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sábado, 10 abril 2021

O Jóquer perdido



Interessei-me, em tempos, pela pintura de Magritte, que no mestrado cheguei a estudar. Não significa que não tenha continuado a apreciar a sua obra, mas a situação actual chama-me particularmente a atenção para uma pintura que na altura foi objecto de demorada meditação e hoje volta a apelar para o meu olhar, a juntar ao facto de se tratar de um pintor belga. Embora toque, também, outras estéticas afins, é no surrealismo que mais facilmente podemos situá-lo e as suas obras são aquilo que tem sido designado como paradoxos visuais.

Em 1926, catorze anos depois do suicídio da mãe, por afogamento, cria a sua primeira pintura surrealista, “O Jóquei perdido”, e foi esta obra que atraiu a minha atenção para o presente. Quer acompanhar-me? Observe…

O contexto é teatral e o palco pode ser olhado à maneira do teatro, como se o observador se encontrasse na plateia. Digo na plateia, porque sendo possível ver uma parte do chão do palco, a visão é de baixo para cima, como reparará.

Assim se apresenta a primeira ambiguidade, a de um observador de pintura ao mesmo tempo espectador de um espectáculo  que aguarda, olhando um palco por sua vez escondido por um pano com uma cena pintada que não deixa ver um possível cenário.

O chão do palco parece ser de madeira, apresentando-se esta numa única peça (aí residindo alguma inverosimilhança em relação ao real), ao contrário do chão virtual pintado no pano onde a superfície do solo aparece traçada por figuras geométricas de base triangular. Como poderemos ver, este pano, enquanto produto híbrido, prolonga a ambiguidade assim se distanciando duplamente do real: é uma cena de convenção, pelo facto de se tratar de um ambiente teatral, e essa mesma convenção é reforçada pela inverosimilhança  trazida pela coexistência de um pano de boca à francesa (o que corre na vertical e contém a cena do jóquei) com o pano à grega (lateral). A régia e os reguladores não existem, sendo substituídos por este inverosímil duplo pano a reforçar a convencionalidade e a “inverdade”.

O pano de boca à grega é pintado de forma canónica, quase ingénua, nada de surpreendente se passando à nossa esquerda. O mesmo não acontece do lado oposto, onde os ramos das “árvores”, supostamente pertencendo ao universo pictórico do pano de boca à francesa, são em parte pintados sobre o pano de boca à grega, assim misturando dois “fingimentos”, à maneira de uma colagem que se sobrepõe (impõe?) à pintura.

Esta exibição (paradoxalmente bem teatral) de um dos objectos de ocultação dramática, pela sua sobreposição no outro, é reforçada pela cor e pela tonalidade dos ramos que retomam o tom do pano de boca à grega, quase se confundindo os dois tons, mas não tanto que não permitam perceber que um é surpreendentemente pintado sobre o outro.

Esta constatação tornar-se-á tanto mais significativa se observarmos que esta cor carregada se limita, no desenho, ao pano de boca e aos ramos das árvores. Todos os outros traços, embora dentro do mesmo tom, se distinguem por uma maior leveza da tinta.

Nesta relação entre o que se passa à esquerda e à direita temos a primeira assimetria numa imagem que no mundo real (se assim se pode chamar ao universo que está antes do teatro, aquela antecâmara do acto dramático) se apresenta como simétrica. A assimetria não se circunscreve a este aspecto, e não podendo eu fazê-lo aqui porque tornaria o texto de uma extensão inapropriada para este “media”, desafio o leitor a prolongar este olhar até aos outros detalhes da pintura.

Acrescento apenas, quase a terminar, que o processo que se acaba de descrever contribui para a redução da profundidade (e por isso, da distância) já que o espaço profundo do real se relativiza aqui pela sobreposição dos dois planos ao nível da tela, assim se conciliando, pela reunião, o próximo e o longínquo, ideia não estranha ao cubismo.

Com a pandemia e a proliferação de espaços privados (quartos, salas , jardins, varandas, cozinhas…) em que aquele que observa tanto pode fazer parte de um grupo restrito, como é o caso das aulas ou das conferências com acesso reservado, como de um grupo amplo ao nível nacional ou mesmo global, também o observador está numa posição em que a visão é ambígua, porque supostamente seria neutra e no entanto, ainda que aquele que se mostra assuma uma certa naturalidade, a maior parte das vezes não o é verdadeiramente, dada a impossibilidade de ignorar que se está a ser observado. Também aqui se procura reduzir a profundidade. O mais certo é estarmos perante a encenação do natural. Por outro lado, já antes se sabia que muitas vezes os locutores e apresentadores, quando sentados, podiam estar como que “partidos” em dois: roupa “para mostrar” da cintura para cima, roupa de uso comum da cintura para baixo. Como a parte do palco que se oculta, sendo que o visível se sobrepõe ao invisível. Poderíamos continuar, mas já vai extenso o texto. Talvez aqui regressemos. Mas volto a convidá-lo, leitor, a continuar a olhar este “jóquer perdido” com olhar profundo, e algumas surpresas poderão revelar-se ao seu olhar.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Risoleta C. Pinto Pedro
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