Paulo Costa, o diácono dos portugueses em Zurique

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Paulo Costa de 40 anos veio para a Suíça como assistente pastoral aos 33 , já com o intuito de trabalhar na missão católica portuguesa de Zurique. Nascido em 1979, no concelho de Amares, Braga, teve uma infância normal e foi com 13 anos que decidiu entrar no seminário, com o intuito de se tornar sacerdote. Aos 21 anos, desistiu desse percurso deixando o seminário e concluiu o seu curso de ensino. A sua vida manteve-se sempre ligada à Igreja Católica e, já a viver em Zurique, em 2017, foi ordenado diácono pelo arcebispo de Braga D. Jorge Ortiga, mantendo todas as responsabilidades e tarefas anteriores, assim como o ensino do catecismo tanto a portugueses como a qualquer outra nacionalidade. 

De acordo com a doutrina, o diácono católico é o "servo de Deus", que espalha a Sua palavra e ajuda a construir o Seu reino junto aos fiéis na terra, de acordo com as necessidades da Igreja. Na igreja católica, o clero é formado por três graus de sacramento da ordem sacerdotal: os bispos, presbíteros (ou sacerdotes) e diáconos. O papel do diácono nas igrejas católicas contemporâneas passa desde o trabalho administrativo nas arquidioceses, até funções de presidente nas celebrações da Palavra. Além disso, o diácono pode também realizar algumas cerimónias religiosas, como batismos e abençoar casamentos. O diácono transitório é quem recebe o grau diaconal apenas como uma etapa para depois receber o Sacramento da Ordem no grau de presbiteral, ou seja, para tornar-se padre. Já o diácono permanente, que é o caso de Paulo, é quem já é casado ou pretende se casar, não podendo progredir para o grau de presbítero, pois há a proibição do matrimônio para os padres. Assim sendo, os diáconos permanentes permanecem sempre como diáconos.

O Luso.eu foi conversar com o diácono de Zurique para perceber qual o seu papel nas comunidades portuguesas.

Carla Pimenta/Luso.eu: Porquê a escolha de diácono como profissão? Trata-se de uma vocação ou uma paixão?

Paulo Costa: Isso teve a ver com a minha formação, pois quando fui para o seminário tinha 13 anos. Frequentei o ensino básico, o ensino secundário e fiz quase toda a universidade lá, até que vi que não era aquele o meu caminho, pois não me identificava entre o que via e o que tinha de ser e então acabei por desistir de ser sacerdote. Mas continuei sempre ligado à igreja e ao ensino em Portugal. Até que depois surgiu a oportunidade de vir para a Suíça. Esta minha ligação com a profissão, tem a ver com o facto de toda a minha formação estar ligada à Igreja.

CP/Luso.eu: Qual a maior diferença entre os católicos portugueses de Portugal e os que emigraram? Vive-se a fé mais intensamente na Suíça ou em Portugal?

PC: Em relação a isso costumo dizer que no interior de cada um nós não conseguimos ver. Não há nenhuma forma de medir a intensidade ou a fé de cada um. Agora podemos, apenas, observar o exterior. E realmente o que se observa cá, e isto é a minha opinião pessoal, é que cá a fé é por vezes vista mais como um fenómeno social do que propriamente religioso. Embora nunca tenha feito um estudo, existe um número significativo de pessoas que vão à eucaristia, não tanto por fé, mas sim por ser um ponto de encontro; uma forma de estarem com A, B ou C que durante a semana não conseguem encontrar. Outra diferença tem a ver com a média de idades: a nossa comunidade estrangeira é uma comunidade jovem. Isso é facilmente explicável, pois a maior parte dos portugueses regressam na idade da reforma a Portugal. São estas as grandes diferenças de Portugal. Porque em termos de frequência dominical, não está superior a Portugal, olhando para os números.

CP/Luso.eu: Em Portugal corrija-me se estou errada, mas não existe um imposto sobre a religião como aqui em Zurique, certo?

PC: Em Portugal não existe essa taxa, a Igreja sobrevive da esmola e do contributo que cada católico dá, se assim o entender. Aqui em Zurique existe esse imposto.

CP/Luso.eu: E para as crianças frequentarem a catequese necessitam de os pais estarem inscritos na comuna como Católicos?

PC: Não necessariamente. Enquanto missão, nós não temos acesso aos portugueses que são católicos ou não. Claro que se quiséssemos mesmo saber se a pessoa é católica, não seria difícil. Mas isso não seria um entrave para as crianças frequentarem a catequese. Em primeiro lugar, porque não sabemos e em segundo lugar, eu não iria colocar nenhum entrave em relação a esse aspecto. Muitas das vezes é por questões financeiras, mesmo que o valor não seja assim tão elevado, e não por uma questão de fé. E mesmo que fosse, a catequese é para a criança, não para os pais.

