Apresentação da obra Terras do Monte Longo  de  José de Andrade  Centro Português de Fotografia, Porto, 9 de Junho de 2018

Caro Dr; Benardino castro, Director do CPF, Caro Daniel Bastos, meu amigo, Minhas Senhoras e meus Senhores, Comecemos pelo principal, para isso aqui estamos: as fotografias e o representado.

O país aqui patenteado, isto é, esta amostragem do país, interior norte, é para muitos, sobretudo os mais novos, motivo de espanto.

Embora ainda se possam ver traços aqui e ali deste modo de vida, pobre e arcaico, por vezes no limiar da miséria, é verdade que muito se transformou e que hoje Monte Longo e os seus similares apresentam-se-nos hoje com nova cara. Nem sempre melhor, sobretudo a nível da desordem e da deselegância construtiva, mas claramente em superação de um atraso que remonta a séculos.

Apercebemo-nos que estamos perante instantâneos e não produtos laboratoriais e, mesmo, acreditamos que são sobretudo primeiras e últimas tentativas as imagens que Andrade nos dá.

“A paisagem portuguesa, a única realidade que hoje vale a pena em Portugal“ (Torga).

Assim se produziu um livro de arte, à qual não se pode retirar o profundo sentido histórico, sociológico e etnográfico. O “belo” está integrado umbilicalmente com a sociedade e as pessoas que são fotografadas.

Não sentiu José de Andrade necessidade, à Cartier Bresson, de legendar as suas imagens. Não viu utilidade em se explicar porque entendeu, e bem, que, neste tipo de levantamento imagético social a peça continha tudo: os miúdos em semi-pose desconfiada e curiosa, as mulheres e os homens no labor agrícola, ganha-pão em desuso para nossa infelicidade, as protectoras croças das chuvas e neves que nelas resvalam protegendo corpos, a romaria em fervor religioso, ainda não transmutadas em outras adorações tecnocráticas, de “Iphone’s”, “Ipad’s” e as novas redes que nos enredam como galinhas em galinheiros,  os carros-de-boi apontando ao alto, hoje inúteis e decorativos em vilas semi-abastadas, o cemitério num alto, mais próximo do céu para onde queremos que os nossos transitem, as casas em granito com acrescentos de madeira e telhados de colmo, que resistem ainda, o barbeiro ecónomo, fazendo a barba e cortando cabelo na rua, a salvo das atalaias da ASAE, os enormes rochedos plantados nas encostas por deuses esconsos e que teimam em não sair, e por aí adiante.

Este Minho interior, junto às Terras de Basto (não do Daniel, infelizmente), de Guimarães, da Póvoa de Lanhoso, Felgueiras, terras-berço do que somos, é uma região ímpar. Lê-se Camilo, Teixeira de Queiroz (de quem li o maior elogio ao Minho em escrita que conheço), e, pasme-se!, de Raul Brandão, um conterrâneo meu, que depois de provar o sal das tragédias da barra e do mar da Foz, da Póvoa e de Leixões, veio afagar o seu talento para terras de Nespereira e de S. Martinho Campo, em campos de Lanhoso, não tão longe de Monte Longo.

E citemos os nossos para situarmos melhor este Longo Monte, que estando para cá do Marão e do Alvão, e por isso ainda é minhoto, tem já em si muito do que para lá se vive.

Acompanhemos duas narrações; uma idílica, romântica, floreada, do grande Teixeira de Queiroz (que vos citei há pouco) sobre o “aquém”:

“Ventos fortes obrigam as coroas dos pinheiros a inclinarem-se soluçantes; os primeiros frios aconselham agasalhos; os nossos olhos magoados assistem, a todo o instante, à morte de coisas que viveram; nos tugúrios dos pobres acendem-se as primeiras fogueiras invernais. Já se ouve ao longe o grito ansioso do cevado debatendo-se sob a faca do matador, subjugado pelos braços fortes de homens sem coração que, vendo-o no estertor, lhe dizem facécias.

Começou o inverno. Tudo triste e sombrio: galhos estendidos sem folhas, nem frutos; campos sem pão; os trovões a roncar irados das cristas dos montes; os rios turbulentos saem dos leitos; já não sussurram ribeiros, já não gemem fontes. Aquele ciciar de reza que estas leves águas falavam, é agora caudal petulante d'algazarra. Não apetece, como no cálido Verão, abeirarmo-nos das correntes frescas e límpidas, ouvir suas cantilenas, repousar perto, n'uma preguiça anacreôntica. Tudo mudou: as tímidas donzelas toucadas de rosas que eram as fontes, os alegres sátiros enfeitados de heras que eram os regatos, transformaram-se em bandos de bêbedos e colarejas, golfando os insolentes ralhos, que voem n'esta quadra dos rios. Nas serras altas, as agulhas das penedias furam nuvens caliginas, os seus píncaros estão cobertos de neve. Da manhã para a tarde, às vezes com sol, principiam a esvoaçar flocos, semelhantes a pétalas miudinhas, e em poucas horas tudo aparece branco. São imensas toalhas a corar, sobre o dorso de grandes dromedários. Parece que vamos assistir a uma boda de gigantes, celebrada à face do céu infinito. No vale onde repousamos, o frio aperta as carnes; dos braços nus dos carvalhos e das cerdeiras pendem brincos d'água congelada, sente-se ao longe a imprecação da trovoada. É o Dezembro áspero, o Natal doméstico, o aconchego da lareira, a coroa rezada em coro, o estoirar das castanhas debaixo das cinzas.”

