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DEPRESSÃO NA PRIMEIRA PESSOA





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O resumo possível da parte séria de um livro meu sobre a depressão e cujo título é "Depressão com Humor")

Esta semana fui duas vezes ao médico e como usei alguns termos técnicos as duas médicas fizeram a mesma pergunta. Perguntaram se eu era médico de outra especialidade.
Eu respondi que não. Não era médico mas sim um doente profissional.
O que acontece e fui a explicação que dei a ambas as médicas é que para se chegar à psiquiatria, como doente, passa-se primeiro por muitas outras especialidades médicas.
E isso vai-nos dando muitos conhecimentos empíricos sobre a medicina.
Comigo foi assim. Vertigens, otorrino; náuseas, gastroenterologia; tonturas, neurologia; urinar muitas vezes, urologia; dores na nuca, ortopedia...
A lista é longa e só não fui a um ginecologista.
É preciso primeiro descartar uma qualquer doença física e só depois quando nada aparece nas TACs, RMs, ecografias, análises... é que se é encaminhado para o psiquiatria.
Normalmente, a depressão e a ansiedade estão relacionadas e não é por acaso que os psiquiatras receitam quase sempre uma mistura de ansiolíticos e antidepressivos.
O medo e a tristeza são reacções normais no ser humano. O medo ajuda a encontrar formas de nos defendermos do perigo e a tristeza é uma reacção a algo que nos põe infelizes. Reagir de forma oposta é que seria anormal, e poria em causa a nossa própria sobrevivência. Acontece, e isso pertence ao campo das psicoses. Ou seja, a pessoas que não têm espírito crítico sobre si próprias. Alguém que acha graça à morte de um amigo é um psicótico.
O medo e a tristeza quando se prolongam no tempo e perturbam a vida normal do dia-a-dia assumem um caráter patológico e daí a necessidade de serem tratados. Neste caso, as pessoas têm espírito crítico sobre si e aí estamos no campo das neuroses.
A depressão pode ter várias causas, desde logo acontecimentos da nossa vida como o stress, a perda de um ente querido ou até aspectos de natureza genética. A produção de serotonina é uma delas. Este neurotransmissor é responsável pelo humor e há quem tenha deficits de produção. As estações do ano têm influência por causa da exposição à luz que ajuda na produção da serotonina. Não é por acaso que os países nórdicos, que têm dias curtos, têm os mais altos valores de suicídios apesar de serem os países com as melhores condições de vida no mundo.
Dito isto, o que está subjacente a qualquer depressão é a ausência de futuro. Alguém que não vê futuro para si está em depressão.
A ansiedade é medo, um medo que fora de controlo pode levar a ataques de pânico.
Os ataques de pânico são crises bruscas de ansiedade em que a pessoa não sabe a causa de tanto medo e perde o controlo. Por exemplo, se eu tiver medo de cães quando sair de casa levo comigo um guarda-chuva e sei que me posso defender se por acaso me cruzar com um cão. Assim, evito entrar em pânico numa situação dessas. Quando não sabemos a causa ficamos dominados pelo medo porque não sabemos qual a arma a utilizar e o ataque de pânico aparece.
A depressão é uma doença muito estigmatizada pela sociedade. Tem melhorado a forma como as pessoas veem um doente psiquiátrico mas quando eu fui pela primeira vez a um psiquiatra com 16 anos, em 1984, um deprimido era um preguiçoso e por aí fora.
Ainda agora existe muito preconceito mas o que mais me choca não é o que vem da sociedade mas sim o dos próprios médicos que não são desta especialidade. E acreditem, há muitos, sei do que falo porque vivi essa experiência na pele.
Há estudos que dizem que daqui a 50 anos 30% da incapacidade para o trabalho tem como causa a depressão persistente. Uma depressão que aprisiona o individuo em si mesmo e não o deixa existir.
Portanto, esta doença não é uma brincadeira e ninguém deve cuspir para o ar porque quando menos espera o cuspe pode-lhe cair em cima.
A minha experiência permite-me falar com alguma propriedade sobre o assunto.
Lembro-me que as minhas idas ao psiquiatra começaram por eu ser imensamente distraído nas aulas. Os professores chamaram os meus pais porque achavam que eu me drogava. A incompreensão começou logo na escola.
Num verão em Sintra, quando tinha 17 anos, comecei, sem razão aparente, a correr pelo meio da estrada, quase fui atropelado e acabei na urgência do hospital. A primeira coisa que os médicos fizeram, quando ainda estava na maca da ambulância, foi ver se eu tinha picadas de agulhas nos braços. Não tinha e a solução passou por um valium 5 debaixo da língua.
