Cega desde nascença, Marta Jordão do Paço habituou-se desde cedo a superar a adversidade.

Talvez por isso tenha chegado da Califórnia com a medalha de bronze no Mundial de surf adaptado, aos 13 anos. .E, recentemente, título europeu de surf adaptado, na categoria de AS VI Ladies, e mais um bronze, na categoria AS VI Open, que decorreu em Viana do Castelo.

Esta jovem de palmo e meio também juntou ao seu palmarés o prémio do CNID. para a melhor atleta adaptada do ano.
A distinção feita a Marta Paço na mais recente Gala da Associação dos Jornalistas de Desporto, que teve lugar no passado dia 27 de Maio, no auditório do Museu de Portimão, veio coroar um trajeto ascendente e triunfante da jovem surfista. Neste evento a plateia aplaudiu de pé durante vários segundos a jovem que é a pessoa mais jovem de sempre a receber um prémio do CNID.

Marta Jordão do Paço, tem 14 anos, nasceu em Outeiro, uma freguesia rural no distrito de Viana do Castelo. Gosta das disciplinas de matemática e física e química e confessa que gostava de ser médica apesar de saber “não é fácil devido à minha cegueira. então se calhar vou enveredar pela área das Humanidades seguir talvez direito”, referiu..
Luso.eu falou com Marta Jordão do Paço, numa entrevista em que a conhecemos melhor e nos fala dos seus sonhos.

Luso.eu – Vamos recuar no tempo, quando surge esta paixão pelo surf? Quando e o porquê?

Marta Paço – Primeiro, veio a oportunidade de experimentar, como por brincadeira, nas férias de carnaval de 2017.
A minha mãe tem o café perto do Clube, que era frequentado pelos treinadores.

Eles sabiam que eu era cega, então quando me viram em cima de um skate desafiaram a minha mãe para eu experimentar o Surf que no fundo é andar de skate no mar. Como eu sempre fui uma apaixonada pelo mar e praia foi muito fácil.

L- Mas, este nunca tinha sido um sonho?

MP – Não, nunca me passou pela cabeça que seria possível mesmo sendo cega surfar.

L – Quantas horas de treino e dias?

MP – Treino no mar às terças de manhã, quartas, sextas e sábados e tenho treino físico às terças ao fim da tarde.

L – Que a cativa neste desporto?

MP – Por estar em contacto com a água e ter a liberdade de estar em contacto com a natureza sem medo de obstáculos.

L – E o mar é …?

MP – Liberdade.

L – Melhor amiga, a prancha de surf ou a bengala devido aos problemas de visão?

MP – A prancha.A bengala é fundamental no meu dia a dia, sem ela não teria a independência que tenho hoje. Por sua vez, é na prancha que eu me sinto mais feliz, pois é com ela que eu faço o que mais gosto: surfar.

L – Explique-me como faz para encontrar a sua melhor onda?

MP – Através do meu treinador que está sempre comigo na água e me vai descrevendo o mar e verbalmente indica quando devo entrar na onda.

L – É como se alia tal com os problemas de visão? Que cuidados deve ter?

MP – O Surf aliado aos problemas de visão requer mais concentração e muita sensibilidade.

L – Sente-se orgulhosa por em tão pouco tempo de surf ter conquistado os prémios que surgiram?

MP – Sim.

L – Que troféu destacaria o agora conquistado em Viana do Castelo ou o nos EUA? E porquê?

MP – Sem duvida o do Campeonato Europeu em Viana do Castelo, porque como estava a competir em casa pude sentir mais de perto o apoio da minha família e amigos.

L – Vamos primeiro aos EUA como te sentiste? Qual o sabor da conquista? Como te preparaste?
MP – Para os EUA eu preparei-me muito bem com muitos treinos de água mas também físicos. Quando cheguei lá, não esperava trazer um troféu mas, aconteceu e deixou-me muito feliz.

- L – E agora o mais recente, Viana do Castelo … Como foi? Que sentiste?

MP – O campeonato europeu, que decorreu em Viana do Castelo, a minha cidade, deixou-me muito orgulhosa. Viana foi a primeira cidade onde se realizou um campeonato europeu de surf adaptado e isso foi um grande passo para o desenvolvimento deste desporto. Senti o apoio desde que o campeonato começou: mensagens de apoio, pessoas na praia a torcer por mim… tudo isso foi muito importante.

L – Foste merecedora de vários elogios e comentários e entre eles do presidente da república e primeiro-ministro, que se sente?

MP – Receber elogios é muito bom. Quando recebi elogios destas entidades, senti-me recompensada pelo trabalho que tenho vindo a fazer e motivada para o continuar.

L – Os problemas de visão nunca foram um obstáculo, certo?

MP – É possível …transformar os problemas em simples desafios e trabalhar para os ultrapassar.

L- E sonhos futuros no surf? Provas previstas, existem?

MP – No futuro espero tornar-me cada vez melhor e fazer as provas que aparecerem.


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