E agora a outra, do “para além” dos Montes, de Miguel Torga:
“Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:

- Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.”

E numa sábia composição, moderada e tonalizada, destas duas descrições temos o nosso Monte Longo.

E Monte Longo, topónimo bonito, antigo como as trovas galegas nossas, desaparecido com os arrebatamentos do liberalismo, no seu desvario normalizador, permanece ainda nas memórias perenes das gentes e dos escritos. O Fafe moderno nasce no século XIX, com ajuda dos nossos compatriotas torna-viagem, “os brasileiros”, que o nosso amigo Daniel tão bem estudou, e que tão importantes foram nestas terras. Mas o Fafe que hoje podemos ver, diferente ainda, nasce com o 25 de Abril e o progresso subsequente que, inevitavelmente, destrói o Monte Longo de José Andrade, por muitos resquícios sobrem aqui e ali de maneiras, hábitos e paisagens.

O repositório artístico, hoje - bem hajam, depositado aqui neste Centro Português de Fotografia, desde 2009, é um testemunho histórico e de humanidade insubstituível.

José Jorge Amaral de Andrade, nasceu em Santo Tirso em 1927. De profissão era funcionário público, tesoureiro, nos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal de Santo Tirso.

Tem intervenção variada nas artes, quer na pintura, no teatro, da escrita e na fotografia.

Começou a fotografar aos 20 anos de idade, despertando o seu interesse nesta área através de um seu amigo, fotógrafo profissional, Manuel de Sousa, que gostava de retratar pessoas. 
Foi fundador do Grupo Fotográfico Efepontosete. Participou com as suas obras fotográficas em exposições e salões quer a nível nacional quer a nível internacional. Foi-lhe entregue a medalha de mérito cultural da cidade de Santo Tirso, em 2008.

Com 81 anos, morreu em 2008.

Conheço uma pérola literária do nosso fotógrafo que vou partilhar convosco:

“Um caminhar sempre levanta o pó, mas o pó o vento leva-o, não tarda, para outras paragens, com réquiens ou não. Mas a música que fica ouvir-se-á sempre no silêncio das catedrais do amor ou da amizade, daqueles que abrigaram nos seus corações o que é belo e honrado, enquanto caminheiros. Qundo a alma se agiganta, sempre desperta um amanhecer festivo nos corações.”

Tenho pena de não ter conhecido José Andrade!

Saliento o profissional trabalho do Paulo Teixeira, que acompanha de há muito o Daniel nas suas aventuras culturais plurilingues. Competência e qualidade são atributos visíveis nos seus trabalhos.

Uma palavra ainda para o grande humanista Gérald Blancourt, o prefaciador da obra, homem a quem Portugal deve a grande e profunda reportagem do êxodo dos nossos compatriotas para França nos anos 60 do século XX. Nunca é demais salientar a importância desse trabalho promovido também pelo Daniel Bastos.

Para situarem o trabalho de José Andrade no tempo e no lugar, nada melhor que lerem a introdução do historiador Daniel Bastos que figura no livro.

O Estado Novo de onde ele parte para explicar o culto piedoso da pobreza e da simplicidade atávica que nos manietou, sobretudo à sociedade rural interior, de forma a manterem-se práticas de trabalho e códigos sociais inabaláveis durante décadas, enquanto o mundo se movia e as burguesias urbanas se modernizavam.

É verdade que a Monarquia e a I República não fizeram muito melhor, mas pelo menos não elegeram esse “modus vivendi” como modelo.
Ainda vivi um pouco esse atraso cultural sobretudo na minha infância em Paredes, hoje a 30 minutos do Porto, na altura a quase 3 horas.

Daniel Bastos prossegue num caminho que tenho acompanhado de há já bastante tempo – tive oportunidade de organizar ou participar em sessões-conferências em Bruxelas, em Paris e em Fafe. 

Multifacetado em práticas e estudos, Daniel tem perseverado em produzir trabalhos que o honram e nos servem.  

Leiam-no!

Obrigado pela vossa atenção

Porto, Centro Português de Fotografia, 9 de Junho de 2018

Joaquim Ponto da Silva


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Joaquim Pinto da Silva
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