Empreendorismo e Emigração

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ID:N°/ Artigo: 4269
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Abrir um negócio é o sonho de muitas pessoas. Mas para isso não é só preciso ter uma boa ideia. E quando se é empreendedor num país estrangeiro, as coisas tomam outras proporções: o mercado, a cultura e a língua diferentes podem ou não surgir como um entrave.  

Flávio Teixeira (27), também conhecido com N Fly Serious, é gestor da Sublimevilla, uma ideia que trouxe de Portugal. Emigrou primeiro com 13 anos juntamente com os pais, mas depois de um período em Portugal, foi aos 22 anos que regressou de vez a terras helvéticas.
A marca Sublimevilla existe em Portugal desde 2006 e Flávio, depois de estar envolvido na abertura da filial da Gafanha, juntou-se ao seu amigo Pedro Pereira e em 2015, expandiu o negócio para Schlieren. Pedro(30), no mundo da música conhecido como Evang Riddims, apesar de vir em idade de infantário para Zurique, foi só aos 13 anos que se juntou definitivamente aos seus pais em Zurique. No espaço destes dois portugueses, são prestados serviços de barbearia e tatuagens.

Inês Carneiro (30), depois de terminar o curso de Marketing e relações Públicas e de ter trabalhado em diferentes áreas em Portugal, veio para Luzerna, Suíça, em Fevereiro de 2012, onde teve de passar por várias dificuldades até chegar onde está. Mudou-se para Zurique em 2018, após conhecer o Flávio e, como o sonho de ter o seu próprio negócio sempre falou mais alto, Intention surge como uma necessidade de Inês proporcionar às mulheres um local onde pudessem, por exemplo cortar o cabelo, tratar a sua pele, fazer manicura e ainda escolher a sua roupa.
Carla Pimenta da Luso.eu esteve à conversa com os três para perceber quais os prós e contras de ser empreendedor no estrangeiro.


Carla Pimenta/Luso.eu: Porquê abrir o Sublimevilla? Sei que há mais lojas noutros locais, como Berlin, Aveiro, já conheciam o conceito e trouxeram para a Suíça?

Flávio Teixeira: Sim já conhecia o conceito e foi basicamente uma parceria e uma extensão do negócio para aqui para a Suíça. Não houve um planeamento, nós juntámo-nos, porque fazemos música juntos há 17 anos, então decidimos juntar o útil ao agradável e arranjar um espaço onde conseguíssemos ter a nossa malta, os nossos amigos, que nos rodeavam no nosso dia-a-dia e conseguir trabalhar e fazer vida disso. Basicamente foi isso que nós queríamos fazer.

CP/Luso.eu: E também têm uma produtora, certo?

FT: Sim, temos uma produtora, editora, distribuidora, nós é que fazemos tudo.
PP: E produzimos também para outros artistas como Michael Costa, Ray Denz, Black Phantom, Don Mabo, Malabá. É uma lista muito grande. E corre bem.

CP/Luso.eu: E têm tido muitos concertos? Mais na Suíça ou em Portugal?
FT:
Em Portugal, nós cantamos em português, lá é que está o nosso negócio. Obviamente que aqui também temos, mas é mais limitado e a dimensão é diferente. As pessoas que nos ouvem estão lá em Portugal. E para quem quer não digo viver, mas comercializar a sua música e expandir, tem de pensar onde está e se junta a comunidade portuguesa.

CP/Luso.eu: E já têm contratos em Portugal?
FT:
Temos, eu tenho. Mas é com um agente, ou seja, é como se fosse um contrato com um road manager, alguém que expõe o meu trabalho às rádios, televisões e vende os concertos.

CP/Luso.eu:  Abrir um negócio, pode parecer uma tarefa simples, uma vez que a Suíça não é o vosso país de origem, essa foi a maior dificuldade? Ou sempre souberam que tinham de abrir neste sítio? O que tem sido ou foi mais complexo desde o inicio deste processo?

PP: Abrir não é dificil, o dificil é manter. O primeiro sítio tentámos, deu certo.

