(Lusa) – O projeto de formação musical “Zéthoven – Plante um Músico”, que começou a pensar nas crianças, mas que a realidade levou até aos pais, apresenta-se no sábado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com o concerto “Renascer”.

No concerto, que se realiza no âmbito da mostra “Isto é PARTIS [Práticas Artísticas para a Inclusão Social]”, da Fundação Calouste Gulbenkian, será apresentada a obra “Renascer”, do compositor Luís Cipriano, uma encomenda da autarquia do Fundão “que representasse o renascer da serra [da Gardunha] e o retomar da vida normal” depois dos incêndios do verão de 2017.

A obra foi apresentada pela primeira vez em abril de 2018 na Igreja Matriz do Fundão e em palco na Gulbenkian, contou o compositor à Lusa, estarão as mesmas pessoas, ou seja, “o Coro Misto da Beira Interior e o Coro Infantil da Beira Interior, que é constituído por 40 e tal crianças, que pertencem ao projeto”, acompanhados por cinco percussionistas, dois dos quais a tocarem marimba e vibrafone e os outros três “utensílios típicos da serra da Gardunha: escadas de azeitona, cestos de veiga, trempes em metal, conde se punha as panelas à lareira para cozer”.

O Coro Misto, “um coro amador” constituído por adultos, onde apenas “três pessoas sabem ler música”, também já integra “dez crianças oriundas do projeto”.

“A nós não nos interessa a idade das pessoas, mas aquilo que produzem. Se uma criança de 12 anos, que estava no projeto, produz tanto como um jovem de 18 ou 19 que está no coro, tem o mesmo direito a estar nesse coro”, referiu Luís Cipriano.

As crianças que passam pelo “Zéthoven” são “oriundas das várias zonas rurais da Beira Interior” e para “muitas delas foi a primeira vez que tiveram hipótese de fazer um concerto”.

“Havendo uma ou outra coisa curiosa e também não menos importante. É que muitas das famílias dessas crianças foi a primeira vez que foram a um concerto”, partilhou o presidente da Associação Cultural da Beira Interior.

A associação, que tem sede na Covilhã, distrito de Castelo Branco, e que tem direção artística de Luís Cipriano, especifica que esta obra "foi composta nos seus oito andamentos para percussão e vozes, tendo um acentuado contraste tímbrico com um Coro Misto, um Coro Infantil e um Coro que perpetua a tradição da Encomendação das Almas".

A ideia inicial de Luís Cipriano eram “unicamente as crianças”, mas “isto ultrapassa” aquilo que tinha previsto.

“Com o decorrer dos tempos percebemos que a vontade das crianças, do ponto de vista cultural, nem sempre era respeitada pelos pais. A sociedade contemporânea é tão frágil que o bom aluno é o que tem 5 a matemática e 5 a português, o que tem 5 a música e a educação física possivelmente será um tipo porreiro e não passará disso”, lamentou.

A dada altura, os responsáveis pelo projeto perceberam que tinham “que educar os pais”.

“Hoje temos o projeto muitas vezes direcionado para os encarregados de educação, numa tentativa de eles perceberem aquilo que os filhos são capazes de fazer e dos talentos que os filhos têm. Tivemos que nos adaptar porque sentimos a necessidade de ter de alguma maneira dar mais cultura a alguns pais para que eles próprios não fossem entrave à evolução cultural dos filhos”, referiu.

O “Zéthoven – Plante um Músico” foi um dos 16 projetos de intervenção social pela arte que foram apoiados pela Fundação Calouste Gulbenkian na segunda edição (2016-2018) da iniciativa PARTIS, o que permitiu que o “Zéthoven” chegasse a mais crianças.

O apoio terminou em dezembro do ano passado, mas o projeto “continua através de parcerias com autarquias”.

Embora “arranjar financiamento, a nível de autarquias, não seja muito difícil, receber o financiamento é que é extremamente difícil”.

Para equilibrar as contas entra o Coro Misto da Beira Interior, que “faz imensos concertos, que são pagos”. “E muitas vezes faz concertos para que estas crianças possam ter novamente o projeto no seu dia-a-dia. Portanto o projeto irá continuar, como é lógico”, garantiu o compositor.

Desistir nunca foi uma hipótese, até porque Luís Cipriano não é “pessoa de desistir”.

A percussão será da responsabilidade de Rodrigo Azevedo, André Nabais, Francisco Cipriano, Pedro Tavares e António Machado, sendo o concerto dirigido pelo próprio compositor.

A “Isto é PARTIS”, com entrada gratuita, decorre entre sexta-feira e domingo na Fundação Calouste Gulbenkian, para mostrar “o resultado do trabalho desenvolvido junto de pessoas vulneráveis e em situações de exclusão”.

A programação completa pode ser consultada no ‘site’ da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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