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Sempre chegamos aonde nos esperam



A minha mãe conta que estava preocupada com o meu primeiro dia de escola, com medo de que eu não me adaptasse. Quando me foi deixar ao colégio da Apresentação de Maria, acompanhou-me durante algum tempo para ver a minha reação. Eis que eu me viro para ela e digo: "Mãe, podes ir embora. A escola é para os filhos, não para os pais!” Lá saiu ela consternada com os olhos marejados e com o coração apertado.

Fui uma criança livre e só entrei para a escola aos cinco anos. Embora tenha perdido o 7.º ano num colégio católico e demasiado rígido para o meu espírito livre e questionador, sempre gostei do ambiente escolar. Os três meses de férias que agora invejo, sempre me pareceram demasiado longos e ficava a ansiar pelo próximo ano letivo, para ir buscar os livros novos. Gostava de os cheirar, manusear e imaginar os novos conteúdos que ia aprender.

Quando perdi o ano, no colégio, os meus pais colocaram-me numa escola pública – a Levada, que na altura não tinha boa “fama”. No final de contas foi o melhor que me aconteceu e só agora agradeço aos meus pais por isso. Sai daquele espartilho, daquela bolha e deparei-me com o mundo real numa só sala de aula. Foi onde descobri o gosto pela aprendizagem. Foi onde aprendi que somos todos iguais, embora diferentes.

Até então gostava da escola pelos amigos, pelo convívio. Pela dinâmica. Mas não tinha o gosto pelos livros. Pensava eu. Embora tivesse crescido num quarto cor de rosa a devorar literatura, foi na escola pública, naquele universo tão diferente, no meio daquela liberdade, que descobri quem era. Não tinha as minhas amigas de sempre e que tal como eu cresceram naquela bolha. Deparei-me, com medo, com aquele ambiente novo. Inóspito. Contudo, como sempre tive talento para a amizade, criei logo os meus amigos, que até eram pessoas com irmãos velhos e com uma escolta que eu não tinha.

Deparei-me logo no primeiro dia de aulas com o professor Agostinho Soares. Lecionava Português. Sempre foi a minha disciplina de eleição. Mas na altura não percebia a minha predisposição para as palavras. Estava ainda tudo muito nublado e turvo e afinal de contas eu não era boa aluna. Tinha perdido o ano! Ainda assim, no primeiro tempo, no meu 7.º ano, numa escola nova, levei com um professor que falava sobre a visão do diabo. Uma história que agora percebo. Este docente não era programado como os outros, não seguia o guião, mas ensinava sobre a vida. Essas aprendizagens que não vêm nos manuais. Mostrava-nos autores que não constavam no programa como o José Tolentino Mendonça ou Herberto Hélder e realçava sempre a importância de lermos bons livros.

Eu já com o meu espírito curioso não conseguia bem entender aquele professor que nos obrigava a ter um diário e apresentar os textos regularmente à turma e que nos ralhava quando escolhíamos ler livros de fácil digestão.

Ele dizia que eu tinha um talento inato para defender os colegas, pois nunca consegui conviver com injustiças. Devia seguir o curso de Direito, repetia-me vezes sem conta. Chamava-me a advogada da turma. Dizia-me muitas coisas na verdade que ecoam até hoje na minha alma. Anos mais tarde percebi que ele foi o meu grande mestre, a par de outros professores, como o meu professor Valentim, já no secundário! Estes educadores fizeram-me aprofundar o meu amor pelas letras.

A par de muitos jovens eu julgava estar perdida. Mas sempre soube que ia seguir uma carreira nas “letras”, talvez em Direito ou em Psicologia. Foi apenas no 11.º ano que decidi seguir Jornalismo. Foi naquela escola, com aqueles mestres, que eu percebi que estava tudo bem em estar perdida. Que o mundo me ia sorrir, porque eu sorria de volta. Porque tinha noção já na altura do quão privilegiada era, por poder ter acesso à escola. E a verdade é que embora tivesse muita liberdade, nunca faltei a uma aula. Sempre me sentei na fila da frente e parecia que ouvia a minha mãe, com uma voz doce a dizer-me: “os livros são o teu futuro! Agarra-te a eles!”.

Sempre me senti livre para sair à noite, para passar as tardes em cafés com os amigos, sem o controlo dos meus pais. Mas sempre escolhi a escola. Sempre escolhi os professores. Tive o meu grande amigo João Luís Aguiar, professor de Filosofia, que nos “obrigava” a ler o Expresso. E aí, com o caderno cultural que devorava aos domingos, percebi o meu caminho. Entendi que sempre seria o das palavras! Tive a sorte de ter grandes professores que me foram guiando na minha curiosidade e no meu espírito.

Se pudesse dar um conselho aos mais jovens, diria para nunca perderem a capacidade de sonhar e que somos sempre livres para seguir o nosso caminho. E como diz Saramago: sempre chegamos aonde nos esperam.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Cláudia Caires Sousa
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