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Estátua de D. Afonso Henriques com espada e escudo em frente ao castelo de Guimarães, simbolizando o início da independência de Portugal.
Foto: DR - Ilustração


Nove séculos nos separam daquela manhã poeirenta em Guimarães, mas o eco das espadas de S. Mamede ainda ressoa em cada decisão que tomamos como povo. Mais do que um episódio gravado no granito do tempo, aquela batalha foi o parto de uma vontade coletiva: a de não sermos de outros para podermos ser, plenamente, de nós mesmos. Celebrar estes 900 anos não é apenas folhear o passado, mas reconhecer que a independência conquistada naquele campo permanece o nosso bem mais precioso — o alicerce invisível que nos permite, ainda hoje, falar a nossa língua, decidir o nosso destino e caminhar pelo mundo com o nome de Portugal no peito. 

Este orgulho que hoje sentimos não é um patriotismo vazio, mas a herança de uma coragem que desafiou o impossível. Ao olharmos para trás, vemos em S. Mamede o momento exato em que deixámos de ser uma intenção (animus) para nos tornarmos uma afirmação (corpus); a transição de um condado para a audácia de um reino e mais tarde de uma nação. Pertencer a este legado de nove séculos é carregar a honra de quem, contra ventos e marés, soube proteger a sua casa e a sua identidade. É este orgulho, enraizado na determinação de Afonso Henriques e daqueles que o seguiram, que nos define: um povo pequeno em território, mas gigante na convicção de que a sua soberania é o seu maior tesouro, um brasão que ostentamos com a dignidade de quem sabe de onde veio e o que custou chegar aqui. 

Este legado, contudo, não é um troféu estático para ser guardado numa vitrine de museu; é uma chama viva que exige ser alimentada. A responsabilidade de manter S. Mamede "vivo" recai agora sobre as gerações que hão de vir, a quem cabe a missão de entender que a independência não é um dado adquirido, mas uma conquista diária. Cabe aos jovens de hoje, e aos de amanhã, honrar o sacrifício daqueles que, há nove séculos, escolheram a liberdade, garantindo que o nome de Portugal continue a ser escrito com autonomia e brio. Ser herdeiro desta história é aceitar o compromisso de nunca deixar que a nossa identidade se desvaneça na indiferença, protegendo a soberania e a cultura que nos tornam únicos, para que, daqui a outros novecentos anos, o eco de Guimarães continue a ser o coração de um povo livre.

Curiosamente, a primeira vez que o país parou para comemorar oficialmente este aniversário foi apenas em 1940, durante o Estado Novo. Sob a égide das Comemorações dos Centenários, o regime de Salazar utilizou a data como uma poderosa ferramenta de propaganda política, moldando a narrativa histórica para legitimar o seu próprio projeto de nação. No entanto, esta celebração "dos 800 anos" ocorreu com um erro cronológico deliberado: ao fixar a fundação em 1140 para coincidir com o terceiro centenário da Restauração da Independência (1640), o regime forçou uma data que não correspondia ao rigor dos factos de 1128. Foi uma instrumentalização da memória, onde a conveniência ideológica se sobrepôs à verdade histórica, lembrando-nos de que, embora o orgulho seja legítimo, ele deve estar sempre ancorado na realidade dos eventos que nos deram nome.

Para concluir esta reflexão, importa que as comemorações dos 900 anos de S. Mamede não se esgotem no olhar para dentro, mas que se projetem no mundo. Se a "Exposição do Mundo Português" de 1940, apesar dos seus contornos ideológicos, soube criar um palco de afirmação nacional, o desafio atual passa por replicar essa escala através de uma celebração vibrante da lusofonia. É o momento de transformar este marco histórico num evento que transcenda fronteiras, onde a cultura, a língua e o património partilhados entre as nações que falam português sejam os grandes protagonistas. Celebrar os nove séculos da nossa génese deve ser, acima de tudo, um convite para que o mundo lusófono se reencontre em Guimarães, reafirmando que a independência conquistada no passado é hoje a base de uma fraternidade moderna, aberta e universal. Afinal, a nossa história começou em Guimarães, mas o nosso destino é o mundo.

Por: Florentino Cardoso


 



 

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