ABRIL – UMA DATA MARCANTE
Encontro marcado com a história


É assim há 44 anos. Celebrar Abril de forma solene, relembrando que a pacífica revolução dos cravos derrubou um regime político instalado, restituiu-nos a democracia e o direito, pôs termo à guerra colonial em África.

Obtivemos a autonomia que liberta, pela dependência que escraviza e agrilhoa. Esta radical transmutação foi de inteira responsabilidade das Forças Armadas; gente há por aí que, por ideologias oportunistas, entendem levar a efeméride para o seu lado, desvirtuando e afastando os cidadãos desses acontecimentos comemorativos. O 25 de Abril é uma data histórica, como foi então, a implantação da República.

O programa que assinala e comemora o seu quadragésimo quarto aniversário - um pouco por todo o lado, em Portugal, mas também junto da diáspora portuguesa, nas suas comunidades dispersas pelo mundo - põe em evidência os episódios mais marcantes de uma transição pacífica, primeira grande etapa de uma trajectória que levaria - deveria ter levado - o País à conquista de novos rumos, de progresso efectivo e bem-estar social.

Para enaltecer Abril recorremos um pouco a tudo o que é nosso; desde o teatro aos documentários, às sessões solenes, aos espectáculos e conferências, aos programas especiais nas televisões, às obras literárias e artigos de opinião nos jornais, aos debates e buscas na internet. Tudo serve para trazer à memória de uns e ao conhecimento de outros, os factos e os processos basilares de uma Revolução bem conseguida; os cravos de cor verde e vermelha, simbolizavam a Nação livre em substituição das balas mortíferas. Imagens marcantes de um grande dia, para sempre recordado com exaltação nacional.

Quarenta e quatro anos depois, por entre cantigas e aplausos, discursos e festas... Encontramo-nos muito aquém daquilo que deveria ter sido um percurso diferente, para melhor; mais incisivo e ambicioso, mais arrojado na sua pujança democrática. Contrariamente ao que seria expectável, forjaram-se tortuosos caminhos, tomaram-se falaciosas orientações políticas, defraudaram-se os nobres objectivos da jovem democracia! Tempos contraditórios que envolveram boa parte da sociedade civil, em execráveis escândalos; de corrupção e de gritantes disparidades sociais. São as cifras negras de um Portugal igual a si mesmo, meio conformado, com o desditoso cenário que amarfanha e oprime! Decaiu a virilidade do cravo, perdeu a sua exuberância de então. Os factos não abonam a razão, tiram credibilidade e conforto.

A liberdade que alguns apregoam é só de quem a quer sua, mesmo que para isso tenha de espezinhar. Há vozes dispersas a dizer que é preciso cercear algumas dessas liberdades. Há pessoas com responsabilidades políticas que actuam de forma antidemocrática, alheadas de princípios e de valores que a dita liberdade nos consagra! A verdade é que não conseguimos "embarcar" no verdadeiro espírito de Abril, apesar de algumas aparências ilusórias. Proclama-se autonomia e isenção, mas vivemos num permanente estado de coacção. De facto Portugal não soube aproveitar potenciais ensejos de crescimento, de expansão e de verdadeira emancipação. Pelo que sabemos e pelo que desconhecemos, ainda temos força e voz para denunciar e exigir que se cumpra Abril, 44 anos depois!

No dia de festejar, corroboramos, com justificada apreensão, que o 25 de Abril se afastou da Emigração! Quatro décadas passaram sem que muitas reivindicações fossem satisfeitas. A conjuntura, em muitos casos, piorou. As discrepâncias de tratamento continuam e agravam-se: no ensino da língua materna; nas deficiências das redes consulares; na questão de cidadania participativa e de recenseamento; na valorização do movimento associativo e empresarial; no apoio e estímulo à promoção de Portugal no estrangeiro… Não vai há muito tempo que um aspirante político de craveira ousava dizer, em promessa eleitoral, na cidade Luz, que a Diáspora portuguesa merecia um Ministério em vez de uma secretaria de Estado; uma vez eleito, desdenhou sobre a promessa feita em Paris.

Tinha lógica aquela referência de campanha eleitoralista, mas não passou disso! De facto merecia, também pelo expressivo contributo directo realizado através dos tempos; sustento de um Estado dependente, sempre à espera das famosas remessas dos portugueses, assíduos trabalhadores e residentes no estrangeiro! Conotados por "nossos queridos emigrantes"! Basta de hipocrisia e cinismo; é tempo de virar a página da incongruência e do facciosismo. Abjecta forma de proceder em relação ao que dizem ser importante, aos "queridos emigrantes"! Já chega de tão fastidiosos discursos de circunstância, numa sôfrega tentativa de adiar decisões!

Neste aniversário da mais significativa viragem de regime político em Portugal importa, acima de tudo, recordar um passado sobre o qual devemos apenas e só retirar algumas ilações, para viver um futuro mais promissor, com renovada determinação e responsabilidade, que nos deve catapultar para lugares cimeiros de crescimento e de autonomia. Portugal e todos os portugueses merecem uma sorte diferente; auspiciosa, urgente, necessária, possível… Por Portugal e com todos os portugueses!

Pub