Um campeão português na Suíça

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João Gonçalves de 35 anos, viu os seus pais trocarem a Póvoa de Lanhoso pela Suíça, ainda ele tinha apenas um mês de idade. Deixado a cargo dos seus avós, João foi crescendo em solo português com o afeto dos seus pais à distância. Foi com o nono ano de escolaridade completo, que se juntou a eles em Zurique, e prosseguiu os seus estudos no curso profissional de pintor de automóveis, formando-se mais tarde em físico-química.

Aluno prodígio, com uma média notável, desde cedo se fez salientar no meio dos seus colegas, pelo que foi convidado a competir em várias provas e campeonatos. Conseguindo sempre vencer todas as competições da sua área, incluindo o campeonato suíço onde disputou os melhores dos diferentes cantões, foi representar a sua área pela Suíça, no Campeonato Mundial WorldSkills de 2005, em Helsínquia. Consagrou-se campeão mundial deste torneio e somou ainda a medalha de bronze pela melhor pontuação de toda a delegação Suíça.

WorldSkills é o maior Torneio Internacional de Educação Profissional, realizado a cada dois anos. Os jovens profissionais, que são selecionados pelos respetivos países, só podem competir uma única vez e têm de ter no máximo 22 anos de idade.

Carla Pimenta da Luso.eu foi falar com este jovem talento para tentar perceber como tudo aconteceu e no que este prémio influenciou a sua vida.

 Carla Pimenta / Luso.eu:  Como soube destes campeonatos?

João Gonçalves: Existe a federação de carroçarias da Suiça e eles próprios estão de olho em jovens que se destacam. E depois esses campeonatos são feitos pela federação. É quase como o futebol, digamos, em que a federação portuguesa vai com a equipa portuguesa a um campeonato mundial. Aqui é a mesma coisa, eu tive de fechar um contrato a partir do momento em que ganhei o campeonato suíço, em que me comprometia a representar a Suíça e a treinar sobre as condições deles. E depois de estar de acordo, já não se pode voltar atrás, porque eles investem muito dinheiro. Mais ou menos por candidato não chegam 100’000 francos. É então a associação de carroçarias Suíça que organiza tudo juntamente com a organização de carroçarias mundial. Digamos quase como a FIFA no futebol, existe algo semelhante também no campeonato de profissões.

CP/ Luso.eu:   Mas este campeonato tem a concorrer mais profissões, não só na área automóvel?

JG: Sim, éramos uma delegação de cento e poucas pessoas de diversas áreas, de pintores, chapeiros, mecânicos, floristas, cosmética, mecatrónica, diversas profissões e eu fui representar esta área.

CP/ Luso.eu:   Cerca de quantos países participaram?

JG: Na altura penso que foram para cima de 45 países.

CP/ Luso.eu:   Como foram os parâmetros de avaliação? Várias provas? Ou um trabalho final?

JG: Tínhamos provas de desenho, de geometria, de pintura, rapidez, mistura de tintas, polimento, de tanta coisa é complicado explicar.

CP/ Luso.eu:   As provas eram feitas em fases até serem excluídos todos?

JG: Não, todos trabalham até ao final. Até ao final nunca se sabe quem ganhou. Existe um grupo de peritos de diversos países e eles é que iam avaliar durante o período de 4 dias do campeonato. Avaliamos diversos trabalhos e no final são feitos os cálculos de pontuação.

CP/ Luso.eu:   Depois de vencer o campeonato, o que alterou a sua vida?

JG: Com este prémio, abriram-se várias portas. Depois do campeonato recebi prémios monetários como também convites de trabalho. Recebi na altura um convite para o Japão e China, mas não estava para aí virado. Funciona muito assim, porque na China e Coreia, que foi quem ficou em segundo lugar; se ele tivesse ganho o campeonato, ele receberia uma casa, um carro da Hyundai, tem direito a um posto de trabalho bastante alto. Para eles este prémio tem um estatuto muito alto. Até que eles têm treinadores para tudo, têm uma delegação só de apoio ao candidato muito grande. E o treinador no final ficou muito desiludido com ele, que nem falou mais com ele, para se entender a importância que este campeonato tem para eles, é uma questão de honra , não é apenas um campeonato.

Eu ganhei a medalha de ouro da minha área e também por ter alcançado a melhor pontuação em toda a delegação Suíça também recebi a medalha de bronze. De todas as profissões eu consegui obter a pontuação mais elevada.

E por esse motivo tive convites de empresas internacionais, como produtores de tintas para ir trabalhar como formador na área de pintura. Trabalhei na Emil Frey durante um ano, porque automaticamente foi uma questão de prestígio fazerem publicidade comigo, tiveram muitos pedidos de pessoas com carros de alta gama, como Aston Martin, Range Rover, Jaguar e queriam que eu pintasse o mesmo carro em ponto pequeno com a minha assinatura para terem em casa por ter sido pintado pelo campeão mundial de pintura e a Emil Frey aproveitou-se um bocadinho disto e fiz bastante publicidade.