FT: Por acaso só tentámos aqui, estamos a falar a nível de espaço. Não fizemos nenhum tipo de estudo aonde é que nós deveríamos ter a loja. Nós aqui na Suíça somos um bocado limitados. Onde houver é para onde vamos. Funciona como as casas e os apartamentos, etc. Há muitas burocracias. Basicamente não fizemos nenhum estudo de onde é que nós íamos meter o nosso espaço. Não podemos dizer que é fácil, mas sempre tivemos uma ideia de “vamos fazer assim e vai ser assim” e sempre aconteceu.

CP/Luso.eu:  Vocês abriram a loja em 2015, e logo de inicio foram bem aceites? Quais foram as estratégias que utilizaram para chamar a atenção, uma vez que surgem sempre mais barbearias e tatuadores?

PP: Desde que abrimos sempre tivemos casa. Graças a Deus, sempre estivemos a trabalhar.

FT: Nós também sempre nos focámos na qualidade e na imagem em fazer coisas criativas, como eventos e promoções aqui na loja. Sempre tentámos estar em todos os sítios e isso remete um bocado para a diferença que temos dos outros.

CP/Luso.eu: Quais são os planos no futuro? Pretendem expandir mais o negócio, ou adicionar outra área de serviço ao mesmo?

FT: Nós sempre temos muitas ideias, mas é preciso uma equipa muito grande para se poder expandir, não se trata só do capital e investimento.
PP: É preciso ter mais pessoal e irmos devagar, formarmos as pessoas e fazendo conforme as oportunidades vão aparecendo.

CP/Luso.eu: Falaram em qualidade, para tal vocês importam produtos de Portugal, ou os produtos que aqui utilizam e comercializam são mais produtos suíços ou a origem não influencia a escolha?

FT: Em relação à Tatuagem, utilizamos produtos todos da Suíça, porque os produtos têm de ser todos homologados para serem utilizados aqui. Em relação à barbearia utilizamos produtos americanos. Mas nós não somos uma casa para venda de produtos. Os produtos da loja são mais para prestação de serviços

CP/Luso.eu: Têm clientes de todas as idades? E em termos de nacionalidades? Mais portugueses?

PP: A Barbearia é mais para homens, mas tatuagens é ela por ela e tanto pode vir uma pessoa com 20 como com 50. E depois temos clientes de todas as nacionalidades. Nunca fizemos publicidade para atrair especialmente portugueses. Nós sempre pensámos no país, na Suíça, e não propriamente na comunidade portuguesa. Nas nossas redes sociais até podemos publicar em português, pelos que nos seguem. Mas nunca fizemos isso no nosso site, ou na página da loja. Senão iria limitar-nos e isto é uma casa de portugueses, mas não só para portugueses.

FT: Se nós abrimos uma loja com um conceito e um nome e fizermos publicações em português um suíço nunca vai entrar.

CP/Luso.eu: Porque há sempre aquela ideia de que não somos criativos, notam que as pessoas se surpreendem por ser um negócio de portugueses? Ou na vossa opinião e experiência, esse estereótipo já morreu?
PP: Há muitos que podem pensar, mas em termos de tatuagem, não estamos mais atrasados que os outros países. Estamos bem à frente e bastante evoluídos e no mundo da barbearia também.

FT: Em termos de aceitação, realmente as pessoas mais velhas têm sempre essa mentalidade e eu não julgo. Foram criadas assim e estão aqui há 30 anos, mas que as pessoas pensam que isto não pode ser de um português, porque um português tem de vir trabalhar nas obras ou nas limpezas, estar aqui 30 ou 40 anos, pegar no dinheirinho e fazer a reforma lá no seu país.. Essa é a mentalidade.

PP: Isso vê-se também nos restaurantes portugueses que abrem só a pensar nos portugueses, apesar de sermos 10%, se calhar nem isso, dos habitantes. Eu acho que isso está mal. Nós estamos na Suíça, somos portugueses, mas cobramos em francos suíços, também temos que nos focar nas pessoas daqui.

CP/Luso.eu: Pensam regressar a Portugal? Sentem-se integrados neste país? O que para vocês é melhor aqui? O que vos faz falta?

