Orango - a ilha onde os hipopótamos mergulham no mar e a rainha caminhava nas suas águas

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Na Guiné-Bissau Bissau há um arquipélago com mais de 80 ilhas, das quais cerca de 20 são habitadas.
Tem o estatuto de reserva ecológica da Biosfera atribuído pela Unesco em 1996, milhas e milhas de mar azul e ilhas verdejantes com bancos de areia de um branco cristalino.

Uma das ilhas, a maior e a mais diatante do continente, chama-se Orango e abriga em si dois dos maiores tesouros da Guiné-Bissau - a memória da Okinka Pampa, a lendária rainha dos Bijagós e a lagoa de Anôr, onde vivem os hipopótamos marinhos, com características únicas no mundo.
Para lá chegar, recorre-se ao barco do Instituto da Biodiverdidade e das áreas protegidas da Guiné-Bissau (IBAP), o guardião dos vários parques naturais existentes no país.

Uma viagem de pouco mais de três horas desde Porto Belo / Quinhamel, quando o mar e o vento estão de feição, que nos leva a passar entre os magníficos canais ladeados de mangal com pelicanos e a bordejar algumas ilhas lindíssimas até desaguar na bonita enseada do Orango Parque Hotel.
Aqui encontro o sempre sorridente Belmiro, guia do parque já conhecido de outras viagens e aventuras que explica sempre com incontido orgulho as características e histórias da Ilha.

É aqui a “casa” da família real reconhecida em todo o país que teve na balobeira (sacerdotiza) Okinka Pampa o expoente máximo da capacidade de reinar e de defender os seus. Foi esta mulher que negociou com o poder colonial português a defesa da população Bijagó, dando-lhe em troca num pacto de não agressão, algumas cabeças de gado. Nesta sociedade matrilinear, em que as mulheres são as responsáveis pelo quotidiano, por escolher o noivo, tomar conta das terras ou decidir o divórcio ou destino dos filhos, foi elevada à categoria de Deusa, dizendo-se que caminhava sobre as águas dos mares do Arquipélago. Reinou entre 1910 e 1930 e diz-se ter morrido já centenária.

Está sepultada num Mausoléu que abriga os descendentes da familia real, selado com um bonito portal de madeira talhado de forma tosca, apenas aberto com autorização do Régulo por um dos seus assessores. Circulamos por entre os montes no chão de terra que sustentam as placas com o nome dos parentes da linhagem materna que ali descansam a seu lado. O atual Régulo, Augusto Fernandes Pereira, também ele quase a chegar aos 100, sabe que já não será ali sepultado, a singeleza e pequena dimensão do espaço assim o dita.

Numa outra parte da ilha, alcançável apenas de barco por entre mangais e um percurso ainda razoável a pé, encontramos a Lagoa de Anôr que acolhe uma importante comunidade de hipopótamos marinhos que se movem lânguidos na lagoa durante o dia e à noite percorrem um extenso percurso até ao mar onde se vão banhar para matar as muitas sansessugas que se alojam no seu corpo.

Estes hipopótamos são especiais nas suas características pois apesar de necessitarem de água doce para beber, conseguem viver permanentemente em agua salgada. Rondam os 200 exemplares e são um espetáculo digno de ver, no silêncio e discrição do posto de vigia. As primeiras vezes que os visitei, ainda o posto de observação era um mero projeto no papel, escondíamos-nos atrás das árvores e lá podia acontecer termos que correr em zigue-zague a fugir, caso algum deles desse pela nossa presença. Por ingenuidade, sorte, ou proteção dos espíritos que ali vivem nas árvores, não há nota de ataques fatais por este animal, considerado o mais perigoso da selva. Por parte da população que convive lado a lado com os hipopótamos, há uma salutar tolerância pelos ataques que por vezes fazem aos campos de arroz com seu apetite voraz talvez pela crença de que se os ferirem, igual sorte cairá sobre um dos seus.

Esta Ilha de Orango, tão grande, encantada, diversa e rica deixa saudades em quem a visita e uma enorme vontade de voltar sempre. Pela cultura, pela história, pela fauna ou tão só pelo sorriso fácil e genuíno do Belmiro e demais população. A verdade é que estive lá pela quinta vez neste mês de maio e já só sonho com um regresso.


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