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Urgência por fazer cinema

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Com uma velha sinopse de fragmentação geográfica, cultural e económica existente em Portugal, há uma nova geração de artistas que teimam em amar e a reclamar a arte. No mundo do cinema, encontrámos José Magro, um jovem do Porto que quer ver crescer o potencial de artistas, nomeadamente realizadores, que tanto tem honrado os portugueses em festivais de cinema internacionais.

José Magro, realizador, tem 29 anos e uma visão ambiciosa sobre o que é fazer arte. Acredita que o cinema é da maior importância para a sociedade e por essa razão reclama mais incentivos culturais por parte do estado, com reflexo no orçamento. “Sentimos que a cultura não tem sido justamente valorizada pelas entidades políticas”, justifica Magro.

A história até pode ser antiga, mas os novos talentos e a diversidade artística de estilos e jeitos estão a mudar. Há uma urgência em fazer cinema para contar um Portugal tão diverso. “Já convencemos todo o mundo, só falta convencermos os que estão na nossa casa e o público português, que continua um bocadinho afastado das salas de cinema português”, afirmou Magro.

No plano profissional, trabalhou com Manoel de Oliveira e com vários nomes do jornalismo. Experiências distintas, conta-nos. Perguntamos-lhe, então, se conseguiria pôr em palavras a evolução do cinema português. José Magro apresentou-nos então um mundo novo na expressão cinematográfica portuguesa. Nesta conversa com o realizador, descobrimos que o panorama cinematográfico português é altamente considerado além-fronteiras e que, alguns, já o consideram um caso de estudo a nível de experimentação e multiplicidade de expressões artísticas.

Magro dá um rosto e uma perspetiva diferente à forma de ver a arte e conta uma geração muito jovem de realizadores, que com uma individualidade única tem contribuído muito para por Portugal, na linha da frente do cinema internacional. José Magro considera que, tendo em conta os recursos e a população de Portugal, o cinema nacional “é muito melhor do que aquilo que se poderia esperar”. Acha que as pessoas têm tido uma capacidade enorme para surpreender quem está fora do país. “Há uma geração muito nova a querer fazer cinema, que está a desconstruir um pouco aquilo que era expectável na experimentação cinematográfica e a fazer filme com formas diferentes de se expressar”, sublinha. 

Contudo, não é de hoje que em Portugal a cultura é um dos sectores menos apoiados. “Sempre houve essa tendência de fazer filmes com pouco dinheiro, cultura com poucos recursos. E realmente é uma área muito precária ainda no nosso país”, desabafa o portuense. 

José Magro acredita que talvez a falta de investimento na cultura não se ultrapasse. “Neste momento aquilo que nós fazemos a mais do que os recursos que temos e fazemos porque sentimos que existe uma urgência em fazer cinema, acreditamos que fazer cinema é da maior importância para nós enquanto, sociedade, enquanto país”, reclama Magro.

Fala deste meio de expressão como uma “arma muito grande para contar o que se passa à nossa volta” e numa urgência em fazer cinema, independentemente das condições. As diversas maneiras como pode ser apresentado, as diferentes perspetivas autorais dadas por cada um e os diferentes discursos usados são para o cineasta ferramentas fundamentais que podem ser usadas para surpreender as pessoas e para questionar consciências. “O que eu gosto, como realizador, é de experimentar a linguagem, ter novas maneiras de fazer cinema e inventar maneiras de contar histórias diferentes. Procuro sempre tentar surpreender-me e às outras pessoas, os meus filmes são completamente diferentes uns dos outros”, confessa.

Este jovem realizador comenta existir ainda um desfasamento de acesso às possibilidades de fazer arte a nível nacional. Os apoios públicos continuam também a ser centralizados, a maior parte das produtoras de cinema e dos espaços de cinema continuam a ser em Lisboa.