É antigo, de facto, este olhar de esguelha para um doente psiquiátrico mas também existe agora pelos profissionais de saúde e pelos próprios governos que desprezam em absoluto a saúde mental.
Esta mente retrógrada tem um pouco a ver com a necessidade que temos de ver tudo por escrito. Eu posso ter o melhor tipo do mundo a desenhar casas mas se ele não tiver um papel a dizer que é arquiteto ninguém vai olhar para ele. É assim, vivemos num mundo de certificados e precisamos que uma entidade nos diga quem é bom.
Reparem que isso não acontece no cinema, na música ou na literatura. Gostamos ou não gostamos. Saramago por exemplo nunca frequentou o ensino superior e os melhores actores nunca fizeram escola de teatro ou cinema. Já que estamos a falar de doenças mentais parece-me que também há aqui alguma esquizofrenia.
Passei por momentos muito difíceis e lembro-me, por exemplo, de passar os dias agarrado ao balcão quando trabalhava na Caixa Geral de Depósitos. Tinha desiquilíbrios e chegava ao fim do dia exausto. Ainda por cima de fato e gravata, mais uma prisão e com um ameaçador laço ao pescoço.
Ninguém percebia bem e eu compreendia que não percebessem, afinal nem mesmo os médicos percebiam.
Uma das coisas que acontece a um doente ansio-depressivo é ficar com o sistema imunitário debelitado. Então, facilmente se apanham doenças. A mim acontecia-me de ficar com gripes daquelas em que se fica na cama uma semana. Só num ano fiquei assim cinco vezes e é claro que no trabalho pensavam que eu tinha ido de férias. Também é verdade que nunca me incomodou que os meus colegas pensassem assim. E como eu disse há  pouco não devemos cuspir para o ar. Um colega meu do trabalho também olhava com desconfiança para as minhas gripes e da noite para o dia teve uma depressão. Faltou ao trabalho durante um ano e quando voltou morreu subitamente com um AVC. Tinha apenas 39 anos e quando contei ao meu psiquiatria que ele era muito introvertido e que nunca falava da sua vida privada apesar de ser notório para nós que ele tinha imensos problemas, a explicação dada pelo meu psiquiatra foi surpreendente. Disse que ele era como uma garrafa de champanhe que quando agitada explodiu. Morreu de um AVC hemorrágico mas a causa pode ter sido a depressão.
A depressão é, para quem estuda o assunto, uma doença séria e para levar a sério. Este exemplo do meu colega é bem ilustrativo disso mesmo.
Eu, em 2007, tive uma depressão das mais difíceis da minha vida. Não sabia exactamente a razão daquele estado de permanente vigia, de quem podia ser atacado a qualquer momento.
Um stress do outro mundo que me fez passar três meses de cama, perder 10 quilos e deixar de andar. A comida simplesmente não passava na boca e todo o dia pedia para morrer.
Os psiquiatras ajudam, é certo, mas o que fazem é ir ajustando as doses dos medicamentos. Como eu passava cinco dias seguidos sem dormir aumentavam a dose das benzodiazepinas. Não resultava e ainda ficava pior porque não dormindo e com doses colossais de comprimidos o organismo revolta-se. Aí descobri que comigo resultam melhor doses baixas. Isto também mostra que cada caso é um caso e a dificuldade que é tratar esta doença.
Outra coisa que os psiquiatras sempre dizem é que nós temos que fazer a nossa parte. Algo muito difícil quando se está no fundo do poço.
Os comprimidos são uma bengala.
Nessa depressão, em 2007, numa manhã veio-me à cabeça escrever um livro de humor.
Em cinco horas escrevi cerca de 30 páginas e ainda hoje me rio quando leio esse livro. Foi assim que aos poucos fui subindo pela corda do poço. Curiosamente uma corda atirada por mim próprio, o doente.
Um exercício que eu costumo fazer para tentar descobrir a causa da depressão é fixar a primeira coisa que me vem à cabeça quando acordo. Julgo que pode estar aí a origem do problema e sem atacar a origem o que a maior parte dos médicos faz é tratar sintomas. Isso é muito fácil e pouco os diferencia do dr. Google.
Febre, um antipirético; dores um analgésico...
Pois, mas a dor num pé pode ser um problema na cabeça. E muitas vezes é, e se se tratar a dor do pé ela passa mas volta porque a causa não foi tratada e está na cabeça.
Este também é um aspecto curioso e em que os médicos têm que estar preparados para não cair numa armadilha.