PP: Eu não sei responder a isso... Eu gostava de voltar a Portugal, mas não para já. Não tenciono ficar aqui na reforma a comprar croissants no supermercado. Não será bem o meu plano de reforma. Mas para já nesta altura, acho que ainda temos mais para fazer aqui e depois pode ser que surja algum projeto em Portugal.
O que gostamos mais da Suíça em relação a Portugal é o dinheiro (risos). O IVA aqui também gostamos mais, lá são 23% aqui é menos de metade. São pequenas coisas que quando se tem um negócio faz diferença. Eu gosto do sistema daqui, é um pouco muito certinho, mas funciona.

Aqui faz falta a família que não a podemos ter toda. O clima, o povo acolhedor português, que aqui as pessoas são mais frias. Mas não se pode ter tudo.

FT: Em Portugal o que mais nos faz falta é o dinheiro, senão estava lá (risos). Aqui falta a família, o clima, o mar. Mas aqui é outra qualidade de vida e outro tipo de rendimentos. Eu sinto que até em Portugal somos mais controlados e temos mais burocracia que na Suíça, mas obviamente como os números são outros, quem está aqui consegue ter uma mão no negócio lá. E estando em Portugal eu não consigo. Não tenho rendimentos nem fundos para isso. A única diferença que sinto é em termos de faturação, mas talvez tenha a ver com os locais. Porque nós lá temos mais faturação nos meses de verão e nas alturas de férias. Aqui é ao contrário, no verão nota-se menos gente, mas temos na mesma trabalho.

PP: Em Portugal nota-se uma grande diferença é na altura dos emigrantes. Sobe duma forma... e depois desce da mesma forma... E quem tem negócios em Portugal de prestação de serviços já sabe que se tem de prevenir no verão para suportar o inverno. Não só nesta área, noutras também. E pronto já sabem, temos aqui uma barbearia, fazemos tatuagens, quem nos quiser visitar em Schlieren, de terça a sábado, estão à vontade!


CP/Luso.eu: Porquê abrir a Intention? Qual a ideia por trás?

Inês Carneiro: Eu estive em Luzerna seis anos, trabalhei em restaurantes, bares e depois dois anos numa loja de roupa, o mundo da moda sempre me fascinou e trabalhar com pessoas também. Entretanto iniciei uma relação com o Flávio e depois de ver que a relação estava a dar certo, tomei a decisão de vir para Zurique. Deixei tudo para trás novamente; foi um novo começo, mas eu gosto de desafios. Então quando cheguei pensei se iria arranjar um trabalho em função de outra pessoa, sabendo que tenho capacidade que me permitiria gerir um local só meu?
Como sempre me interessei muito pelos direitos das mulheres, decidi então criar o meu conceito para o mundo feminino. E surge assim a Intention, que é o meu grande amor, o meu sonho tornado realidade.
Durante dois anos trabalhei sozinha na loja de roupa, com horas mortas e pensei, se tenho de ir ao cabeleireiro a um lado, às unhas a outro, pego no carro e vou comprar a roupa a outro, etc, porque não criar um conceito onde a mulher entra e tem tudo: desde as unhas ao cabelo atá à prenda para o namorado ou filho?

CP/Luso.eu: Pelo que entendo a Intention é como um filho para ti, mas o que ofereces de diferente aos teus clientes?

IC: O Público feminino sempre foi a minha praia, sempre trabalhei com mulheres e com algumas mantenho ainda hoje parcerias profissionais. Algumas tiraram curso de maquilhadoras, por exemplo e vêm aqui, daí eu achar que tinha capacidade de gerir uma grande equipa. Então a Intention é constituída por uma parte de manicura, uma parte de estética e Spa, a parte de roupa, uma parte de cabeleireiro e ainda um mini bar onde as clientes podem provar sumos detox, chás, etc. Foi tudo feito e pensado com muito amor por todas nós.

CP/Luso.eu: E foi por vires para Zurique mais por causa do Flávio que abriste o negócio ao lado dele, ou surgiu esta oportunidade?

IC: Surgiu esta oportunidade aqui. Isto era um armazém, fomos nós que renovámos tudo desde o chão, tudo com a ajuda da nossa família. O dono do armazém queria sair por ser um valor elevado para armazém e aproveitámos a oportunidade. O Flávio negociou com a imobiliária e pronto: abri a loja no dia 1 de Dezembro de 2018, um mês muito especial para mim.

CP Luso.eu: Tendo um background em Marketing, qual a estratégia para se destacar das outras lojas. Redes sociais, revistas?

