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A bondade de uma uva

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Há coisas que me comovem. Muito. São situações do dia a dia em que sinto um abraço inesperado no coração. Um afago na alma. Refiro-me à bondade, principalmente quando é praticada de forma espontânea. Sem estarmos à espera. Gratuita e desinteressada. Pelo simples gesto de dar, seja o que for.

Pensei mais a sério sobre isso durante a quarentena, no meu caos de confinamento interior. Intransponível. Talvez só possível de ser revelado numa crónica. Ou através de uma página de um livro. Ou em qualquer outro lugar onde se possa exorcizar pensamentos e partilhar as nossas alegres e comezinhas percepções do mundo, mas que no fundo, no fundo das vísceras, transbordam a humanidade.

Entre ir da casa dos meus pais ao meu apartamento, uma caminhada de cinco minutos, no início de uma ponte ampla e disponível sobre a via rápida, um homem ofereceu-me uvas. No alto da minha reserva, mas ainda assim de gratidão pelo gesto largo, e até diria raro, disse com um sorriso:

 — Não obrigada!

Com um olhar simpático, puro, insistiu:

— Olhe que são boas!

 Após a minha hesitação, e com um sotaque forte camaralobense, enquanto tragava, com deleite, uma baga negra após outra, voltou-me a fazer a mesma oferenda. Eram umas uvas pequenas. Humildes. Mas a gritar pelo meu paladar, num dia de sol, e com um ar apetecível de tão frescas que aparentavam. Algo que, à priori, não estava de acordo com o dia de prisão em que vivia, ou melhor, sentia, vinda de Lisboa e no meio de uma cerca sanitária imposta pela pandemia que atravessamos.  

Olhei para ele. Indaguei-o com o olhar. Não consigo conhecer as intenções das pessoas de outra maneira. Era um homem que me parecia honroso, na casa dos 50 anos, com uma camisola de manga cava branca, e sem dar por mim, à entrada de um beco, subtraindo-se a desconfiança de um estranho, aceitei. Ele deu-me um cacho de uvas, pequeno –  não tinha muito mais a oferecer –, e ainda assim tão saborosas, na sua pequenez, na sua essência.

Foram as mais doces e prazerosas uvas que comi até hoje. Provei-as através de um estranho, do nada. Pela simpatia de oferecer, de partilhar. É assim que aprecio e encaro estes momentos. E durante os dias de cerca sanitária, em que não havia muito que esperar, apenas que as horas passassem freneticamente, este singelo gesto fez-me o dia.

No final do beco, preparando uma subida, no intervalo do meu Evereste interior, ele gritou ao longe:

— Não são boas menina?!

Quase a perdê-lo de vista, no meio de uma quase miragem, mas a seguir-lhe o rasto pela intuição, de soslaio, respondo animada com toda a força dos meus pulmões:

— São! Obrigada!

Olhei para trás, ao longe, e vi apenas um vulto, a cruzar o final do beco, que levantou a mão em forma de anuimento.

Não me lembro, nem lembrarei, de quem era este senhor, nem provavelmente ele saberá reconhecer-me o rosto nos becos da vida. E isso não interessa nada.

Ainda assim, resta no meu paladar o sabor adocicado daquelas uvas oferecidas e esta simples, mas também humilde, crónica, escrita à luz da lua na minha varanda.

Cláudia Caires Sousa
Colunista
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Apaixonada pela leitura desde que se lembra de existir. É licenciada em Ciências da Comunicação e optou pelo jornalismo por ser uma janela para o mundo, a única capaz de saciar a sua curiosidade. Ao longo da vida tem descoberto outras paixões, mas nunca sai de casa sem estar acompanhada por um livro. Acredita que a linguagem é o instrumento por excelência que nos define.
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