Anualmente, a 10 de Dezembro celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Na casa da democracia europeia, não é por acaso que, também todos os anos, a sessão plenária de Dezembro em Estrasburgo seja o palco do debate e apresentação do Relatório Anual dos Direitos Humanos e da Democracia do Mundo.

Na semana em que celebramos os mais altos valores do humanismo, é também atribuído o prémio Sakharov para a liberdade de pensamento – no ano passado, o galardão foi entregue à oposição democrática na Venezuela, pela luta contra o regime de Maduro.

Numa época que deveria ser de celebração, e com a infeliz coincidência do debate do relatório sobre os direitos humanos ter ocorrido quase ao mesmo tempo do atentado na cidade de Estrasburgo, no qual morreram três pessoas e outras 12 ficaram feridas, sentimos que este ataque à liberdade e à nossa identidade foi um rude golpe no centro da cidade da paz. Não foi apenas o mercado de Natal que foi atacado. Foi a Europa. Cada um de nós.

O aparato policial tomou conta das movimentações da cidade e o medo, os gritos e a sensação de impotência parece que passaram a ser um lugar-comum. Uma vez mais, tal como tinha acontecido com os atentados em Bruxelas, o Parlamento Europeu provou ser um dos lugares mais seguros e um porto de abrigo.

Depois de uma noite longa de espera e sem possibilidade de sono, a cidade de Estrasburgo acordou e voltou à normalidade possível. A melhor forma de enfrentar o terror é mostrar que não nos vergamos perante aqueles que querem impor as suas ideias pela força. É mostrar que o medo não é um lugar. Nas imediações do Parlamento Europeu, as bandeiras da UE e de Estado-membro estavam novamente a meia haste. Já são vezes a mais, é certo, mas não nos rendemos. Não fugimos. Recomeçamos.

Não há normalidade no terrorismo. Ele não pode, nem será jamais parte do nosso quotidiano. Ceder será assumir a bestialidade como forma de vida. Será, em última análise, desistir daquilo que nos torna Homens. Mais latente do que nos possa parecer, vamos perdendo a capacidade de ver o que mais importa. A nossa liberdade de pensar, de ser e de agir. Quando deixamos de sentir a dor dos outros, alguma coisa está muito errada.

2017 foi um ano marcado, pela degradação dos direitos humanos, pela redução do espaço da sociedade civil e pelo enfraquecimento dos mecanismos democráticos em muitos países, incluindo na Europa. No ano passado, ocorreram cerca de mil ataques terroristas em todo o mundo, que resultaram em cerca de 6 mil mortos. Os crimes violentos aumentaram por toda a Europa. A surdez do diálogo cresce perante todos. A nossa atenção centra-se em minudências porque caminhamos para uma sociedade infantilizada e opaca. 2018 também não termina da melhor forma, mas não podemos olhar para estes ataques com uma normalidade alienada de si mesma. Nunca o terrorismo e o medo poderão ser um lugar-comum. A nossa resposta tem de ser colectiva.

A Europa tem estado e está determinada a combater o terrorismo, e aqui assume-se a importância dos Estados-membros em possuírem uma estratégia inclusiva dos jovens europeus e não europeus. A pergunta que nos cai no prato é sempre a mesma: porque se radicalizaram os jovens europeus? Se calhar a resposta é simples: porque não têm mais nada.

Talvez seja altura de pararmos de falar de “indivíduos” e falarmos de “pessoas”. Talvez o enquadramento social tenha de ser revisto na sua dimensão política. Talvez seja preciso que os Estados-Membros percebam o que se passa no seu país e recolham os seus jovens no caminho onde, algures e por alguma razão, se perderam. Talvez seja o tempo de cada cidadão compreender que tem um papel fundamental na preservação da democracia, se estender a mão a quem está ao seu lado. Talvez seja altura de deixarmos de ter medo.

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Liliana Rodrigues
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Colaboradora Convidada | Eurodeputada pelo PS

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