domingo, 27 novembro 2022

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Desliguei a internet





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6 minutos de leitura

Desliguei a internet lá em casa, pois os meus filhos estão totalmente alienados a olhar de cabeça baixa, para o ecrã do telemóvel.

Este texto foi escrito com a internet ligada, mas resisti à tentação de interromper para ler as mensagens sempre que o telemóvel apitava.

Desligo a internet à hora do jantar, mas eles sentem-se ansiosos para poder voltar à rede.

Desligo a internet à hora de ir dormir, mas eles levantam-se e voltar a ligar o router. Eu abandono o livro em cima da cama, levanto-me e arranco o alimentador do router e coloco-o na mesinha de cabeceira.

No entanto, é uma tarefa desgastante, repetitiva, árdua e por vezes esqueço-me de a desligar.

Por vezes sinto-me um ditador, que só à força é que consegue - e mal - atingir os seus objectivos. Sinto-me como a China que criou a sua própria rede de internet, como a Rússia que desde o inicio da invasão sobre a Ucrânia quer desligar da internet do mundo e ligar RuNet, a internet interna ou até mais recentemente, o Irão que já desligou a internet em algumas áreas de Teerão e no Curdistão, na sequência dos protestos pela morte da jovem Mahsa Amini.

Eu mesmo forço-me a desligar a internet temporariamente, para ler um livro ou para escrever. Já percebi que é humanamente impossível conjugar qualquer tarefa com a internet. Pelo menos, o desempenho de qualquer tarefa se torna mais lento se a internet estiver ligada.

Eu mesmo reconheço que estou viciado na internet e por isso mesmo desenvolvi estratégias para não me isolar do mundo real.

À noite deixo o telemóvel a carregar fora do quarto de dormir. Naquele momento de pausa, sinto que posso realmente descansar porque não tenho que olhar compulsivamente para o ecrã.

Os programadores de conteúdos e jogos online, sabem exatamente como funciona o cérebro humano e sabem como nos manter ligados dia e noite.

Por outro lado, os bots (robot da internet concebido para simular acções humanas repetidas e padronizadas) estão a estudar os nossos comportamentos para desempenhar funções substituindo os humanos, por exemplo num atendimento telefónico.

Nós humanos, através do nosso comportamento perante a internet, estamos a ensinar aos bots quem somos. Por vezes somos surpreendidos pela internet acerca daquilo em que estamos a pensar. Talvez saibam mais sobre nós que a nossa própria família, amigos, cônjuges ou nós mesmos! No futuro, os bots podem vir lembrar quem somos nós, e tudo o que já fizemos no passado. Parece ser interessante e útil, mas também pode ser preocupante.

Os programadores, os bots e a internet em geral sabem o que nos faz deslizar o dedo e clicar no ecrã uma vez e outra e ainda outra sem fim à vista.

Faço-o de forma inconsciente. Muitas das vezes sinto que estou a perder tempo, que não aprendo nada, mas volto a tocar no ecrã do telemóvel uma vez e outra. Porquê? Porque é que a vida tem de ser assim?

Quando tomo consciência, então caio na realidade, desligo a internet e vou fazer outras coisas. Há mesmo vida fora da internet.

Não é a internet que é um problema. O telefone fixo foi viciante no passado. A televisão apenas com dois canais foi viciante no seu tempo. A Netflix também é viciante e depende da internet.

A realidade é que os alunos não estudam ou estudam com maior custo com a internet na palma da sua mão.

Os trabalhadores trabalham penosamente e em ritmo lento com o telemóvel ligado à internet.

O que fazer?

Os momentos em que me sinto mais livre é fora da zona de WiFi, longe da internet.

Assim, nos transportes púbicos aprecio os passageiros de cabeça baixa a olhar para o telemóvel ou aproveito para terminar a leitura do livro que estou a ler.

Com a internet ligada, há pouco tempo para estar presencialmente com os amigos, porque eles já estão presentes online. Isso parece ser suficiente. Há pouco tempo para amar, porque já vejo cenas de amor no telemóvel.

Já cheguei a deixar de comer ou deixar de fazer amor para estar na internet. Mas depois de desligar sentia-me ainda mais triste.

Eu sei que os programadores de software e de jogos conhecem os meus interesses e eles desenvolvem aplicações para preencher a minha vida. Desenvolvem aplicações para facilitar a minha vida, mas ao mesmo tempo fazem com que eu deixe de pensar, de decidir. Eles fazem tudo por mim.

Por outro lado, o corpo humano está preparado para lutar ou para fugir perante uma situação de emergência. A maioria dos jogos online é desenhada de acordo com essa característica humana. As emoções negativas de medo e raiva prevalecem sobre as emoções positivas e os programadores sabem disso.

As notícias de violência, desgraça, doenças mortais, a pandemia recente, grandes incêndios, furacões e terramotos ganham destaque face a qualquer notícia positiva. Todos os tipos de conflitos humanos ganham outra dimensão e são largamente explorados na internet.

Na verdade, os conteúdos disponíveis na internet são geralmente gratuitos, mas são financiados por receitas de publicidade ou levam o utilizador para conteúdos pagos.

Portanto a nossa atenção é disputada para impulsionar as receitas dos anúncios na internet. Quem não conhece pessoas que ficaram famosas e ganham dinheiro através dos canais do Youtube? Ou pelo menos dizem ganhar muito dinheiro. Na internet tudo parece fácil de alcançar. Parece ser demasiado fácil ficar rico na internet. E a maioria das pessoas parece acreditar nisso.  

Eu acho que estou a perder capacidades de concentração desde que passei a consumir internet, redes sociais, jogos online e outras distrações virtuais.

Quero recuperar a minha capacidade de raciocínio enquanto é tempo.

 

Escrever, ler um livro, fazer exercício ao ar livre, dar uma caminhada com o cão ou fazer jardinagem são atividades que se tornam mais raras de acontecer.

Mas sempre que regresso ao telemóvel, tenho imensas notificações e perguntam onde é que eu estive, como se eu fosse obrigado a levar o telemóvel comigo para todo o lado.

No outro dia fomos apreciar o pôr-do-sol na praia. Naquela região o sol desaparece na linha do horizonte na água do mar. Tive direito a dois espetáculos. O segundo foi assistir às pessoas que apreciavam o pôr-do-sol, mas através do telemóvel. Queriam registar uma foto ou um pequeno vídeo daquele belo momento. A verdade é que aquela imagem fica esquecida no telemóvel e perderam a oportunidade de se ligarem com a natureza e assistirem ao vivo aquele espetáculo único.

Em 2019 assisti a um espetáculo ao vivo da banda inglesa JAMES. Era estranho ver uma multidão à minha frente, imóvel, a filmar de forma submissa a banda que tocava ao vivo mesmo em frete a eles. O vocalista, Tim Booth, interrompeu a actuação e pediu: “If you come and play, put the cameras away!”

Será que a nossa atenção está a ser destruída pela internet?

A internet veio para ajudar. E ajuda.

No entanto a internet não é o mundo infinito de informação que nos foi prometido.

Por vezes sinto tentado a buscar incessantemente informação ou diversão na internet sem perceber que é mais limitada que eu.

Mas quem manda na vida das pessoas?

Não quero que a internet venha roubar o meu foco. O meu foco na vida, na família, nos amigos e no amor.

Não quero ser usado pela internet.

Quero viver o presente de forma consciente e plena sem a intromissão da internet.

Quero aproveitar a vida ao máximo.

Desligar a internet é possível.

Desligar a internet é saudável, pois liberta as pessoas para as coisas boas da vida.

26-set-2022

João Pires

Luso.eu - Jornal das comunidades
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