Com uma larga experiência na internacionalização de artistas brasileiros para a Europa e mundo, e vários anos dedicados à cultura nas suas múltiplas vertentes, a produtora e responsável pelo projecto Cine Luso Espirito Mundo, Aline Yasmin, falou com luso.eu sobre a segunda edição “Somos Todos Estrangeiros” - Memória. Identidade. Território. Migrações, a acontecer de 5 a 23 de Novembro, em Bruxelas. Esta "exilada cultural" como se gosta de identificar, explica as razões do tema, o novo formato cine-debates, os eixos que o compõem e da importância do cinema documental como processo de reflexão. Leia aqui a entrevista.

LusoProdutins - O tema Migração é muito pertinente e actual. Quais os objectivos das 2ª edição do Cine Luso Espirito Mundo?

Aline Yasmin - Desde a primeira edição nos definimos que anualmente teríamos um tema a ser trabalhado. A questão da migração se faz urgente pois estamos diante de um processo de profunda reflexão em todo o mundo sobre o ser migrante. A lusofonia é por si um processo migratório e de estabelecimento de novas fronteiras. Nos pareceu claro que depois de estriarmos com o tema das mulheres - igualmente relevante - optássemos pelo tema que funda o proprio conceito do projeto que é o deslocar-se da humanidade na busca de outros territórios.

O objetivo em 2018 é claramente falar das migrações a partir do processo e suas nuances. Para tratarmos o tema criamos algumas linhas que tocam igualmente a memória e o sentido de pertencimento. Assim nos abordaremos também suas causas e processos históricos na lusofonia. 

LP - O que motivou a escolha de “Somos todos estrangeiros”?

AY - O Espirito Mundo era inicialmente um projeto de internacionalização e hoje é uma ASBL estabelecida na Bélgica e ja usava a questão das conexões com o "ser estrangeiro" nos projetos que desenvolvia. Sempre nos vimos diante do Outro como artistas, criadores e produtores numa condição de reconhecimento mas também de estranhamento. O ser estrangeiro faz parte do dialogo. Perceber as diferenças - e criar a partir ou apesar delas - é um grande desafio. No final, nos entendemos na subtileza do processo criativo e aceitamos como mais importante a nossa humanidade.

LP - O que trás de novo esta edição em relação à de 2017?

AY - Estamos focados nos debates e no processo de construção. Dividimos o tema “Somos todos estrangeiros” por sub temas onde teremos a oportunidade de observar e dialogar sobre as diversas perspectivas integradas construídas nos eixos MEMÓRIA. IDENTIDADE. TERRITÓRIO E MIGRAÇÕES. 

Se falamos de memória podemos falar da construção identitária do Brasil ou das questões políticas da Africa lusófona com vários países intricados e ligados pela língua. Por outro lado, avaliamos os motivos que nos levam buscar outros territórios e como se sentir no mundo sendo parte dele por origem ou por afetividade.

Pensamos a língua como o elo fundamental e questionamos ser o elo existencial. Temos ainda a situação de povos originários da Amazonia que sofrem hoje ameaças em seus territórios de origem ao mesmo tempo que também sofrem os imigrantes. Vamos refletir sobre a questão da territorialidade no discurso do pertencimento e identidade. Teremos a participação de mediadores e oradores dos temas na sequência da exibição dos filmes. Os formatos são diversos e variam de curtas a longas. Neste ano, todos são documentários e preferencialmente produções independentes com um discurso critico. 

LP - Que tipo de colaboração artística irá acontecer durante o festival?

AY -Temos criadores convidados que representarão o Brasil e sua multiplicidade, Portugal e a Africa lusófona. Como no primeiro ano iremos realizar um curta metragem construído a partir dessa conexão no processo.Temos os convidados que virão do exterior e também os criativos que estão em Bruxelas e farão parte do processo de criação e produção na residência artística.  O resultado sera apresentado no ultimo dia com a partilha da experiência no processo.

LP - O que se espera dos realizadores convidados?

AY - Que possam trazer cada um o seu olhar e que seja esse o resultado. Que a gente possa conectar as diversas realidades através de dialogo e construção coletiva.

LP - Qual o resultado que se pretende com este evento?

AY - Nosso propósito é pensar o mundo em que vivemos. Acreditamos no audiovisual como um suporte importante e absolutamente revelador de cada realidade pois nos aporta o discurso por inteiro. Esperamos consolidar nosso projeto  cada vez mais e pensar desde ja as edições futuras.

LP - A quem este projeto se dirige ? que tipo de publico voce espera ?

AY - O publico em geral, de todas as faixas etárias mas especialmente para aqueles que desejam pensar o mundo de forma critica e ampliada e sobretudo que queiram conhecer novas perspectivas. Eh um evento lusófono aberto às mais de 180 nacionalidades que coexistem em Bruxelas e todas elas são muito bem-vindas.

Biografia

 Nasceu no Brasil, com cidadania italiana. Viveu em Italia, Irlanda e atualmente em Bruxelas. Formação em comunicação e marketing com especialização em eventos na  Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro, Graduada em filosofia pela Universidade Federal do Espirito Santo, Brasil. Especialista em Empreendimentos e cidades criativas pela Universidade Nacional de Cordoba, Argentina. Em 2017 frequentou o master em Gestion Cultural da Universidade Livre de Bruxelas ULB. Poeta com um livro publicado « Memória de Calculo » e dois monólogos encenados. Produtora internacional, consultora em economia criativa e gestora cultural. Socia-Diretora de Criação da Touché Ideias e Fatos, socio-fundadora da Unimus Cooperativa de Musica, fundadora e presidente do Instituto Quorum Produções Artísticas e Culturais, consultora do SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas  em desenvolvimento territorial da cultura no Brasil. Foi conselheira municipal na capital do Espirito Santo, representante da sociedade civil eleita na comissão das organizações não governamentais. Fundou o Arranjo produtivo Local do Espirito Santo – Nestor Gomes, reconhecido como um território criativo pelo Ministério da Cultura. Actuou nas políticas culturais do Brasil especialmente na promoção internacional da musica e foi eleita delegada em diversas conferencias publicas municipais, estaduais e federais de cultura no Brasil. Produziu centenas de atividades de intercâmbio internacional no exterior ao longo de 10 anos em diversos países da Europa.

 

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