As Mulheres Portuguesas no Reino Unido
As migrações têm sido uma parte central da história de Portugal e do Reino Unido.

Estima-se que cerca de 400 mil portugueses e portuguesas residam atualmente no Reino Unido, tendo este número sofrido um acréscimo na última década, devido à crise economica vivida em Portugal. No Dia Internacional da Mulher fomos falar com mulheres portuguesas residentes no Reino Unido sobre a sua jornada como migrantes naquele país.

Sara é licenciada e tem um mestrado. Refere que, em Portugal, não teve nunca “a oportunidade de conseguir um emprego ou integrar a função pública, sobretudo dada a falta de transparência na admissão de pessoal”. Aos 39 anos, Sara não teve outra alternativa senão sair de Portugal, rumar a norte e buscar uma vida mais estável. Após cerca de vinte anos em trabalhos precários, Sara conseguiu um emprego como auxiliar de geriatria e, ao fim de dois anos no Reino Unido, conseguiu um trabalho na sua área. Apesar de sozinha e de as saudades de Portugal apertarem, não pretende regressar.

Teresa chegou há 19 anos de Lisboa e tem hoje 45 anos. Numa viagem de férias, acabou por permanecer em Londres dado que as oportunidades de trabalho se foram sucedendo e foi ficando.

Atualmente, Teresa encontra-se a recuperar de uma doença oncológica e não planeia regressar a Portugal de momento. Pretende continuar a residir em Londres por mais dois anos “Depois logo se vê, mas gostaria de ir para um País onde a educação não fosse tão tradicional. Não faço planos a longo prazo.Vou ver o que isto do Brexit vai dar. Mas tenho receio de não me adaptar se voltar a Portugal. Gosto de estar aqui, foi a cidade que eu escolhi para viver.”
Os relatos das mulheres portuguesas demonstram dificuldades em reconstruir a vida que se complicou pela crise económica em Portugal, bem como a de forjar novos laços no país de acolhimento e nas comunidades onde escolheram viver.Os debates acerca do Brexit têm tido bastante impacto na minha saúde mental”, diz Sara. Isto porque “ a forma como nos desumanizaram é tremenda e não fazem ideia do impacto que isto tem nas nossas vidas. A retórica anti-imigração é chocante e preocupante”, acrescenta.

Conceição relatou-nos as dificuldades de reconstruir a sua vida, aos 56 anos, depois de perder as poupanças de toda uma vida, após a entidade bancária a quem as confiou ter falido e o seu sócio, num negócio que se vislumbrava rentável, a ter ludibriado. Conceição, que era ténica de implantologia, trabalha como auxiliar de geriatria para fazer face às dificuldades financeiras que vive. Sente a dificuldade de viver numa área onde se sente isolada “Aqui não há muitos portugueses, o que é pena. Penso regressar um dia quando tiver direito a uma reforma e então disfrutar do sol do meu país.”, acrescenta.

No Reino Unido, estimava-se que, em 2011, mais de oito em cada dez mulheres trabalhadoras desempenhavam funções na área de serviços, mas devido aos cortes decorrentes de medidas de austeridade neste país, sobretudo nos serviços públicos, assistiu-se a uma redução das opções das mulheres. Num estudo da Professora Linda McDowell da Universidade de Oxford sugere-se que as mulheres migrantes acabam por aceitar trabalhos menos escolhidos que as mulheres nacionais e que, com a crise económica, as opções serão mais escassas e mesmo as mulheres migrantes com mais qualificações acabam por se submeter a trabalhos pior remunerados, pelo menos inicialmente.

Autora de vários livros sobre a vida e a história de mulheres migrantes no Reino Unido, refere que “o aumento considerável e de forma contínua da participação das mulheres em actividades económicas e no mundo laboral é considerado uma revolução social da segunda metade do Séc. XX e, no Reino Unido, as mulheres imigrantes de primeira e segunda geração estiveram na vanguarda desta mudança e foram um enorme contributo para o país”.

Iolanda Banu Viegas, oriunda de Ermesinde, apesar de ter residido também no Pego, Mação, Moita, Tomar e Moçambique, onde nasceu, é hoje Conselheira das Comunidades Portuguesas, directora da CLPW CIC (comunidade de língua portuguesa de Wrexham), Race Council Cymru- representante das minorias étnicas no Norte do País de Gales entre outros organismos. Tem 44 anos e reside em Wrexham há 17 anos, “vim à procura de novos horizontes, trabalho e experiência profissional. Vim sozinha.” Para Iolanda, a barreira linguística, a falta de entendimento sobre a legislação britânica e o funcionamento dos serviços foi onde sentiu mais dificuldade mas também “o trabalho pesado nas fábricas, o frio e as saudades!”
Ainda hoje, volvidas quase duas décadas refere que “foi e continua a ser muito difícil não existir qualquer tipo de apoios para a comunidade portuguesa, fui dos primeiros grupos a chegar, o que ia aprendendo, partilhava com os meus colegas portugueses, e assim continua, até aos dias de hoje”.
O futuro, para Iolanda, é também de incerteza devido ao processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

Apesar de não ter planos para regressar a Portugal ou emigrar para outro país, depois de ter deixado tudo para trás “resta-nos continuar a dar o nosso melhor, somos um povo trabalhador e muito corajoso. Já passámos por muitas incertezas e dificuldades e temos superado e conquistado muitas batalhas. Se nos mantermos unidos como comunidade, tudo será mais fácil.”

No caso de Carla, intérprete de 39 anos de idade, as saudades de Portugal são demasiadas.
A vinda de Lisboa para o Reino Unido deu-se há um ano e meio quando o marido recebeu uma proposta de trabalho, mas pondera regressar após o fim do ensino primário das crianças. As dificuldades prenderam-se com a conciliação da escola das crianças e o trabalho, bem como “a falta das amigas para conversar sobre trivialidades e ainda não tenho certeza que este país será o melhor sítio para educar filhos adolescentes. Em Portugal era era consultora imobiliária. Nunca teria emigrado se não fosse uma questão de falta de trabalho... era muito feliz em Portugal. Sempre que vamos de férias os miúdos choram a dizer que querem ficar em Portugal mesmo estando super adaptados aqui, têm amigos, gostam da escola, dos vizinhos... mas o coração está lá! Se tivéssemos as mesmas condições de trabalho que temos aqui íamos embora já.”

Este artigo é dedicado a Fina D’Armada, Historiadora e Feminista Portuguesa, desaparecida em 2014 e autora do livro “Mulheres Navegantes”entre outros.
Obrigada a todas as mulheres que aceitaram partilhar a sua história connosco.

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Author: Claudia Belchior
Jornalista | Colaboradora
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