Depois do tempo quente de verão e dos seus admiráveis fascínios, chegou agora, no ciclo natural da vida, um outro momento, também ele cheio de magia e alguma interpelação! Voltamos a confrontar, mais de perto, o sentido da nossa existência, o caminho que trilhamos e o destino que nos aguarda, numa qualquer viragem da vida.

Cresce a emoção com aproximar da incontornável comemoração, que nos coloca face ao mistério da morte, da vida eterna e da santidade. Recordamos os que nos precederam e cogitamos, inevitavelmente sobre nossa morte própria! Uma estranha voz faz eco dentro de cada um de nós, nesse confronto directo com os dois extremos que se tocam e que de certo modo, delimitam a existência. E por muito que a ciência faça, no intuito de prolongar a vida, o desfecho é sempre morrer! Tão natural como nascer, dizem os sábios e os filósofos.

Este é de facto um tempo propício para uma reflexão diferente, mais intensa e recolhida. Sobre aqueles que deixaram o nosso convívio na terra, mas também sobre a nossa fragilidade e condição humana. É frequente verificar uma quase “devoção” aos defuntos, com muitas orações e adornos, missas e lamúrias! Já Santo Agostinho admoestava para todos esses excessos de “preocupação com os funerais, a condição da sepultura, a pompa das exéquias”. E concluía: “são mais consolo para os vivos do que subsídio para os mortos”.

Noutro registo, um respeitado estudioso na matéria dizia, que é uma espécie de astúcia para moderar o remorso! Poderá ser ainda uma ardilosa forma de fuga, ao mordaz sentimento de culpa, de faltas acumuladas, das desavenças e afrontas. Através de sinais exteriores e muitos deles sem qualquer influência vai-se criando a sensação, uma espécie de fingimento, para mostrar, que afinal tudo não passou de pequenos desencontros e que agora, com mais uns adereços e umas súplicas, tudo fica resolvido. Mas a questão de fundo continua a carcomer a consciência de quem assim procede em vida, fruto de escolhas e decisões.

Como é possível encontrar-me em oração diante de um túmulo e ao mesmo tempo não sentir a comunhão fraterna de um meu semelhante, tantas vezes membro familiar? Essa é uma incoerência que acarreta, no tempo, graves dissabores. Por essas e por outras, anda por aí tanta gente a carregar fardos inúteis, com razões de sobra para se queixar, não dos outros, mas deles próprios! Porque esbanjaram notáveis oportunidades de aproximação, de encontro, de serenidade e de paz!

Na festa que celebra a vida, homenageamos e muito bem, os que já partiram deste mundo, “na esperança da ressurreição”. E temos a missão de asseverar, com sincero louvor, a comunhão fraterna. Uma e outra atitude levam-nos ao compromisso e à renovação. Que assim seja!

“Ser feliz é encontrar força no perdão,
esperanças nas batalhas,
segurança no palco do medo,
amor nos desencontros.
É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida” -Fernando Pessoa

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António Fernandes
Colaborador
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