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sexta-feira, 14 maio 2021

A pintora e o ladrão: resgatando a sanidade através da arte



O convite para escrever nesta coluna surgiu por intermédio do poeta português José Paulo Pego. Participamos juntos de um recital de poesia no encontro Printemps Literáire na Universidade de Sorbonne. José Paulo ficou interessado pelo trabalho que li na ocasião, o livro de poemas Suite 136, inspirado no meu trabalho em enfermarias psiquiátricas em Londres. Tenho conciliado a atividade médica com a atividade literária por mais de vinte anos, e terminei por fazer um mestrado em Humanidades Médicas, um campo interdisciplinar da medicina que inclui humanidades, ciência social e as artes. Nesta época de pandemia, em que estamos todos fragilizados e vulneráveis, precisamos mais do que nunca da dimensão humanitária da medicina.

Esta sincronia humanista coincide com um interesse crescente da medicina convencional sobre alguns temas como experiências traumáticas precoces e suas repercussões. Como estas adversidades podem ter consequências crônicas sobre a saúde mental e física dos indivíduos, e sobre como podemos identificá-las precocemente, abordá-las com mais compaixão, e preveni-las, dentro do possível.

As “experiências adversas durante a infância” referem-se à eventos traumáticos que ocorrem antes dos dezoito anos de idade, e incluem todos os tipos de abuso e negligência, bem como transtornos mentais nos pais, abuso de substâncias, divórcio, encarceramento e violência doméstica.

Estes eventos são comuns na população geral. Metade da população britânica já experimentou pelo menos um. Porém quanto maior o número e a intensidade da exposição a estas experiências, maior será o seu impacto futuro. Por exemplo, o risco de suicídio é mais de mil vezes maior em indivíduos que tiveram mais de quatro experiências de adversidade, o risco de transtorno de humor, de abuso de substâncias, de estresse pós-traumático é cerca de quinhentas vezes maior.

Um dado curioso é por que algumas pessoas têm mais resiliência do que outras a estas experiências, e conseguem ter uma vida mais funcional. Em geral houve o suporte de alguém que se importava com a criança, uma compensação emocional que a fortaleceu de alguma forma, entre outras variáveis.

Discutia este assunto recentemente numa atividade psico-educativa com as pacientes da enfermaria onde trabalho. Em seguida assisti a um film club voltado para profissionais de saúde mental, e o tema foi o interessante documentário The Painter and The Thief, de Benjamin Lee. Fiquei muito impactada pela fala de um roteirista de cinema, convidado para o debate, e logo em seguida assisti ao filme, que foi lançado no mercado em 2020, há alguns meses atrás.

A pintora tcheca-alemã Barbora Kysilova tinha acabado de mudar-se de Berlim para a Noruega em 2015, e de expor seus trabalhos numa galeria de Oslo, quando teve duas de suas obras roubadas em plena luz do dia após seu vernissage. Os ladrões foram identificados através de câmeras e presos, mas as obras não foram localizadas. Chocada com o roubo, Barbora, que disse para o jornal inglês The Guardian não ser nenhum Picasso, aborda um dos ladrões no tribunal e propõe um encontro. Ela gostaria de pintar o seu retrato. Ele aceita. Coincidentemente, Benjamin Lee fica fascinado pela notícia e propõe a Barbora fazer um documentário sobre a história.

As duas obras roubadas, Chloe & Emma e Swan Song, são imensas pinturas foto-realistas. Kart-Bertil e o outro ladrão conseguiram remover rapidamente as telas, deixando as molduras intactas, um trabalho de peritos. Um amigo de Benjamin estava na abertura da exposição e fez um footage na noite de estreia, que ele usou na abertura do filme.

O documentário é essencialmente sobre a conexão emocional que se desenvolve entre Barbora e o ladrão. Karl-Bertil Norland é um tipo coberto de tatuagens e marcado por uma masculinidade dura, das ruas. Mas curiosamente, ele é extremamente honesto sobre suas dificuldades, e há uma fragilidade escondida no seu semblante, atrás da sua persona.

Karl-Bertil não lembra muito bem o que aconteceu naquele dia nem o paradeiro das obras. Alguém requisitou o serviço, e ele estava intoxicado há dias. Abuso de substâncias e passagens pela cadeia são recorrentes na sua vida.

Barbora é uma mulher curiosa, sensível, mas também prática. Inicialmente ela parece usar Karl-Bertil como um objeto. Ele, porém, também a observa. Percebe que ela é uma mulher diferente, não tem interesse em feminismo, é reservada e obcecada pelo seu trabalho. Ele comenta sobre a sua tatuagem nas costas – uma sequência de círculos um dentro do outro, que revela a sua autenticidade. Mas há algo de angustiado nela, de defensivo.

Kart-Bertil é sensível, gosta de arte, coleciona ilustrações e aceita este papel passivo, feminino, deixar-se pintar por uma mulher que parece ser bastante dominante. Nas artes sempre houve infinitamente mais musas que musos.

Uma das cenas mais comoventes do filme, que marca a começo do bonding entre Barbora e Karl-Bertil é a primeira vez em que Barbora mostra para ele seu retrato, baseado em fotografias de uma conversa casual onde ele fala de si, desarmado, com uma taça de vinho tinto entre as mãos. A pintura chama-se “The pussy in you”. Karl-Bertil chora como uma criança ao ver aquela imagem, emocionado. Barbora toca na ferida e deflagra um processo de reflexão nele, sua carência disfarçada de afeto, o abandono por sua mãe na infância. É como um reencontro com sua anima. A adição de Karl-Bertil esconde uma dor profunda. Entre as suas tatuagens há teias de aranha e rosas, tão simbólicas de sua necessidade de attachment.

Nas pinturas de Barbora há também muita profundidade, dor, auto-destruição. Ela é fascinada por morte, teve suas experiências de adversidade na infância, e carrega cicatrizes de uma relação profundamente abusiva. Barbora se maltratava. Como observa Karl-Bertil, ela aprendeu duramente a conquistar seu auto-respeito. E ele a respeita bastante por isto.

Após este encontro marcante, acontecimentos difíceis se desenrolam na vida de ambos, que o diretor teve a tenacidade de acompanhar. Pintora e o muso permanecem ligados através deste vínculo em meio às suas tormentas. Ela dedica cuidado maternal, uma verdadeira compaixão num momento muito delicado na vida de Karl-Bertil, e ele retribui com gratidão. Nesta narrativa não linear da vida, a arte com a sua força de acesso ao inconsciente tem um efeito surpreendente e curativo nos processos interiores de ambos.

Como disse a artista Louise Bourgeois, que passou a vida explorando seus traumas de infância através do seu trabalho: “arte é uma garantia de sanidade”. Precisamos de um entendimento mais criativo e compassivo na medicina. E pode-se aprender psiquiatria nos filmes, nos livros, nas obras de arte, para além dos artigos científicos e manuais.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Virna Teixeira
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