Luso.eu | Jornal Notícias das Comunidades Portuguesas - A lama dos dias
sexta-feira, 01 março 2024

CANDIDATOS DO PS NA FEIRA…

Fev. 29, 2024 Hits:173 Opinião

Não cedamos à facilidad…

Fev. 29, 2024 Hits:310 Opinião

Quero ser uma árvore

Fev. 24, 2024 Hits:658 Crónicas

Morre Navalny mas não a …

Fev. 24, 2024 Hits:201 Opinião

COMPETÊNCIA CÍVICA

Fev. 15, 2024 Hits:376 Crónicas

UNIVERSITAS

Fev. 14, 2024 Hits:290 Crónicas

CIDADÃO DECISOR

Fev. 10, 2024 Hits:254 Crónicas

Desconsideração políti…

Fev. 09, 2024 Hits:637 Opinião

Haja diferenças!

Fev. 07, 2024 Hits:319 Opinião

O Homem: um ser limitado

Fev. 06, 2024 Hits:298 Crónicas

O BANCO NOVO

Fev. 06, 2024 Hits:431 Crónicas

Entre a Esperança e a In…

Fev. 04, 2024 Hits:246 Opinião

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Fev. 04, 2024 Hits:365 Crónicas

A lama dos dias





A sua generosidade permite a publicação diária de notícias, artigos de opinião, crónicas e informação do interesse das comunidades portuguesas.


Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor!


“A espuma dos dias” é uma expressão utilizada normalmente para descrever algo que se perde por falta de substância, que se erode na rotina - como o tempo que nunca sabemos para onde vai. Quando olhamos para trás, nem sabemos bem como se esgotaram dias, semanas, meses e (para os menos introspectivos) às vezes anos.

  A expressão tem um teor muito gráfico, quase sufocante pelo sentimento de impotência que causa. Aceitei que tal como a espuma do mar - no seu vaivém perpétuo - também a rotina nos traria esse efeito de erosão gradual e sorrateira. No entanto, novas camadas têm surgido sobre esta espuma, adicionam opacidade e grossura, tornam o vaivém mais erosivo.

 Já correram rios de tinta sobre estas camadas. Uma artilharia intensa: redes sociais com conteúdo contínuo, smart TV’s com 4 ou 5 serviços de streaming acessíveis diretamente do comando, notícias online com actualizações ao minuto - podia continuar. Exemplos não faltam: a fila do banco onde tradicionalmente abunda a monotonia, agora preenchida pelo infinito deslizar de ecrãs; o ligar instantâneo da televisão quando se chega a casa ou até as idas ao WC prolongadas no tempo porque se leva o telemóvel.

 Estas novas camadas despem os nossos dias do aborrecimento normal ao qual o cérebro humano se habituou durante toda a sua existência. O mesmo aborrecimento que transforma o tédio em criação, em ideias, em nervosismo sobre problemas sobre os quais só se pode refletir profundamente se estivermos aborrecidos.

 A falta de tédio afasta-nos para longe de reflexões filosóficas sobre os nossos propósitos ou mesmo sobre o dia-a-dia, a mente actual não tem banda larga para vazios longos. Mas é nesses propósitos que assenta a vontade humana. Se não refletirmos sobre eles, se não planearmos as nossas várias facetas, se não almejarmos a algo que nos ultrapassa, a vida torna-se um infidável ciclo de preparação de tupperwares, cama e trabalho.

 É minha crença de que todo o Homem tem várias facetas: desde a criativa, intelectual à física ou até espiritual. Abomino a ideia de uma separação rígida destas facetas em “sectores” da sociedade: os criativos só podem ser os artistas, a excelente forma física está reservada aos atletas e aos intelectuais cabe tudo o que é “inteligente” - desde a ciência e literatura ao governo de nações. Torna-se fácil então entregarmo-nos a uma faceta e deixar as outras duas para outros que se encaixarão melhor nelas.

 Esta compartimentalização tornou-se para mim ainda mais alarmante quando encontrei as ideias do filósofo português Steven Gouveia sobre a moralidade da abstenção - este defende que a abstenção não só não é errada como se torna um dever para quem chega à conclusão que não está devidamente informado para votar. Não tendo nada especialmente contra esta teoria, para mim tornou-se óbvio como esta ideia podia servir perfeitamente quem já se serve desta “divisão”.

 A postura do “eu é que sei” porque já “ando nisto há muito tempo” é mais do que comum no típico político português. Não vale a pena falar muito sobre esta ou outra decisão - “é díficil de explicar”, “é complexo”, “tem diversas implicações”. Esta atitude, combinada com a equivalente “não me meto na política, não percebo nada disso” do outro lado da equação, entrega de bandeja a liderança do país a “quem percebe disto”, a políticos de carreira e outros iluminados.

 Ao descurar lados diferentes da individualidade, acabamos por perder grande parte do potencial que comportamos já que esses aspectos complementam-se. Caímos no erro de acharmos moralmente correta a nossa abstenção na vida política e cívica delegando essas funções a quem se auto-denominou capaz delas.

 Se com a espuma dos dias essas facetas já são esquecidas, com a lama são engolidas. A solução não passa por aceitar essa especialização, nem por disparar em todas as direções da existência. A solução passa muito por voltarmos a ser mais generalistas, por cultivarmos as nossas facetas. Afinal, alguém um dia disse que “a especialização é para insetos”.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Rui Amendoeira Esteves
Author: Rui Amendoeira EstevesEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Para ver mais textos, por favor clique no nome do autor
Lista dos seus últimos textos



Luso.eu | Jornal Notícias das Comunidades
Partilhe o nosso conteúdo!

A SUA PUBLICIDADE AQUI?

A nossa newsletter

Jornal das Comunidades

Não perca as promoções e novidades que reservamos para nossos fiéis assinantes.
O seu endereço de email é apenas utilizado para lhe enviar a nossa newsletter e informações sobre as nossas actividades. Você pode usar o link de cancelamento integrado em cada um de nossos e-mails a qualquer momento.

TEMOS NO SITE

Temos 447  pessoas que estão a ver esta página no momento, e 0 membros em linha

Top News Embaixada

EVENTOS ESTE MÊS

Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sáb. Dom.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

News Fotografia

 
 
0
Partilhas
0
Partilhas