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«Tentar definir a minha avó é o mesmo que tentar definir poesia ou o amor».





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Maria Gomes Gonçalves, assim se chamava a minha avó materna. Morava no lugar da Póvoa, mas foi registada em S. Paio de Merelim. O lugarejo onde morava revestia-se de campos verdes com algumas casas tipicamente aldeãs. Coloriam a paisagem com pinceladas atléticas.

A minha bisavó era feirante, vendia de tudo um pouco na feira, desde cuecas, meias, ganchos a redes do cabelo. Tinha o cabelo aloirado, olhos claros, uma pele muito sardenta que lhe dava um ar doce e ao mesmo tempo maroto. Tinha jeito para o ofício. Sustentava a família. O meu bisavô não gostava de feiras e resolveram inverter os papéis.

O meu bisavô tratava da labuta doméstica, cozinhava, limpava, arrumava e cuidava dos filhos, a minha bisavó ia para a feira todo o dia.

A minha avó era a única rapariga. Tinha cinco irmãos. Um dos irmãos, o meu tio avô, Padre João Gomes Gonçalves recebeu o presbiterado em 1952 e licenciou-se em Direito Canónico na Universidade Gregoriana de Roma, em 1958. Deu aulas no Instituto Missionário do Espírito Santo, em Fraião, Braga. A sua atividade foi quase exclusivamente dedicada ao ensino na Metrópole e no Ultramar, onde trabalhou no Liceu de Nova Lisboa. Embora tivesse ensinado História durante quatro anos e Inglês durante oito, as suas preferências foram para Clássicas e Românicas, ensinando literatura durante muitos anos.  A sua estreia literária foi em 1971 com o ensaio «Cartas de Ternura, Pilhéria e Saudade», no ano seguinte editava o seu primeiro romance sobre a crise religiosa: «O Verde e o Vermelho», mas foi a obra «Pingos de Sangue no Caminho» que o consagrou como escritor de fôlego.

A minha avó tinha vinte e um anos quando conheceu a pessoa com quem casou. Conheceu-o numa romaria. A romaria é uma festa religiosa propícia a encontros e convívios, onde se preveem sorrisos travessos e olhares cúmplices. Um passo não muito distante do primeiro beijo, da confirmação do namoro, rematando com a consumação do casamento.

Namoraram durante dois anos. Namoravam à janela, ou quando saíam, tinham de estar em casa à hora de recolher as galinhas.

As vozes cálidas embatem nos corredores pálidos e frios. As celas são como o inverno sem dia. Não são ocupadas por homens que cometeram delitos. Naquela multidão de gente, também havia crianças pequenas e grandes, mulheres, grávidas e adolescentes. Fizeram uma longa viagem e instalaram-se no único hotel disponível na cidade, o único com capacidade para albergar tanta gente, a cadeia civil. Naquele tempo literalmente abandonada.

Regresso ao ano de 1977. Nasci em 1970. Tenho sete anos e frequento o segundo ano do primeiro ciclo. Vindos de África, os chamados retornados ou desalojados foram instalados em dois alojamentos no Concelho de Braga. O Seminário de Santiago e a Cadeia Civil de Braga.

Sou a neta mais velha. Fui criada praticamente pela minha avó e pelas minhas tias. Tinha o cabelo longo de um castanho alaranjado e uma barriga colossal. A minha mãe comprava cintas na praça para disfarçar a minha saliência balofa.

Frequentava um colégio de freiras. Percorria o caminho, umas vezes de autocarro, outras vezes a pé, do colégio a casa da avó. Descia a rua talhada de pedras de calcário. Quando os dias eram azuis e sulcados de sol, descia a rua aos saltos em prenúncio de voo.

Eu não sabia quem eram aquelas pessoas. Nas conversas entre os adultos e nas suas vozes sussurradas, apercebi-me de que eram refugiados. Essa palavra ficou a cogitar durante dias na minha cabeça. Na altura, com apenas sete anos de idade, pouco me importava saber de onde tinham vindo aquelas pessoas. Só mais tarde soube que vieram de Moçambique e Angola, maioritariamente.

Na realidade, sentia que aquelas pessoas precisavam urgentemente de ajuda. Não importava o passado, o porquê de estarem a ali, mas sim a urgência do momento. Andava de cela em cela. De mãos dadas com a avó, seguia toda aquela agitação com os olhos pulverizados. Algumas mulheres passavam a ferro, outras na sua impudência e de tetas ao léu, davam de mamar aos seus sequiosos rebentos.

Observava tudo aquilo em silêncio. Não proferia uma única palavra. Era tão sagrado como estar num lugar de culto.

A avó era um anjo. Poderia ficar aqui a descrevê-la página a página, cada detalhe do seu rosto, das suas expressões e rugas. Da sua voz meiga, dos seus sonhos e alucinações, do amontoado de papéis onde escrevia as mensagens, os sonhos, as vozes que ouvia. Escrevia para se lembrar de tudo ao mais ínfimo pormenor, para embalar o seu desassossego. Escrevia nessa sofreguidão entre os dedos e as palavras. Poderia descrever tudo isso e muito mais, mas a descrição seria sempre incompleta.

Tentar definir a minha avó é o mesmo que tentar definir poesia ou o amor. Seria sempre uma definição incompleta.

O seu corpo suportava o sofrimento do passado. Um corpo que resistiu às mãos de um homem cruel, cujas feridas demoraram a cicatrizar.

Os seus cabelos eram acastanhados pelo outono. O rosto era pesaroso e o seu olhar nitidamente triste. O inverno percorria o seu corpo durante todo o ano, mas os seus lábios permitiam-lhe sorrir com a chegada da primavera.

Envolta em tecidos, o barulho da máquina de costura era incessável. Costurava num ápice, com sentimento de sobrevivência. Costurava cuecas. Ter cuecas naquele tempo era um luxo!

 As lágrimas cruzavam-se com as linhas, assim costurava a vida, sem nunca ter desistido dela.

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Silvia Mota Lopes Costa
Author: Silvia Mota Lopes CostaEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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