Ser mãe fora do ninho

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Mãe é o ser do sexo feminino que gera uma vida no seu útero como consequência de fertilização, ou que adota uma criança ou bebé, que por alguma razão não pode ficar com seus pais. Uma definição simples encontrada na internet, para definir algo tão complexo, que tanto tem de gratificante, como de dificíl.

Porque ser mãe é isso mesmo: é estar exausta sem paciência para o mundo, mas brincar, dar banho,  mudar fraldas, dar de mamar, dar de comer, vestir, preparar os lanchinhos, cozinhar, tratar da casa, trabalhar, levantar-se durante a noite, e repetir tudo no dia seguinte, mesmo que por vezes não haja tempo de tomar banho, ou que não repare que sai de casa com uma camisola com nódoas de papa...
Mas ser mãe no estrangeiro, conta com dificuldades que a maioria das mães, que está no país natal não tem. Carla Pimenta do Luso.eu foi falar com várias mães emigrantes na Suíça que, apesar de algumas vezes chorarem pelo colo de Portugal, acabam por ficar nos países que as acolhem para benefício das suas crias.

Foi com base no lema ‘quem muda, Deus ajuda’, que há cinco anos Ana Cardoso, juntou-se, com a sua filha de 18 meses, ao seu marido no cantão de Jura, na Suíça. Apesar das dificuldades linguísticas foram “bem acolhidos pela comunidade suíça”. Na busca de uma melhor qualidade de vida, Ana sente que “a ligação com a família e principalmente avós era muito forte e essa foi e, continua a ser, a maior dificuldade; a falta do nosso calor, da nossa terra, da nossa gente, faz com que a vontade de regressar a casa seja algo a realizar num futuro muito próximo”.

Já Andreia Nogueira de 37 anos, que saiu de Portugal por mera curiosidade, foi mãe de duas meninas na Suíça. “O que mais custou foi a família não acompanhar o crescer da barriga, o nascimento delas, mas sobretudo o crescimento das miúdas”, relembra. Não contou com entraves na língua, por escolher médicos que falassem inglês, uma lingua que domina e sentiu-se sempre muito bem tratada e acompanhada. Mesmo no internamento prolongado a que foi sujeita, “apenas custou estar sozinha os dias todos, contando apenas no final do dia com a visita do marido”.
Para Márcia Fardilha, emigrante em Zurique desde 2004, o pior foi dpois do nascimento dos filhos, “pois cada dia é uma nova descoberta, as constipações, as doenças mais prolongadas, as dúvidas, mas o telefone lá ajudava a minimizar as saudades e a falta de experiência”.

Ao contrário de Portugal, na Suíça (e só a partir de 2014) os custos depois da 13ª semana de gestação são totalmente cobertos pelos seguros privados, obrigatórios para todos os cidadãos, até essa semana as mães têm à sua custa 10% da despesa. “O sistema de saúde público português está muito bem conseguido, pela oferta de informação, aulas de preparação, excelentes profissionais e uma constante busca por respeito e melhores condições para partos”. Gabriela Moreira, que veio para a Suíça com o seu filho mais velho e à espera do terceiro pode dizer no entanto, que “as condições clínicas são sem dúvidas melhores aqui, já que os serviços médicos são pagos, há uma consciencialização por parte das equipas médicas por agradar”.

Marta Giroto foi mãe pela terceira vez 16 anos após o primeiro filho. Com uma gravidez complicada descobriu o síndrome de Down do seu bebé, logo desde cedo. Depois de várias complicações, Sara nasceu em Portugal, onde foi muito bem tratada. Com o seu marido na Suíça, Marta veio ao seu encontro, já tinha a filha 6 anos. “Um apoio enorme, ela adora e eu não noto olhares de pena, como em Portugal, as pessoas aqui estão mais avançadas nesse ponto”, relata Marta.  Para dar o apoio necessário à filha, trabalha em casa como ama e, mesmo com a família parcialmente separada por ter uma filha e neto em Portugal, diz que não passam um dia sem se verem “os irmãos mais velhos são incansáveis e o pai, sempre foi um pai a 500%”.

Sandra Santos, emigrante há sete anos na Suíça, teve a filha em Portugal depois de um parto complicado. “Tenho quase a certeza que os problemas que se têm manifestado foram por culpa desse parto esforçado e doloroso”, desabafa a emigrante portuguesa, que acredita, com base no que ouve dos seus colegas, “talvez tivesse sido melhor na Suíça, mas quem sabe um dia venha a poder dizer”. 