Antigamente, o doente entrava no consultório médico e dizia do que se queixava e o médico fazia o diagnóstico. Hoje isso não acontece, o doente vai ao médico com o diagnóstico feito e em vez de dizer que lhe dói a garganta diz que tem uma amigdalite. O médico tem de puxar a fita atrás e fazer a sua própria avaliação. Não é por acaso que alguns cursos de medicina já têm no seu currículo uma cadeira que lhes ensina a lidar com o doente que primeiro foi ao dr. Google.
A mim aconteceu-me em 2016. Do nada quando acordava não conseguia respirar. Das primeiras vezes ia de ambulância para o hospital e nunca soube exactamente o que me injetaram. Presumo que algum relaxante muscular. Depois tentei eu próprio controlar a situação mas não conseguia. Acordava, não conseguia respirar, corria para o jardim de casa, um espaço aberto onde havia mais ar e desmaiava. Quando recuperava os sentidos estava deitado no chão e todo arranhado nas pernas e nos braços de tanto lutar contra a falta de ar. Uma coisa tão simples, gratuita e que lhe damos um valor do outro mundo quando nos falta.
Eu tive culpa no diagnóstico ou na ausência dele porque quando ia ao hospital dizia que tinha tido apneia. Então fui tratado com as coisas mais ridículas mesmo para a apneia. Desde nebulizações até uma imensidão de medicamentos para a garganta. Uma dessas crises aconteceu numa consulta de otorrino e melhor que o médico foi a prontidão de duas enfermeiras que me colaram o rosto no chão e eu recuperarei o fôlego. Fiz exames e mais exames e nada, até cheguei a comprar uma máquina para nebulizações que fazia assiduamente com soro fisiológico e com outra substância.
Fui a vários médicos tal era o desespero de ficar sem ar. Tive a sorte de encontrar um, de Medicina Interna, que não quis saber da minha suposta apneia e recuou na história clínica. Descobriu o problema. Nada de especialmente grave mas sugeriu uma série de exames para despistar outras doenças graves que tinham este sintoma. O que eu tinha era uma coisa que nunca tinha ouvido falar. Chama-se "bolo histérico" e os músculos da garganta ficavam rijos e não deixavam passar o ar. Só relaxavam com a falta de oxigénio e eu precisava de desmaiar para que eles relaxassem e me deixassem voltar a respirar. Uma tortura que foi resolvida com um internamento de uma semana e a causa foi uma crise de angústia. Ou seja, um problema da cabeça.
A alma, de facto, vinga-se no corpo. E muito do que se passa no corpo, para o bem ou para o mal, vem da alma.
Este é o exercício de um bom médico, encontrar a causa e não se limitar a tratar os sintomas. Penso que é isto que distingue um médico de um licenciado em medicina.
Uma forma muito simples e fácil de compreender a depressão: imaginem um dedo a empurrar a cara. A cara está em depressão e o dedo é a causa da depressão.
Encontrar a causa não é fácil e muitas vezes só com sessões de psicoterapia é que se chega lá.
É preciso recuar à infância em muitas situações para se perceber o que levou a que uma dada circunstância ou acontecimento que para outra pessoa não teria grande significado para essa resultou numa depressão.
Descoberta a causa o tratamento faz o seu caminho, quase sempre demorado, com altos e baixos mas com um resultado positivo.
As coisas da mente são extremamente complexas e nesta área da medicina o efeito placebo assume uma importância maior.
É por isso que a relação psiquiatra-doente é determinante para a cura, quando possível, ou para o sucesso possível do tratamento.
Um medicamento receitado por alguém de quem temos grande confiança tem um resultado obviamente mais eficaz. E um medicamento em psiquiatria pode ser uma conversa.
Um bom medicamento nesta área da medicina mais do que em qualquer outra área é aquele que começa a fazer logo efeito na palma da mão. Ou seja, mesmo antes de chegar à boca.
Também a mão de quem dá o medicamento é importante. Os nossos filhos ficam mais rapidamente curados quando são os pais a lhes darem os medicamentos.
A mente é ainda um enorme mistério apesar dos enormes progressos que se fizeram desde Freud, o pai da psicanálise.
Estou absolutamente convencido que o ser humano vai chegar mais depressa a Marte do que ao fundo da alma humana.
Mas, o caminho faz-se caminhando e nunca como agora houve tanta sensibilidade para estes assuntos. Talvez porque eles já não são só dos outros, já nos bateram à nossa porta, connosco, com um filho ou com alguém que nos é próximo!
(Este é o lado mais "sério" do livro mas a maior parte das páginas contam histórias com muito humor, para mim o grande curador das depressões e cujo objetivo, a ser publicado, é ajudar quem sofre de depressão, rindo)

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Author: Damião Cunha VelhoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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