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“Estamos aqui para fazer a diferença”, diz enfermeiro português em Londres

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Vítor Andrade é um dos cerca de três mil enfermeiros portugueses que integram o sistema nacional de saúde do Reino Unido. Há cinco anos em território britânico, é um dos responsáveis pelo serviço de emergência do Hospital Princess Alexandra, uma unidade situada a norte de Londres. Ao Luso.eu, o madeirense de 31 anos falou sobre a forma como o hospital se preparou para o novo vírus, com a criação de uma unidade especial, e sobre as mudanças na sua rotina laboral forçadas pela pandemia.

Neste momento, 30 de março, existem cerca de 20 mil casos confirmados de infeção e 1.300 mortes causadas pelo Covid-19 no Reino Unido. A decisão do Governo britânico de avançar para o isolamento geral aconteceu no dia 23 de março, quando isso era já uma realidade na maior parte dos países europeus. Como encaraste a aplicação destas medidas?

Vieram tarde. Culpo o Reino Unido por não ter aprendido com o exemplo italiano, ou de ter aprendido muito tarde. Aqui, veio-se a subestimar o valor e o perigo que o vírus representa. Por vezes, pensa-se que o que se passa no resto do mundo não irá chegar ao Reino Unido. Vimos que o primeiro comentário do governo britânico foi o da possibilidade de imunidade de grupo, em que aceitava que algumas pessoas seriam infetadas e que deveríamos apostar em ganhar imunidade através da contaminação de muita gente. Esse panorama mudou quando o número de casos começou a aumentar. Neste momento, estão a ser preparados três hospitais – em Manchester, Londres e Birmingham – que servirão para reforçar o poder de resposta do sistema nacional de saúde.

E no Hospital Princess Alexandra, que medidas foram tomadas?

No nosso hospital tomámos a iniciativa de criar uma unidade com o objetivo de segregar os pacientes potencialmente infetados dos restantes. Criámos uma rota específica para os doentes que nos chegam ao serviço de urgência com outros casos. Desde o dia 23 de março que essa unidade está totalmente operacional. Não houve muito tempo para o planeamento, pois tivemos apenas sete dias para nos prepararmos. Tivemos algumas dificuldades ao nível dos recursos humanos. 

Há falta de profissionais de saúde?

Sempre foi um problema do sistema nacional de saúde britânico. É difícil de recrutar médicos e enfermeiros. Não é um trabalho atrativo devido ao salário, à qualidade de vida, ao risco da profissão e às horas que temos que fazer. Agora foi lançada uma iniciativa para tentar que alguns dos profissionais que estão na reforma possam vir ajudar durante a altura da pandemia. Estão também a pedir aos alunos de medicina e enfermagem de último ano que integrem as equipas nos hospitais. No Princess Alexandra, por exemplo, normalmente teríamos cerca de 16 enfermeiros por cada turno [12 horas]. Agora temos 11. Esse problema é agora mais visível porque alguns dos enfermeiros já se encontram em situação de isolamento e outros têm filhos e não têm com quem os deixar. 

Um dos maiores motivos de queixa dos profissionais de saúde, não só no Reino Unido, mas também um pouco por todo o continente europeu, tem que ver com o material disponibilizado para a vossa proteção. Isso tem sido um problema?

A verdade é que o equipamento que estamos a usar mudou. Antes utilizávamos uma máscara filtrante, que se chama FFP3. Agora passámos a usar apenas uma máscara cirúrgica quando não estamos em exposição. Sinto um pouco de ansiedade em relação ao assunto, mas essas são as diretrizes nacionais, que são suportadas por evidência científica. É também verdade que em outros países é utilizado outro tipo de proteção e que temos vindo a assistir ao aumento de casos de contaminação clínicos por profissionais de saúdes.

Há um risco associado à tua profissão e, neste momento, a situação é ainda mais delicada. Depois do aparecimento do vírus houve uma mudança muito grande na vossa rotina.

É verdade. Há um risco muito grande associado à nossa profissão e estamos perante uma situação delicada. Temos que ter um pouco de mais cuidado com a nossa proteção. Temos que trocar o nosso equipamento de proteção mais regularmente e lavar constantemente as mãos (agora ando sempre com as mãos secas). Mas sim, o cuidado aumentou. Com a criação da nova unidade temos uma nova forma de trabalhar que até agora está a resultar. A nossa rotina também é diferente fora do trabalho. Agora não há ninguém nas ruas. Os supermercados não estão abertos às horas necessárias para quem faz turnos longos como nós. Mas é preciso realçar que tem existido uma ajuda comunitária muito boa nesse sentido. Muitos restaurantes estão a deixar-nos comida no hospital. Temos tido descontos nos transportes...

Mas e como é que vocês se preparam psicologicamente para esta situação?

Há muita ansiedade, muito medo nos meus colegas. Há uns que não querem vir trabalhar porque não se sentem em segurança no trabalho. Existem outros, de diferentes departamentos, que querem ajudar, mas não sabem como por causa deste inimigo invisível. Há também aqueles mais estoicos, habituados a pensar que esta é apenas mais uma doença. Esta não é a única doença contagiosa que um profissional de saúde lida, mas neste estado pandémico é sempre mais alarmante.

Há também um cuidado especial a ter com as pessoas à vossa volta...

Sim, por exemplo, quando chego a casa tenho noção que coloco a minha namorada em risco. É a mesma preocupação que outros colegas têm em casa, com filhos e outros familiares mais idosos. Sentem preocupação ao chegar a casa porque podem contaminar a sua família. Às vezes, o contágio não acontece devido a um erro. Basta ter o azar de estarmos no sítio errado, à hora errada. Sentimos muita ansiedade e estamos apreensivos em relação àquilo que aí vem. Ainda não sabemos muito bem como gerir esta preocupação.

Sendo um dos responsáveis pelo serviço de emergência, como tem sido gerir a equipa à tua volta?

Temos tido muita atenção à gestão das pessoas do ponto de vista emocional. Sabemos o que temos de fazer e, apesar de tudo, estaremos aqui para o fazer. É quase uma questão de tempo até alguém apanhar o vírus, mas temos de estar preparados. Ter sentido de missão. Eu próprio sinto que este foi um dos motivos por ter escolhido a área da saúde. Este é um momento-chave. Estamos aqui para fazer a diferença e para tentar fazer o nosso melhor a nível humano, moral e clínico.

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Rúben Castro
Jornalista da luso.eu CC46 A
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Nascido em 1990, no Funchal, estudou Ciências da Cultura na Universidade da Madeira e Jornalismo na FCSH/Universidade Nova de Lisboa. Neste momento vive em Bruxelas, onde colabora com vários órgãos de comunicação social. É um dos 55 Embaixadores da Juventude da ONE na Bélgica, uma ONG focada no combate à pobreza extrema e às desigualdades.

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