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Tempo





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¨O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.¨

Santo Agostinho

Lamento, mas vou ter que começar com uma má notícia. As nossas vidas ficaram todas mais curtas no passado dia 18 de Novembro. A decisão foi tomada por um grupo poderoso de pessoas desconhecidas do grande público, mas que controla o recurso mais precioso de todos: o tempo. Mas fique descansado que isto não é nenhuma teoria da conspiração. A decisão, se bem que importante, é dificilmente perceptível. 

O que sucedeu foi que o organismo mundial que mantêm os standards de pesos e medidas decidiu eliminar o "segundo intercalar", que é um segundo extra adicionado de vez em quando antes da meia-noite do final do ano. Certamente conhece os anos bissextos, que têm 366 dias em vez dos tradicionais 365. Mas provavelmente desconhece que existem anos que têm um segundo a mais que os outros, adicionado imediatamente antes da meia-noite do dia 31 de Dezembro. Dito de outra forma, em alguns anos a contagem decrescente na noite de São Silvestre é um segundo mais longa do que noutros. 

Mas porque é que existe o segundo intercalar ? Porque medir o tempo é uma coisa muito complicada. Hoje em dia, a hora actual é determinada com base em relógios atómicos. Em vez de um pêndulo mecânico ou de uma mola, estes relógios contam as vibrações dos átomos de césio. Após um certo número de vibrações, passou um segundo. A vantagem deste tipo de relógios é que são extremamente precisos, ao contrário dos mecânicos que tendem a ficar desregulados com o tempo. É possível construir relógios mecânicos bastante precisos, e até temos um exemplo aqui na Bélgica, a torre Zimmer em Lier que vale bem uma visita. Mas os relógios mecânicos, por muito bons que sejam, não são concorrência para a precisão dos modelos atómicos. 

Mas se temos relógios extremamente precisos, porque é que precisamos de segundos intercalares e anos bissextos? Porque a nossa noção de tempo está intimamente ligada à rotação da Terra sobre si mesma, e à volta do sol. E ao contrário dos relógios atómicos, a Terra não se move de forma precisa. Alguns dias gira mais depressa, noutros mais devagar. Idem para as voltas em torno do Sol. Nós sabemos isto porque os relógios atómicos são tão precisos que se consegue medir a imprecisão da Terra. E aqui está o sarilho: temos uma forma incrivelmente precisa de medir o tempo, mas a Terra insiste em fazer o que lhe dá na real gana. Sem os anos bissextos, a diferença entre o dia do ano e a posição à volta da Terra deixaria de fazer sentido. Eventualmente teríamos o Verão em Janeiro e o Inverno em Agosto. E sem os segundos intercalares, o meio-dia deixaria de corresponder ao momento do dia em que o Sol está no seu pico. Como bem intuiu Santo Agostinho já lá vão mais de 1600 anos, o tempo é difícil de definir

Este tipo de problemas são bastante recentes, porque até ao início do século dezanove as pessoas viviam de acordo com os ritmos da Terra. O círculo de Stonehenge pode parecer tosco e arcaico quando comparado com um moderno relógio de quartzo, mas não tem que lidar nem com segundos nem com dias extra. O ano começa quando o Sol nasce por detrás de uma determinada janela, acaba quando se põe atrás de outra. Simples e eficaz, nem é preciso dar corda para funcionar. 

De certa forma, existem dois motivos por detrás destes trabalhos em manter a hora acertada. O primeiro é a profunda mudança na forma de vida das pessoas. Se num passado não tão distante quanto isso, uma vida rural era o mais comum hoje mais de metade das pessoas vivem em cidades. E prevê-se que em 2050, sete em cada dez pessoas vão viver nas cidades. Neste tipo de ambientes, viver de acordo com os ritmos da natureza é algo impossível. Os transportes públicos têm horários para cumprir, as lojas e os mercados idem. E outro motivo é a crescente dependência de uma enorme rede de computadores para manter a sociedade em funcionamento. Esta rede exige um relógio bastante preciso, caso contrário deixa de funcionar. Um exemplo bastante recente foi o site das finanças português ter estado inacessível. Um documento de segurança expirou, e todos os outros computadores recusaram ligar-se ao site. Sem um relógio preciso, este tipo de comportamento seria ainda mais caótico, com alguns computadores a funcionarem e outros não. 

Antigamente era tudo mais simples, não?  Evitemos a tentação de romantizar o passado. É certo que as tribos à volta de Stonehenge não tinham que se preocupar com a física por detrás dos segundos intercalares, nem chatices com a mudança de hora no Inverno. Mas também não tinham que se preocupar com filas de espera nos hospitais nem com reservar mesas para almoçar no restaurante da moda. Nem se preocupavam com a idade da reforma, porque tipicamente aos trinta já estavam debaixo da terra. O tempo era curto na altura, hoje temos de sobra para gastarmos com estes pormenores.

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Nelson Gonçalves
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