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"DEPOIS LOGO SE VÊ", Pedro de Tróia

ID:N°/ Texto: 4633
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Não sei como irá ressoar o que vos quero dizer. Provavelmente não importará porque a urgência se torna maior. Mas a verdade é esta: esta colecção de canções reabilitou sem medo uma palavra em desuso, esquecida injustamente nestes tempos difíceis de barricadas e poucas pontes. E essa palavra é candura.

Inocência, ingenuidade: eis o que o dicionário vos oferece. Mas o que o Pedro lembra é que é mais do que isso – é um modo de ver e de sentir e de criar. Para ir ao que interessa: os primeiros sinais dessa estética afectiva surgem logo no primeiro tema, onde se canta, sob uma melodia pop imaculada: «Sempre fui embaraçado/desde o tempo dos dentes de leite/magro, corado, educado/sem ponta que desaproveite». Segue-se o lamento sobre o que esta condição custou ao cantor em termos afectivos. Aparentemente, esta é uma canção que pede uma libertação de algo que irreversivelmente já se é e a sua melancolia doce vem do reconhecimento desse facto.

Está dado o tom para o disco, eis a minha teoria. Reconheço o mesmo pudor por vezes triste e revoltado em temas como Nunca Falo Demais, Dentes de Leão ou Ela Não Vem. E se Pedro de Tróia já nos tinha oferecido ambientes semelhantes nos Capitães da Areia, por exemplo, desconfio que aqui seja diferente. Porque Depois Logo Se Vê, quer-me parecer, é um disco à flor da pele, confessional, a um passo do diarístico. É essa verdade cândida que o perpassa e lhe oferece a sua beleza maior. Claro: há as composições, que como é a marca do autor, bebem muito no legado da música moderna portuguesa dos anos 80. Há as palavras, que Pedro trata bem, carinhosamente mesmo. Mas o que sobressai é este objecto raro e corajoso que não tem medo do desastre delicado da alma que pretende mostrar. Mais: não tem medo que se diga que aquela alma é mesmo a sua.

Não é fácil lidar com sentimentos que são espelhos mas é isso mesmo que este disco faz. E melhor: contamina com ternura e firmeza essa intenção. Eu sei do que falo porque me reconheço. Sempre fui embaraçado mas nunca tive coragem de o reconhecer. Felizmente o Pedro redimiu a candura de um só golpe e posso quase, a partir de agora, enfrentar o mundo e a mim próprio com um olhar mais terno.

Concerto de apresentação dia 13 de Março no Musicbox, em Lisboa.


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