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Compreendi

Um português que já visitou 70% dos países europeus

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Chama-se Ricardo mas poderia ser um de nós. Ele faz-nos viajar aos nossos tempos áureos, em que conquistamos o mundo por via marítima até lugares que nem a vista imaginava alcançar. Passaram alguns séculos e ao que parece o sangue lusitano encarnou nele e quis descobrir, por si mesmo, a diversidade cultural.

“O sangue lusitano encarnou em mim.”

É licenciado em psicologia clínica mas nunca exerceu. Ambicionou apenas que esses ensinamentos o ajudassem na sua faceta de conquistador. A sua aventura teve início em 2004, tendo trabalhado numa companhia aérea em Barcelona - a sua primeira porta ao mundo. Para quem não acredita no destino ou nas coincidências, chegou a altura de começar a deixar o ceticismo de lado. Com este trabalho, se é que pode ser designado como tal, Ricardo para além das viagens obrigatórias, tinha direitos a muitas outras que podia fazer a título pessoal. Como seria de esperar, aproveitou e admite conhecer a grande maioria dos países europeus.

No final de 2006 viajou até à Argentina, onde acabou por descobrir o amor, tendo sido formalizado com o regresso ao seu país. Casou-se em terras lusas, mas não tardou em embarcar numa nova aventura até Londres, onde esteve durante três anos e meio. Passou das viagens à cozinha, pois viria a trabalhar no ramo hoteleiro, perto da torre de Londres, para que nunca lhe faltasse inspiração. Foi aí onde cresceu profissionalmente e onde descobriu que iria ser pai.

Em 2011 - um ano em que o verbo recomeçar fez sentido para o lisboeta - nasceu o pequeno Arthur e começou a trabalhar no Belmond Hotel das Cataratas, um luxuoso hotel que fica localizado na Foz do Iguaçu no Brasil, onde atualmente vive. Esta experiência dura há cinco anos e que perdurará muitos mais, pois confessa ter ficado fascinado com o povo brasileiro.

Confessa, ainda, que a caravela lusitana que trás no coração não parou por aqui. Consegue sentir-se integrado em qualquer parte do mundo, denotando uma ligeira dificuldade em países com cultura muçulmana, como o Azerbaijão, onde o choque cultural é extremo. Em contrapartida recorda a Colômbia, o país que “toda a gente fala mal”, mas onde se sentiu mais integrado do ponto de vista social. Assumiu neste país o papel de jornalista pela verdade, pois recorda a forma como a televisão focava (e ainda foca) apenas os seus aspetos negativos, como sendo um país onde existe extrema violência, adquirindo um estigma fortíssimo.

“Quis ver com os meus próprios olhos se a Colômbia era um país tão mau como os media falam sobre ele. Adorei!”

A Colômbia é parte da floresta da Amazónia, e por isso influenciada por um ambiente verde deslumbrante aliado à sua boa gastronomia. Este pequeno paraíso é complementado pela personalidade calorosa e genuína das pessoas, rompendo com o estereótipo que tinha delas. Mas a sua maior perdição foi mesmo o café, arriscando dizer que é o melhor do mundo.

Voltando ao Brasil, na zona onde vive os portugueses não são numerosos, por oposição a cidades como São Paulo - “um Londres desorganizado” - onde podemos encontrar um português ao virar da esquina, ou mesmo no Rio de Janeiro onde sente o “ar português”, pelas semelhanças a Lisboa. Embora esteja mais isolado desse pedaço lusitano, não sente necessidade de se integrar entre portugueses, e que só o faria caso estivesse em algum país com um grande fechamento social como a Arábia Saudita. Não alimenta os laços, mas já no que diz respeito ao estômago, a conversa já é outra. Continua sua dieta alimentar à base do tradicional português quer em casa quer nos restaurantes que frequenta. Gosta de um bom bacalhau assado a acompanhar com um bom vinho, para ajudar a afogar as mágoas e saudades que sente de Portugal. A história explica a razão porque sabemos mais dos brasileiros do que o contrário, e que acaba por se repercutir nas piadinhas que tecem à nossa cultura, como “As mulheres de Portugal têm bigode”.

“As mulheres de Portugal têm bigode”

Esta distância entre o coração lusitano e o mundo do sonho permitiu que olhasse para o nosso país com outra perspetiva. Não obstante, continuar a ficar incomodado com o espírito pobre do português para quem “está sempre tudo mal” e que vive de preconceitos.

“Há uns anos, lá no bairro alto, morava um senhor rico, digamos assim. Tinha uma boa casa, um bom carro, um bom estatuto social. No entanto, quando lhe perguntavam como estava, respondia «Mais ou menos obrigada» e eu questionei-me «Como é possível alguém ter tanto e ainda dizer que está mais ou menos? Só mesmo um português».”

A moral da história é previsível: o português nunca está satisfeito com a vida que tem, e encontra defeitos onde por vezes não existem. Atualmente, não só alterou a sua visão como aumentou o seu sentimento patriota em relação a Portugal e aos portugueses. Este atingiu o seu ponto auge no ano 2015, quando regressou passado 5 anos longe do seu país, recordando a forma como olhou com espanto e fascínio para tudo, como se fosse a primeira vez.
 Denota no lusitano uma enorme capacidade de trabalho e adaptação, sendo mestre na arte do “desenrasca”. No entanto, quando não gosta ou está mal com alguma situação, não a consegue reverter, quase como um “pessimismo crónico”, segundo afirma. Contrariamente, os brasileiros nunca desistem de nenhum obstáculo, assim como conseguem ser muito criativos no seu dia-a-dia. Por outro lado, afirma que é difícil encontrar um brasileiro culto, mas quando encontra fica de boca aberta.

“A gente tem de agradecer ao Pedro Álvares Cabral porque graças a ele conhecemos o mundo.”

Por fim, pretende juntar uma quantia de dinheiro necessária que lhe permita, futuramente, regressar a Portugal e investir num bar inovador em Lisboa, onde possa projetar algumas influências mundiais. Agradece, ainda, o facto de ter conhecido estes pedaços do mundo a Pedro Álvares Cabral, pois sem o espírito aventureiro dele não teria sido possível. Não obstante, deixou um discípulo implacável em querer redescobrir esse legado. Não se chama Pedro, mas faz jus ao nome.

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Paula Moreira
Colaboradora / Correspondente
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