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Parado no tempo





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4 Minutos de leitura

Naquela manhã acordei como de costume para ir trabalhar, num tempo ditado pelo despertador do telemóvel.

Uns dias ficava um pouco mais na cama, outros tentava ganhar tempo enquanto me espreguiçava, mas geralmente, passados os 5 minutos de tolerância por mim concedidos a mim mesmo, levantava-me. A gata que deambulava pela casa àquela hora da madrugada, geralmente estava sempre de olhar fixo em mim, como que paralisada, à espera que eu me levantasse para ir verificar se o seu prato de comida estava cheio. Era uma espécie de ritual, mesmo que o prato de ração seca estivesse a abarrotar. Bastava agitar o prato de ração e produzir algum ruído, para que tal movimento fosse aceite como uma renovação da comida.

Depois daquele procedimento, dirigi-me à cozinha para beber um copo de água, como habitualmente. Como já haviam passado alguns minutos e o relógio da cozinha estava mesmo em frente ao meu nariz, consultei as horas para verificar quanto tempo havia passado.

O relógio da cozinha marcava rigorosamente 11h39min ou 23h30min, porque se trata de relógio de ponteiros que apenas tem as 12 horas em numeração árabe.

O relógio havia parado no tempo.

Como que por encanto, depois de olhar para o relógio, eu mesmo entrei num estado dormente sem conseguir mover-me, nem sequer mexer as pálpebras. Fiquei quedo ali mesmo a olhar para o relógio. O meu organismo cristalizou e nem sequer as necessidades fisiológicas me obrigaram a mover um só milímetro.

Curiosamente o meu pensamento corria a grande velocidade. Questionava-me o que teria acontecido. Também conseguia ouvir e percebi que o relógio havia parado no tempo, mas fazia aquele barulho de impasse. A cada segundo dava um impulso que, contudo, não era suficiente para fazer avançar o tempo nem o ponteiros do relógio.

De súbito imaginei se o mundo tivesse parado no tempo, tal como uma paragem de um jogo de futebol. Está toda a gente lá a assistir, mas o jogo fica suspenso por uma fração de tempo.

Talvez os meus filhos não se pudessem levantar naquela manhã. Provavelmente os gatos teriam ficado estáticos, depois de eu ter visto o tempo naquele estado de inércia.

Provavelmente eu não iria envelhecer, como tantas vezes sonhei, contudo não poderia desfrutar da vida, porque eu estava ali, quedo e fixo.

Quantas vezes vivi momentos fantásticos em que desejei que se prolongassem para sempre. Ou desejei que fossem congelados para sempre.

Bem, depois de ter ficado ali parado, a ideia talvez não fosse assim tão agradável.

Primeiro porque eu estava em pé, em pijama e a arrefecer.

O meu olhar fixo para o relógio dizia-me que não havia novidades.

Ora o relógio não avançava sequer um segundo e eu não podia mover-me.

E se o mundo tivesse mesmo parado de igual forma?

Deixaria de haver fome, nem pobreza, nem riqueza, nem frio nem calor, nada mudaria.

Ficaria madrugada para sempre.

Deixaria de haver Natal nem Ano Novo. A guerra que corre contra a Ucrânia seria definitivamente congelada.

Deixaria de haver poluição, porque as fábricas, os carros e outros agentes poluentes, haviam entrado num estado de inércia.

Aquele momento de paragem no tempo, assemelha-se de alguma forma aos 5 minutos de meditação.

Meditar é parar no tempo e viajar com a mente para destinos que propiciam bem-estar, contudo sem sair do sítio nem mexer um só dedo.

A única diferença é que a respiração funciona. Inspira calmamente, suspende e expira lentamente.

Essa era a diferença entre a meditação e aquele momento de congelação total.

Mesmo que eu quisesse desviar o olhar, não podia e esperava com todas as minhas forças da mente - que os músculos dos braços e pernas estavam paralisados - que a pilha do relógio encontrasse a energia necessária para fazer mover o ponteiro dos segundos.

Talvez bastasse um segundo apenas para que se quebrasse o gelo da dormência.

Entre um pensamento de desânimo e outro pensamento de esperança, o ponteiro dos segundos moveu-se, produzindo um som de esforço adicional, como se tivesse arrastado com sucesso.

De súbito pude mexer os olhos, as mãos, os braços e as pernas.

De imediato fui aliviar as águas. Nunca me soube tão bem.

Nunca havia sequer imaginado o que era parar no tempo.

Sem perder tempo, fui buscar uma pilha nova para substituir a pilha cansada e gasta do relógio.

Acertei as horas e segui a minha vida!

Vamos viver a vida

Luso.eu - Jornal das comunidades
Joao Pires
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