CP/Luso.eu: Em relação às celebrações religiosas, no Natal existe a missa, mas na Páscoa como fazem? Já não vão poder ir de porta em porta como se faz nas aldeias.

PC: Aqui realmente as festas mais importantes do calendário religioso coincidem sempre com a época de férias, ou seja não temos assim uma adesão tão significativa. Talvez tenhamos um pouco mais na Páscoa, porque no Natal as pessoas regressam mais de férias a Portugal. Há cerca de quatro anos para cá, tentamos trazer a tradição da visita pascal de Portugal para a Suíça. Iremos fazer novamente em 2020. Até 2019, fizemos essa experiência da visita pascal de uma maneira muito simples e fomos à casa das pessoas que se inscreveram para receber esta visita em casa. E assim tentámos manter a tradição de Portugal, pelo menos da região norte do país, que é de onde é a esmagadora maioria dos portugueses que estão por cá.

CP/Luso.eu: Para além dessas duas celebrações existem outros eventos religiosos mais importantes?

PC: Nós em relação a eventos religiosos, sendo portugueses e com uma grande ligação a Fátima, quer o 13 de Maio ou o 13 de Outubro são momentos altos das celebrações. Depois temos outros pequenos momentos, como as festas da catequese, nomeadamente a primeira comunhão, ou a profissão de fé. São dias de festa, tal como o Crisma. Tirando isso temos esporadicamente eucaristias diferentes por serem mais direcionadas para as crianças, pois são feitas por elas e para elas. Casamentos cá é muito raro, porque os casais optam por casar ou em Portugal ou noutro país, no caso de matrimónios de diferentes nacionalidades.

CP/Luso.eu: A catequese tem muitas crianças inscritas? Como sente os jovens portugueses aqui na Suíça?

PC: No Cantão de Zurique temos cerca de 520 crianças que frequentam a catequese até ao 6o ano, porque não temos capacidade para mais. O sexto ano termina o percurso de catequese com a profissão de fé e depois para o crisma têm de voltar, fazem um interregno de três anos e depois fazem a preparação do Crisma.
Quanto às crianças, as idades vão dos 7 aos 12 anos de idade. Mas não creio que haja uma grande diferença entre os jovens portugueses de Portugal e os que estão na Suíça. Os pais mantêm a cultura, portanto em termos de educação não há uma grande diferença. O que eu noto é uma diferença em termos de acompanhamento que os pais fazem aos miúdos, que aqui é deficitário.

CP/Luso.eu: Mas pensa que vêm obrigados pelos pais para a catequese?

PC: Nós já fomos todos crianças e sabemos como é. Se perguntarem se prefere estar em casa ou ir para a catequese, é normal que queira ficar em casa. E as crianças a partir dos 10 anos começam a apresentar alguma resistência em vir à catequese, mas isso tudo é facilmente contornável. Havendo vontade e capacidade, se a catequese for atrativa, se o próprio catequista for uma pessoa que atraia e motive, as crianças aparecem.
E realmente nós vemos que temos um grupo de jovens aqui na missão e, se eles vêm, é porque algo os atrai. Porque a oferta é tanta aqui em Zurique e a concorrência é tão grande, que só mesmo quem gosta e sente que ganha mais aqui do que noutro lado é que realmente aparece.

CP/Luso.eu: O que sente mais falta enquanto Diácono aqui na Suíça, que teria em Portugal?

PC: Isso é uma pergunta difícil de responder... Ao contrário seria mais fácil de responder. Às vezes daria mais jeito termos mais voluntários que não procurassem o benefício próprio. Que fizessem voluntariado seguindo os princípios da Palavra em si, não por reconhecimento, mas por gosto e amor.

CP/Luso.eu: E a nível pessoal?

PC: A família em primeiro lugar, pois nós somos aquilo que fizeram de nós e quem o fez, foi a nossa família e é isso que temos mais falta cá. Os amigos, claro fazem falta, mas temos de aprender a viver com isso. Hoje em dia a distância já não é tão complicada. Além de que aqui se criam laços com outras pessoas. Os amigos que são verdadeiramente amigos, ficam para a vida independentemente da distância que os separa. A família por muito que se tente, e que é feita para estar junta, custa mais.

CP/Luso.eu: O Paulo é casado e tem filhos? Também participam ou ainda não seguem as pegadas do pai?

