advêm o termo “Républica das bananas ”. É usado como termo pejorativo para um país politicamente instável, com um governante corrupto e opressor e submisso a um país mais rico e poderoso. É um país dependente da exportação de um único produtor, tal como a banana. O autor da famosa expressão é William Sidney Porter, sob o pseudônimo de O. Henry, que viveu durante meio ano nas Honduras, e foi dado a conhecer ao mundo em 1904 no livro « Cabbages and Kings ».

Mais tarde durante a administração de Reagan a política militar e política era tão influente que a « República das Bananas » transformou-se em « República do Pentágono » com o único objectivo de usar o seu aliado (ou país satélite) geo-político na região para, por exemplo, derrubar o governo Sandinista na vizinha Nicarágua (como já relatado anteriormente) treinando e mantendo rebeldes em seu solo.   

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  Com :
•   A construção de várias bases e instalações militares ;
•   O papel fulcral que teve na re-estruturação da economia hondurenha, nomeadamente na exportação de bens ;
•   A desregularização e desestabilização do comércio do café ;
•   A interrupção das formas tradicionais de agricultura ;
•   O enfraquecimento de uma segurança social já fraca ;

Foram criadas as condições embrionárias para um movimento migratório em massa que começou nos anos 90. A isto tudo há que somar o aumento brutal nos assassinatos, desaparecimentos, detenções ilegais e torturas que trabalhadores, camponeses, estudantes, activistas ambientais, suspeitos de estarem ligados a movimentos de esquerda sofreram, violando assim a carta dos direitos humanos.

Quando o Presidente Manuel Zelaya (eleito democraticamente em 2006), já no século XXI, tentou realizar reformas no país aumentando o salário mínimo do seu pobre povo, entre outras reformas, foi derrubado pelos militares em 2009. Obama chegou a afirmar que era ilegal, no entanto Hillary Clinton nunca reconheceu que foi um golpe de estado, porque se o fizesse teria que retirar toda a ajuda ao país, e através do Wiki-Leaks sabemos que os EUA continuou a apoiar o regime pós-golpe de estado, pois foi revelado que « tem constantemente apoiado os interesses norte-americanos. »

Como resultado a repressão, assassinato de opositores, a violência, a criminalidade, e a corrupção aumentaram e a taxa de homícidio que já era a mais alta no mundo aumentou em 50% entre 2008 e 2011.

Como é que uma família pode prosperar em semelhantes condições ? Como é que os cidadãos comuns combatem o crime organizado, os traficantes de droga, impunidade, homícidios de ambientalistas ?

O regime instalado após Zelaya aumentou o desregulado “Mercado livre”, diminuiu os gastos na saúde e educação, e aumentou os níveis de pobreza e extrema pobreza (que haviam descido durante a presidência de Zelaya), já para não falar no desemprego, disparando assim os níveis de desigualdade social como nenhum outro país na America Latina.
 
Não serão estas razões mais do que suficientes para testemunharmos uma emigração em massa das Honduras para os EUA ? Será que os Hondurenhos têm mais medo do muro ou de ficar no seu país ?
Para concluir sobre a questão migratória se tivessemos uma inundação em casa não seria, efectivamente, mais inteligente resolver a fuga de água, em vez de ir buscar baldes para a conter ? Não deveria ser a prioridade política dos EUA diminuir as desigualdades económico-sociais entre os dois povos, em vez da construção do muro para parar com a indesejada imigração ?
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