Neste início de 2026, Portugal encontra-se numa encruzilhada histórica. À medida que nos aproximamos da segunda volta das presidenciais, a pressão para normalizar a extrema-direita é maior do que nunca.
André Ventura apresenta-se agora não como o rebelde do sistema, mas como um "estadista" com amigos poderosos na Europa. No entanto, é precisamente nessa rede de alianças que encontro as razões mais fortes para o meu "não".
Dizem-me que a integração do Chega no grupo Patriotas pela Europa é um "selo de legitimidade". Para mim, é um sinal de alerta. Ver Ventura ser felicitado por Viktor Orbán ou Matteo Salvini não me transmite segurança; transmite-me o receio de que o modelo de "democracia iliberal" — onde se asfixia a justiça e se silencia a imprensa livre — chegue ao Palácio de Belém. A legitimidade que ele ostenta vem de líderes que, nos seus próprios países, têm testado os limites do Estado de Direito.
O argumento de que o Chega evita o "isolamento" de Portugal através desta "linha direta" com figuras como Jordan Bardella ou o VOX é uma ilusão perigosa. O que estes partidos defendem não é uma Europa mais forte, mas uma Europa fragmentada, onde cada um puxa para o seu lado. Num país com a dimensão e a geografia de Portugal, o isolamento real viria de nos afastarmos do núcleo duro da União Europeia para nos tornarmos o "satélite" periférico de um eixo radical que despreza a solidariedade comunitária.
O lema "Portugal Primeiro" soa sedutor em comícios, como vimos recentemente em Mirandela, mas esconde uma armadilha. Quando se usa a palavra "patriota" para excluir concidadãos, para gerir o ódio ou para dividir os portugueses entre "os de bem" e os "outros", o que se está a fazer não é defender a pátria, é feri-la. O verdadeiro patriotismo é inclusivo e respeita as instituições que nos deram décadas de paz e liberdade.
Por fim, preocupa-me a estratégia junto da nossa diáspora. Tentar convencer os nossos emigrantes em França ou na Suíça de que o modelo de Le Pen é o caminho, é esquecer que foram esses mesmos movimentos que, durante décadas, olharam para os portugueses como "estrangeiros indesejados".
Não voto na extrema-direita porque acredito que o futuro de Portugal não se constrói com o "músculo político" de quem admira autocratas. A nossa força sempre esteve na moderação, no diálogo e na capacidade de ser uma ponte no mundo — e não um muro. Em 2026, prefiro a liberdade da democracia plena ao silêncio ensurdecedor do populismo.

