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Solidariedade

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Os territórios das desigualdades são profundos entre quem trabalha. Entre as várias lições a tirar da crise está seguramente a de não deixar nenhum trabalhador na mão, sem direitos dignos desse estatuto.

Há cerca de uma semana saiu a público a luta de Catarina Salgueiro Maia no Luxemburgo. A crise pandémica veio agravar as condições precárias de trabalho das empregadas de limpeza e Catarina decidiu levantar a voz, fazer-se ouvir e reivindicar condições de trabalho justas para ela e para todas as suas colegas. Também no Luxemburgo, Adrianni mobilizou várias pessoas numa campanha solidária para que não falte comida aos imigrantes brasileiros que aí estão e não têm papéis. O simples facto de irem ao supermercado pode valer-lhes a deportação. São trabalhadores da construção civil ou da restauração que nunca tiveram contrato assinado e que agora se vêem sem poder sequer trazer comida ou medicamentos para casa. São já quinze famílias que pediram ajuda. Adrianni recolhe os alimentos de que lhe chegam e distribui-os pelas famílias. Também em Bruxelas várias famílias ficaram sem qualquer rendimento de um dia para o outro. Algumas delas são famílias de imigrantes portugueses a quem faltou o trabalho, sobretudo nas obras, e, de imediato, o rendimento. Alguns dos patrões regressaram aos seus países e nem sequer avisaram. A Luso Produções e a Casa do Benfica local também se juntaram para recolher alimentos e fazê-los chegar a estas famílias.

Cada dia que passa são muitas as pessoas que enfrentam dificuldades, que ficam sem emprego, que ficam sem rendimentos. As medidas de excepção que foram adoptadas não chegam a muita gente e o fosso vai-se agravando. Os vínculos precários, a fragilidade de muitos migrantes nas sociedades de acolhimento, o incumprimento dos mínimos direitos laborais fazem com que muitas destas pessoas sejam arrastadas para uma ainda maior invisibilidade social. Não têm rendimentos e não podem reclamar porque não cumprem os critérios para reclamar. Não cabe à Catarina, à Adrianni, ao Albano ou ao Tony suprimirem as necessidades básicas destas pessoas ou destas famílias. Essa devia ser, obviamente, uma responsabilidade colectiva e uma responsabilidade do Estado. Mas não está a ser. A construção de novos colectivos, a mobilização de esforços conjuntos e o reconhecimento de direitos reivindicados e não reconhecidos em tempos de crise fazem destas acções sinónimos de solidariedade e não de caridade. Passam-se todos os dias aqui em Bruxelas, no Luxemburgo ou em Portugal. São sinais de que persistem alguns laços sociais sólidos e que a sociedade providência ainda responde numa parte dos casos onde falha o Estado providência. Os territórios das desigualdades são profundos entre quem trabalha. Entre as várias lições a tirar da crise está seguramente a de não deixar nenhum trabalhador na mão, sem direitos dignos desse estatuto. Esta é a única forma de estarmos todos mais ou menos na mesma casa de partida para enfrentar seja qual for a dificuldade que temos pela frente. Essa e a maior igualdade social. Quem não o quis ver antes, não finja agora que não vê.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 11 de abril de 2020

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Marisa Matias
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