IC: Eu acho que o meu forte são as redes sociais, mas também faço colaboração com a revista regional.

CP/Luso.eu: Os teus clientes têm uma faixa etária e nacionalidade específicas?

IC: Eu tenho clientes desde os 16 até cerca dos 80 anos, porque nós temos serviços para todas as idades. Em termos de vestuário, eu tinha uma linha mais jovem, mas neste momento estou a ter uma linha mais clássica e também de homem. Sou eu que vou elaborar a nova coleção, onde o produto assenta à medida na cliente. Esse é o meu projeto para agora.
No inicio, devido às redes sociais, tinha mais clientes portugueses, mas neste momento tenho todas as nacionalidades. Só o marketing português é que passa pela minha página. De resto é tudo em inglês e alemão. Mas claro que se escrever em português, obviamente vai ser atendido nessa língua. Eu sei que nem todos dominam o alemão, principalmente escrito.

CP/Luso.eu: Apesar de serem negócios distintos, acabam por ter pontos em comum e por partilhar clientes?

IC: Sim, os homens vêm aqui fazer a depilação, tratamentos capilares, etc. Nós somos uma grande família. As duas equipas estão sempre em sintonia e harmonia.

CP/Luso.eu: Quando recebes clientes estrangeiros, sentes que te olham dentro do estereótipo que este conceito não pode ser português?

IC: Sinceramente acho que essa ideia acabou. Eu acho que recebemos muito daquilo que transmitimos aos outros. Eu sei obrigatoriamente se me entra uma suíça na loja, eu vou ter de a atender de outra forma. Estão habituados a outra forma e tu só tens de te saber adaptar a cada pessoa. E isto sim, é uma estratégia de gestão. E isso aprende-se com o tempo e com o lidar: saber como satisfazer as pessoas.

CP/Luso.eu: Em termos de produtos, primas por ter produtos portugueses ou por ter qualidade sem depender da origem?

IC: O que me interessa é a qualidade e não a origem. Temos produtos da L’Oréal e vamos ser representantes de uma marca de produtos vegans, que nem sequer existe na parte alemã da Suíça. Temos sempre cuidado a escolher os produtos, tanto portugueses, como brasileiros, marroquinos, por precisarmos de várias gamas para satisfazer as necessidades dos clientes.

CP/Luso.eu: Qual a maior dificuldade neste projeto, uma vez que não és suíça?

IC: Honestamente se fosse há três anos atrás não abria o negócio, porque sem experiência no mercado, sem saber falar alemão, eu não estava habituada ao mercado aqui na Suíça. O meu percurso até aqui foi válido e eu automaticamente sabia que ia precisar de um bom contabilista, também tinha a experiência do meu marido e sócio Flávio, que me ajudou bastante desde o inicio. No momento, sou eu que faço mais a gestão da loja, mas inicialmente, em termos de papeladas e leis, ele é que me ajudou quase em tudo.

CP/Luso.eu: O que sentes mais falta de Portugal e o que gostas mais daqui?

IC: De Portugal sinto mais falta da minha família, a minha mãe (lágrimas). E da alegria das pessoas. Em termos de organização dos serviços eu adoro a Suíça. Não imagino a voltar a viver em Portugal. Eu quero aproveitar a minha reforma a viajar, conhecer outras culturas, ir para onde está o sol, que o Outono Inverno é o que me custa mais aqui. Sinto falta da vitamina D, mas a Suíça seria o país perfeito se tivesse as temperaturas agradáveis.

CP/Luso.eu: Projetos futuros?

IC: Projeto futuro é trabalhar a moda Inês, que foi a parte da loja que deixei mais em stand by para conseguir rendimento nos outros serviços. Mas agora como tudo funciona e com agenda cheia, posso dedicar-me mais na gestão e no vestuário. As minhas colaboradoras trabalham para a Intention e eu acho que acabo por trabalhar para elas. Sou eu que trato da publicidade, agendamento, organização, atendimento telefónico, etc. E para além de tudo tenho a Intention of Travel, que acabei de abrir em Las Vegas e funciona aqui no sistema da loja também. E estou à procura de mulheres com garra e vontade de empreender, para a minha equipa. As minhas portas estão sempre abertas. 

 


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