Nunca fui a Sodoma, mas visito Namur. A luxúria e os excessos jocosos no museu Félicien Rops. A avareza na dimensão minúscula das esculturas de Isaac Cordel expostas em diversos locais da cidade. A gula causada pelo rim de vaca com mostarda de Dijon e pela tarte de leite-creme na Brasserie François. A preguiça dos belgas, que não lavam as mãos na casa de banho e que, neste e noutros restaurantes ou circunstâncias, me irrita e provoca ira que nem dez anos de vida na Bélgica conseguem aplacar.

      No museu Rops, além das poucas-vergonhas, também as representações da Ofélia de Shakespeare em óleos de Paul Steck, Léopold Burthe e Jules Bastien‑Lepage — ali apresentados a título temporário — me impressionam.

      Embora a cidade seja bonita — favorecida pela geografia e pelo ponto de junção de dois rios —, decido partir. As chamas e o enxofre vindos de Deus poderão estar iminentes (e eu não sou Ló nem há anjos que dali me levem). Estugo o passo sob céu anilado. Movido por curiosidade de viajante, ainda entro numa igreja barroca. Ao rés das paredes laterais, dez soberbos confessionários em madeira com uma sinfonia de guirlandas, querubins e colunas de fuste em espiral. Decerto Namur é a cidade que, em todo o mundo, tem mais penitentes por metro quadrado. Dormirei aqui.

 

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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