PC: Sim, sou casado e tenho dois filhos. Mas eles ainda são muito novinhos para isso.

CP/Luso.eu: Eu reparei que o padre não é português. Existe muita diferença cultural?

PC: Ele é de origem brasileira. Não se nota muito a diferença, porque os pais dele são de ascendência europeia. Depois como ele esteve 10 anos no Cantão de Valais também responsável pelas comunidades portuguesas, acabou por se familiarizar com a realidade portuguesa. Portanto a única diferença, digamos, é o sotaque. De resto em termos de cultura, ele está muito bem enraizado na cultura portuguesa e conhece-a muito bem.

CP/Luso.eu: Tem ideias de regressar a Portugal?

PC: Neste momento não penso regressar, mas não gostaria de ficar cá a vida toda.  Está tudo em aberto.

CP/Luso.eu: Qual a mensagem que gostaria de transmitir aos fiéis da comunidade portuguesa?

PC: A maneira mais fácil que encontramos de suportar as coisas é dizermos que a sociedade actual é isto e aquilo e tem mil e um defeitos. Mas na realidade nós é que somos a sociedade actual. E ao falarmos mal da sociedade actual, falamos mal de nós próprios. Então o conselho que eu dou é que vivam a sua vida e façam tudo para serem felizes e acima de tudo respeitem os outros que estão ao lado. Se respeitarem quem está ao lado, tudo aquilo que nós possamos fazer irá acrescentar algo e nós nos tornaremos cristãos mais felizes. Nunca se esqueçam de estarem atentos à pessoa que está ao nosso lado.

CP/Luso.eu: Qual a sua expectativa para o futuro da Igreja portuguesa em Zurique?

PC: Que consiga sobreviver. Eu trabalho numa paróquia suíça e a realidade deles é diferente da nossa, não só em números, mas na forma como demonstram a sua fé. E o futuro da igreja católica na Suíça vai depender, e depende já, muito dos estrangeiros, pois os suíços não frequentam muito a Igreja. A questão não é só visível na Suíça, é transversal, mas realmente é preciso pensar bem no que será a Igreja daqui a uns 20 anos. Provavelmente será como na Alemanha, onde muitas dioceses estão a ser reestruturadas. As paróquias tinham uma máquina montada que neste momento não é suportável. Vendem-se igrejas, artefatos, despede-se pessoal, porque não conseguem sobreviver ou manter-se com o orçamento que têm. Há cada vez menos crentes, menos pessoas a pagar. Além disso, existem já muitos estrangeiros muçulmanos que não pagam os impostos para a igreja católica, como é óbvio.

CP/Luso.eu: Não acha que isso se prende também com a ideia que tanto se fala da desatualização da Igreja católica?

PC: Esse tema daria pano para mangas... o que é ser antiquado. A verdade é uma, a Igreja cometeu muitos erros ao longo da sua história, mas para mim um dos erros mais graves que a Igreja Católica cometeu foi na década de 70, 80, ao agarrar-se a princípios que já não estavam adequados à mentalidade da época. Os jovens que cresceram nesta fase, mesmo tendo frequentado a catequese, não criaram um laço e são agora adultos que até podem colocar os filhos na catequese, mas não aparecem para mais nada. E se os pais não aparecem, os filhos vão aprender com os exemplos dos pais. Daqui a 20 anos quando estes filhos tiverem os seus próprios filhos, será que eles até os trazem à catequese? Ou seja, o erro da Igreja Católica não é de agora, já vem de trás. A questão não é que a mensagem não seja actual, ela é sempre actual e agora até mais que nunca. Mas a forma como essa mensagem foi e é transmitida, aí sim a Igreja agiu e age muito mal. Não podemos, por exemplo, condenar as pessoas. Nós somos humanos, erramos; a Igreja erra e errou muito. E a partir do momento em que a Igreja condena alguém, a pessoa não vai para um sítio onde vai ser enxovalhada em público, em vez de encontrar alguém que a entenda. Mais importante do que condenar e julgar é ter compreensão e compaixão. E quando digo Igreja digo nós, os ordenados que somos o rosto da Igreja. E enquanto nós não tivermos compaixão, compreensão e abertura, as pessoas não irão aparecer. Eu até costumo dizer que as portas da igreja têm de estar abertas, não só para que as pessoas entrem, mas para que nós possamos ir ao encontro das pessoas que já não estão a querer entrar. Antes as pessoas não entravam, não se identificavam muito, mas ficavam à porta. Agora já nem à porta ficam.


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