“Gosto de acreditar que o norte de Portugal vá ter uma voz um pouco mais forte, mais presente no cinema português, para que essa multiplicidade de vozes se torne ainda mais múltipla e diversa, com discursos diferentes. Sendo Portugal um país tão pequeno, mas com tanta multiplicidade de vozes no mundo da arte, sinto que nem todos os realizadores têm a mesma oportunidade, a começar pela geração de realizadores mais nova. Esta geração não tem o espaço necessário para fazer filmes e para se poder expressar. E também há um certo desequilíbrio em relação à geografia do país que não ajuda à equação”, afirma. 

Magro espera o dia em que “haja reconhecimento por parte da sociedade, das pessoas, do governo e do estado da importância da cultura em Portugal” e espera que as políticas públicas invistam mais no que se faz a nível nacional.

Existe ainda em Portugal o estigma de que é bom é que é feito lá fora está, mas o portuense alerta, que este mudou bastante.  “O público português ainda está afastado do cinema que se faz por cá, mas acho que isto vai tendencialmente acabar. Com os reconhecimentos que vamos tendo a nível internacional, já se vão interessando. Já acontece, talvez de forma não tão expressiva como acontece no estrangeiro”, mas como em todas as obras de arte, é preciso ter paciência, e o cineasta acredita que caminhamos no bom caminho, e que um dia sabemos reconhecer a que é feito dentro das nossas fronteiras. 

O realizador anseia por levar o Porto a um cenário maior, no que diz respeito à produção cinematográfica. Sendo português e portuense faz-lhe todo o sentido mostrar a sua cidade pelos olhos de um local, com a sua vida própria. Fala-nos ainda de um Portugal diversificado, distinto e com “feridas históricas que o fragmentaram geográfica e culturalmente e a necessidade de contar essas histórias vai inevitavelmente aparecer.”

“Acho que em Portugal há muitas questões de identidade e culturalmente fortes que vai criar essa necessidade de se mostrar. Neste momento acredito que Portugal e um espaço muito fértil para a expressão artística e cultural. como artista português sinto que e em Portugal que tenho que estar, onde a minha voz e mais válida, do meu país e especialmente da minha região, da minha cidade”, enfatiza. 

Com apenas 29 anos, este jovem cineasta já conta no seu currículo com os seus dois primeiros filmes de ficção – “José Combustão dos Porcos” e “Viagem” - ganhou dois prémios de melhor filme. As suas curtas-metragens foram selecionadas para festivais de cinema em Portugal, Irlanda, França, Suíça, Finlândia e China. Trabalhou também como diretor de fotografia com os galardoados realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata; foi produtor para documentários de Miguel Gonçalves Mendes e Jorge Pelicano; Argumentista para o realizador moçambicano Sol de Carvalho; e Segundo Assistente de Realização de Manoel De Oliveira. “Letters from Childhood”, realizado em 2018, teve a sua estreia no Festival Internacional de Tampere, na Finlândia. Por coincidência realizou “Rio Entre as Montanhas”, uma curta-metragem de ficção filmada em Hancheng, na China.

“Fui convidado por uma secção paralela de um festival na China para fazer uma espécie de “filme-ensaio” sobre o amor, que foi surgindo naturalmente e foi escrito no local com o Tiago Carvalho e o Miguel da Santa, que são os diretores de fotografia do filme, mas também foram argumentistas.  Foi este o filme que o levou até à Berlinale. 

 

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LIa Coelho
Author: LIa Coelho
Colaboradora
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Lia Coelho, nascida e criada na zona de Coimbra, foi nessa mesma cidade que estudou jornalismo. Jornalista de formação e curiosidade percorreu a ânsia da profissão e trabalhou em vários jornais em Portugal e Macau. 

Entre viagens pela Ásia dedicou-se ao ensino da língua inglesa, mas é em português que melhor se sabe exprimir, que gosta de contar histórias e dizer umas coisas. 

Decidiu regressar à Europa e está há cerca de quarto anos na Alemanha, agora sediada em Berlim. 

Textos deste autor:

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