Depois uma firma holandesa a Akzo Nobel, contratou-me para ser formador e ficar responsável da parte técnica tanto a nível nacional como internacional. E trabalhei 6 anos a nível mundial, dando apoio a França Espanha, Holanda e diversos países .

Mais tarde tive propostas de empresas americanas, onde trabalhei na parte de vendas.

Por exemplo a AMAG convidou-me três meses para dar formação aos pintores e ajudar na construção da nova garagem, dando as minhas ideias. Eu dava formação a mais ou menos 400, 500 pessoas por ano nesta área e tinha bastante experiência na área e fui conhecendo muita gente, daí surgirem sempre bastantes propostas de trabalho. Até que um dia mais tarde surgiu a oportunidade de comprar a firma que tenho hoje.

CP/ Luso.eu:   Quanto tempo depois de ter ganho o campeonato?

JG: Já me tinha sido proposto antes, mas na altura não achei que tinha maturidade suficiente para dar esse passo. E foi depois em janeiro de 2016 que fiquei com a empresa.

CP/ Luso.eu:   E ao fim destes anos que já passaram, o prémio ainda abre portas ou é só algo do passado bom de relembrar?

JG: Não, eu todos os dias vivo o prémio e o esforço que fiz antigamente. Porque todos os clientes que vêm aqui, ouvem falar de mim e vêm ter comigo com carinho e ficam entusiasmadas e contentes por um jovem ter ganho um campeonato e ter alcançado o que alcançou. Continuam a surgir propostas de trabalho, mesmo agora,para a colaboração com seguros é insistente, companhias de leasing. Eles conhecem o meu nome entram em contacto comigo e tentam fechar contratos. Por isso vivo diariamente com o nome que criei.

CP/ Luso.eu:   Depois do curso profissional, fez um mestrado e mais formações foi depois de ter ganho o prémio?

JG: Sim logo de seguida, porque temos de estar no mínimo dois anos que não se pode fazer mais nada. E depois ainda tive  muita formação interna da parte da produtora de tintas na parte do laboratório, são formações que não existem. Só mesmo trabalhando na área é que se consegue adquirir esse tipo de conhecimentos. E tive formação na área de vendas e outras áreas.

Até fui a Portugal convidado pelo cônsul por causa de projectos que tenho para o nosso país, gostava de abrir uma escola para dar formação nesta área e como falo algumas línguas ao mesmo tempo poderia  preparar alguns jovens para o estrangeiro e um futuro laboral. Nós temos boa mão de obra em Portugal, só precisamos de ensinar um bocadinho mais ou formar estes jovens e apoiá-los para que um dia consigam alcançar algo. E esse é um bocadinho o meu objectivo neste momento e estive reunido neste verão com o nosso Presidente da República. Com o intuito de dar o meu conhecimento e apoio ao país e conciliar as duas coisas: tanto a Suíça e Portugal e estar a trabalhar nos dois lados.

CP/ Luso.eu:   Para terminar e no seguimentos da sua resposta, o que significa então para si a Suíça e qual o lugar que Portugal tem na sua vida?

JG: Quem me conhece sabe que gosto muito do meu país. Cresci lá, tenho muito boas lembranças do nosso país. Sei que  não é fácil para os jovens terem colocação nas diversas áreas que são formados, mesmo depois de um curso universitário é difícil de arranjar colocação. Muitas vezes têm de ir para áreas que não as que sempre sonharam e idealizaram para eles. Mas vejo um grande potencial no nosso país, temos pessoas muito inteligentes, um clima muito bom. Eu acredito no nosso país e acho que mesmo que quem trabalhar bem e se esforçar também tem sucesso no nosso país. Às vezes uns mais outros menos. Vivo o meu quotidiano sempre a pensar um bocadinho como poderia construir algum projecto lá, que me pudesse dar a possibilidade de passar mais tempo no meu país e, simultaneamente, conseguir conciliar a Suíça. Porque sei que é um país muito organizado, estável e sou suíço na mesma. Eu próprio tenho passe Suiço. Na altura que ganhei o campeonato ofereceram-me a nacionalidade Suíça e eu não aceitei, porque me sentia muito português, nem devia dizer isto... mas quando representei a Suíça estava cá há pouco tempo e o meu coração batia muito forte por Portugal e recusei. Hoje em dia tenho, porque acho muito importante para a minha filha um dia ter um futuro mais estável e conciliar o ir vir quando quiser.

Eu sinto-me bem aqui na Suíça, mas num futuro mais longínquo gostava de se calhar ir para Portugal e conseguir realizar os meus projectos e continuar à distância com responsáveis aqui  manter o meu projecto na Suíça para ter esse canal de ligação e formar jovens e mandá-los para aqui. Eu gosto muito do meu país e se pudesse gostava de regressar um dia.


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