Quanto à vida escolar, quando a língua não se apresenta como um entrave, como aconteceu com os filhos de Teresa Soares, dois gémeos de 5 anos, que tiveram “o primeiro meio ano mais dificil”, o acesso ao ensino escolar torna-se relativamente fácil.  “Apesar de vivermos num país que prima pela organização e por um ensino gratuito, sou mais adepta do sistema de ensino português, pois prepara melhores profissionais, é um sistema mais rígido no bom sentido, que previligia a formação de todos, sem discriminação”, refere Ana Cardoso.

Para Gabriela Moreira “a escola é mais diversificada a nível de conteúdos e programas na Suíça. Há uma maior preocupação em experimentar coisas novas, em deixá-los ser autónomos. Em Portugal é mais restrito, não há autonomia por parte das escolas, sujeitam-se a regras e directrizes do governo e sindicatos, mas há um visível interesse pelos conteúdos de ensino, fazem muito com o pouco disponível”.

Apesar dos tradutores disponibilizados pelas escolas, torna-se dificil entender e ser entendido. “Se fosse em Portugal, não teríamos esta dificuldade em ajudar e talvez a criança pudesse até ter um melhor desempenho escolar”, acrescenta Ana Cardoso. Também o filho mais velho de Márcia Fardilha frequenta a escola suíça e portuguesa, por achar “ser importante a ligação com a língua materna (falada e escrita)”. Como outras mães sente dificuldades em entender tudo o que é dito nas reuniões escolares, bem como no auxilio dos trabalhos de casa, “mas vai-se conseguindo com a ajuda da internet e de dicionários”.

Já Marta Giroto está super satisfeita com o sistema escolar suíço e irá ficar na Suíça até aos 18 anos da sua filha Sara, “porque aqui ensinam o principal para estas crianças: serem o mais independentes possíveis, ensinam a andar de autocarro, combóio, a cozinhar, ir às compras, a no fundo tratarem de si próprios”, mesmo que a Sara não queira aprender alemão, “são um encanto com ela e comigo e tentam sempre ter uma tradutora para tudo”.
A emigrante portuguesa de 44 anos, Susana Pelicano, relembra que “os filhos chegaram sem saber dizer uma palavra de alemão e foi muito complicado”, no entanto o sistema escolar para ela é muito bom e os seus filhos “são muito bem acompanhados e apoiados no que necessitam para o seu desenvolvimento”.

Além da língua, a incompatibilidade de horários do sistema escolar suíço e os trabalhos dos pais é outra das queixas. “O mais complicado foi quando comecei a trabalhar, como não tinha carro por vezes perdia os transportes e uma vez não cheguei a tempo para abrir a porta de casa à minha filha, a sorte foi a vizinha que ficava com a minha filha”, conta Sandra Santos.
Ana Cardoso, que agora vive só com a filha teve de passar a trabalhar aos fins de semana, para poder acompanhar a vida escolar da filha “ tudo possível por causa da ajuda da minha irmã e cunhado; a vida pessoal vai-se fazendo, primeiro estão os filhos” conclui Ana.
Com familiares a três horas de caminho, “as noites como casal são sempre das 21h às 22h e em Portugal isso seria mais fácil, por podermos recorrer ao apoio dos avós e familiares”, acrescenta Andreia Nogueira.

Apesar de não pensar regressar a Portugal, pelas oportunidades que o seu filho terá, Isabel Barbosa conta que é dificil suportar a xenofobia que os emigrantes são alvo. “Aqui na Suíça se és português tu é que pagas não importa quem começa”, referente ao problema que está a ter na escola com o seu filho, motivo pelo qual teve de contratar advogado “na escola não tratam todos os alunos de forma igual; o outro menino que já partiu o dedo ao meu filho por ser suíço nunca teve problemas e, desta vez que o meu filho se defendeu, ele ainda está a ser penalizado”.

As dificuldades que vão surgindo, aliados à falta da família e do seu país, levam a que se viva um dia de cada vez sem fazer grandes planos de regresso a Portugal, porque tal como para Susana Pelicano “o mais importante é dar um bom futuro aos filhos, depois deles estarem bem, será a nossa vez de regressar ao nosso cantinho; sim, porque eles já não querem voltar”.


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