Houve proeminente campanha eleitoral, na preparação e divulgação de mais um importante acto cívico, local/regional. A Bélgica acaba de eleger os seus representantes políticos de proximidade, numas eleições sempre cingidas de surpresas e curiosidade, tal é a diversidade e alguma discrepância das forças politicas na corrida ao poder autárquico belga.

De tal modo que, logo após o escrutínio e respectivos resultados, se procede às recorrentes negociações para posteriores alianças, pactos abrangentes, para levar a cabo estratégias e programas defendidos em campanha eleitoral.

A grande novidade nestas eleições assenta na esmagadora participação da comunidade estrangeira, na qual está inserida, com naturalidade, a comunidade portuguesa. E cumpre, desde já, felicitar o trabalho e o empenho dos cerca de 100 candidatos portugueses, 30 dos quais na região de Bruxelas. Com apenas três mulheres eleitas, as primeiras de nacionalidade portuguesa, um orgulho! E outras mais que ficaram na corda bamba de uma eleição...

Todas elas, arrojadas na ambição e no comportamento, a dignificar o debate politico do tão nobre acto cívico de proximidade. Verdadeiras heroínas, sem grandes apoios, nem muitas atenções! Tinham e terão sempre a intrínseca vontade de participar e de levar por diante as suas convicções. Foram e serão sempre um grande exemplo de cidadania participativa, em meio adverso, concorrente, ingrato...

Este é também o momento de nos congratularmos com a eleição de mais 4 compatriotas. É bom, mas insuficiente relativamente ao número de candidatos. Continuamos a pedalar muito abaixo daquilo que seria expectável.

Ficamos aquém do desejável e coerente, atendendo à comunidade que somos! Progredimos ligeiramente, mas não atingimos os objectivos que nos permitem cantar vitória; temos mais de 90% dos candidatos de fora! E temos cerca de 8% de inscritos para poder votar! Eis a enorme preocupação, verdadeira cilada nestas eleições. Já o tinha sido e seria bom que nunca mais voltasse a ser!

Ter muitos candidatos e não ter eleitores... Que desilusão!
Esta situação que ninguém quer assumir, tem rosto e nome associados. Gente houve e continua por aí a pregar ao vento, que no tempo e no espaço preciso se alheou dos seus compromissos.

Limitavam-se a uns passeios, a uma fortuita presença para a foto, questão de iludir o panorama. Lembro-me de os ver em reuniões, jantares e pagode. Com frases feitas, mas sem conteúdo, com gráficos coloridos e outras retóricas de parecer bem. Sempre ao lado do alvo, como foi a recente campanha de informação para as inscrições nas listas, forma obrigatória para poder exercer o acto de votar. Um movimento cerceado de ambição e coerência, que morreu logo ao nascer! A prova comprovada está nos números que nos colocam muito abaixo daquilo que merecemos. A leviandade politica, mais cedo ou mais tarde, tem severo castigo.

Olhando para um passado recente e para alguns comportamentos de quem se arroga ser representante e até influente, tenho razões para estar preocupado e por isso nada eufórico com estes resultados. É irónico e até depreciativo alguém vir dizer que os “candidatos arrasam nas eleições municipais belgas”! Quando sabemos que foi um árduo trabalho pessoal e local. De muito mérito para cada candidato que se bateu com os poucos meios ao seu alcance e onde não lhes faltou a adversidade.

É fácil vir agora com as bandeirinhas de simpatia camuflada, de cinismo e letargia politica. Será que estes resultados e o que lhes está subjacente, vão ensinar alguém a mudar de atitude, a recorrer à razão, a ser consequente e por isso acertar no maior problema que nos consome desde sempre?! Já há quem fale em 2024 da mesmo forma como abordavam os resultados de 2012 na perspectiva das eleições deste ano; nessa declaração de intenções recolheram uma verdadeira derrota politica! Forma abjecta em desviar as atenções de uma acto politico atenuado pela conjuntura.

Em seis anos não se conseguiu aumentar significativamente o numero de inscritos? Que desculpa encontrar para justificar tão evidente postergação? Falaram muito, proferiram propósitos, conceberam planos, idealizaram e até sonharam... Mas todos se remeteram ao seu comodismo, encontrando no seu pequeno mundo a melhor forma de estar!

Estimados compatriotas, chegou o momento de agir e de colocar em prática o amontoado de teorias, de promessas e outros acenos de ocasião! Vai ser preciso ir para o terreno, dar a cara e o corpo ao manifesto. Unir esforços, onde ninguém fique de fora, nesta campanha que fomenta o interesse e que nos deve interpelar profundamente a todos. Fazer um sério investimento para o futuro, sem desvios nem desculpas! De forma convincente, factual, honesta...

Com eficiência, perspicácia e inteligência. Eu acredito nesta suave viragem, se adoptarmos a novidade da convicção, da verdade e transparência. É tempo de dar apreço e consistência aos nossos direitos, já que somos exímios cumpridores dos nossos deveres próprios. Aproveitar e valorizar o que nos é dado como oportunidade e afirmação cívica. Não deixar para terceiros aquilo que nos pertence por direito... Este é porventura o maior desafio, que também é desejo de todos nós!

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António Fernandes
Colaborador
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