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Na procura fundamental do equilíbrio entre arquitetura, natureza e humanidade

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As atividades do ser humano têm impacto em mais de três quartos da superfície terrestre, concluem os ecologistas. Mesmo em lugares onde não existe atuação humana direta, a nossa pegada ecológica influencia negativamente a biosfera, na forma como se estruturam os mais variados sistemas, provocando desequilíbrios a uma escala global. Esta condição ambiental agravar-se-á se não existir soluções que procurem um estado de (re)equilíbrio entre a salubridade do meio e as necessidades humanas.  

Como arquiteta consigo testemunhar, no meu dia a dia, a manipulação direta da natureza pelo Homem, com o objetivo de desenhar espaços humanizados que respondem às necessidades e ao bem-estar comum. Porém, o sentido transformador da arquitetura é repetidamente realizado sem preocupação pela preservação e sustentabilidade ambiental. O mundo natural torna-se, por sua vez, cada vez mais raro e pobre.

A causa da disfunção ambiental não pode ser apontada unidireccionalmente às empresas associadas a um maior impacto, como as petrolíferas, as da área da agropecuária e da construção ou empresas de refinaria e transporte.

De igual modo, a restauração do equilíbrio da natureza não cabe apenas aos ambientalistas, ecologistas, ativistas ou governos. Qualquer pessoa que encontre neste tema um motivo de desassossego, tem oportunidade para repensar e rebater ideias que já não cabem no desequilíbrio ambiental dos nossos dias.

Desta forma, e voltando à minha área profissional, partilharei dois pontos pelos quais, na resposta fundamental à garantia da comodidade do homem, grande parte da arquitetura contemporânea deveria ser mais resiliente. 

O lado ecológico

No futuro, assim como acontece no presente e como aconteceu no passado, o nosso bem-estar irá depender do estado do planeta Terra.

A procura pela conciliação entre a arquitetura e o meio ambiente tem encontrado resposta em alguns conceitos como o “green architecture”, a certificação “LEED”, o “net-zero building”, assim como outras estratégias positivas.

No entanto, estes conceitos revelam-se ainda insuficientes para abaterem o impacto ambiental da construção. Podemos encontrar soluções para que um edifício seja mais eficiente energeticamente, que evite o desperdício de água, que a sua construção seja menos poluente, que permita grandes áreas verdes ou que respeite a paisagem, por exemplo. Mas os projetos ainda não são capazes de integrar todos estes princípios, sendo que as soluções sustentáveis, na sua maioria, respondem especificamente a apenas uma ou duas destas considerações.

A partir das limitações que existem será possível avançar rumo a novas soluções. Nada é estanque e a própria verdade é um fenómeno temporal. Existe um tempo e um espaço aos quais a arquitetura tem o desafio de responder.

Na tentativa de recuperar o estado de homeostase do planeta terra, para além de ser necessária a nossa intervenção em alguns sistemas, de forma a recuperá-los, também será necessária, em certos casos, a nossa inação, pois, enquanto corpo celeste, o planeta Terra terá, ainda, a capacidade para recuperar o seu equilíbrio interno e regenerar os seus sistemas. No fundo, é necessário permitir à natureza exercer o seu poder de manutenção de toda a vida existente, que é interdependente. Aliando a criatividade com a inteligência, será possível desenhar um futuro para a humanidade e reaprender a integrar as nossas soluções como parte integrante da natureza.

O lado humano

O conceito de natureza tem-se afastado cada vez mais do Homem. A nossa relação com a natureza, ao longo da evolução, teve várias fases: desde o receio e o desprezo, ao prazer ilusório de a controlarmos, extraindo de forma ilimitada os seus recursos. Pensamos na natureza de variadas formas, mas com que frequência pensamos na natureza do Homem? Será que nos sabemos incluir na natureza?

Em prol de uma arquitetura que tenta ser mais “verde”, têm sido construídos jardins, parques e corredores para a vida selvagem. Esta cor representa simbolicamente a aproximação com a natureza (apesar de ser também humanizada), sendo que nas cidades a sua presença é ainda mais importante, conferindo-nos uma saciação dos sentidos e, por sua vez, um conforto psicológico.

Esta cor desafoga-nos o impacto que o mundo construído tem nos nossos dias e no nosso psicológico, não acontecendo, portanto, apenas exteriormente a nós.

Será a capacidade de nos (re)identificarmos como parte da natureza, que tornará claro o sentido da humanidade ao encontro com o equilíbrio global. A mais pequena manobra humanizada irá procurar ser parte integrante de uma experiência coletiva enriquecedora. O nosso impacto poderá, assim, restabelecer a nossa conexão e reafirmar a nossa cultura, preservar os territórios que nos sustêm e valorizar a natureza e todas as formas de vida que dela surgem, da qual, intrinsecamente, somos parte.

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Ana Sofia Graça
Colunista
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Nascida na ilha da Madeira no ano 1994, tirou o Mestrado em Arquitetura em 2018, na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Após um estágio europeu e experiências de voluntariado, atualmente exerce a sua profissão no Algarve. Nos seus tempos livres procura aprofundar a vertente mais teórica da sua profissão, na possibilidade de encontrar um caminho onde exista maior equilíbrio entre o exercício do seu ofício e o meio que nos sustenta a todos.

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