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Ernesto vende jornais e é parte da Cidade

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Eu cresci no Funchal. Apesar de viver no concelho vizinho e alguns dos meus amigos me chamarem carinhosamente de 'xavelha', a minha vida toda desenrolou-se na capital.

Lembro-me desde muito nova de calcorrear as ruas da Cidade sozinha e livre. Toda a gente me conhecia. Era filha do João das Motas. O meu pai e a sua loja eram uma referência e eu sentia que no fundo tinha um escudo contra o mundo.

Hoje vinha para a Câmara Municipal do Funchal trabalhar, pôr uns textos em dia – já que a semana foi corrida e fatigante e às vezes por mais que queiramos produzir mais e melhor há uma espécie de nó que nos ata as palavras e faz-nos refém as ideias. Foi o que me aconteceu ontem. Sabia que estava no limite desta crónica, só que no meio do vendaval de pensamentos e emoções não conseguia verter uma palavra. Normalmente são as palavras que me assaltam e tomam conta da minha mão. Só que ontem não foi assim.

Deixei então a escrita para hoje, até porque adoro sábados de manhã, inspiram-me, principalmente no Funchal. Gosto de ver o dia a começar, com pouco movimento nas ruas. As esplanadas a serem montadas. A azáfama e a alegria no ar por se saber ser sábado. Parece que é uma manhã eterna, que pode durar a vida toda. Podemos tomar um café demorado. Foi o que eu fiz, cedinho.

No meu caminho até ao escritório, deparei-me com uma personagem do Funchal que há muito queria entrevistar para a minha rubrica no Funchal.pt intitulada “Rostos da Cidade”.

Trata-se do Ernesto que vende jornais. Só hoje soube o seu nome. Há tantos anos que me lembro deste homem magro, de tez morena, sempre com umas calças de ganga e uma camisa, a vender o Diário de Notícias ali numa esquina, perto da Igreja do Colégio. O Ernesto quase parece invisível a quem passa. Mas para mim ele sempre foi portador da minha curiosidade mais feroz. Quem é este homem que vende há tantos anos jornais, numa esquina qualquer… pensava eu desde miúda quando estava dentro do carro dos meus pais, no banco de trás.

Eis que passo por ele, sorrio-lhe e pergunto-lhe: “será que me podia dar uma pequena entrevista? Trabalho para um portal noticioso da Câmara Municipal do Funchal e escrevo sobre pessoas que são conhecidas aqui na Cidade”.

Ele olha-me com um olhar tímido, reservado. Pensei por instantes que me ia dizer que não, que não estava disponível para isso. E de repente, no meio da sua reserva, esboça-me um sorriso tão bonito, tão aberto e tão sincero como eu já não via há tanto tempo.

“A menina é tão simpática por se lembrar de mim. Sabe? Eu sou muito conhecido no Funchal. Até o presidente da Câmara me conhece”, diz-me ele já com mais confiança. Eu rio-me e digo-lhe “olhe que conhece mesmo. Eu disse ao presidente que vinha falar consigo e tirar-lhe uma foto para fazer a rubrica "Rostos da Cidade”.

Ele retribui-me um outro sorriso verdadeiro, autêntico, de quem não tem mais nada a oferecer que não a sua inocência humilde e pura. O seu olhar brilhava de satisfação e gritava a reconhecimento. E eu digo-lhe “então há quantos anos vende jornais?'' Ernesto sem hesitar diz-me que já são tantos que já perdeu a conta, mas mais de 20 diz-me ele, a tentar ser preciso.

“Levanto-me todos os dias às 6h e pelas 6h30/7h já estou aqui no Funchal até cerca das 11h30 a vender jornais. Sempre no mesmo sítio. Aos domingos é que costumo estar na Praça do Carmo”.

Eu olhei-o com atenção. Com tempo. Com o vagar que eu talvez não tenha de segunda a sexta, no meio do meu lufa-lufa quotidiano. E fiquei a pensar numa série que me marcou muito, chamada "After Life" em que Ricky Gervais interpreta brilhantemente um jornalista que é repórter num jornal local. Há um episódio em que ele se apercebe da importância e do peso que o jornalismo de proximidade tem na vida das pessoas, e diz que pelo menos uma vez na vida toda a gente deveria aparecer no jornal. E é tão verdade.

O Ernesto vai aparecer no Funchal.pt porque ele é parte da Cidade. O Funchal destaca-se de todas as cidades onde já vivi porque tem gente. De verdade. Que se perpetuam e fazem parte da minha memória e no fundo do meu coração. 

Cláudia Caires Sousa
Colunista
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Apaixonada pela leitura desde que se lembra de existir. É licenciada em Ciências da Comunicação e optou pelo jornalismo por ser uma janela para o mundo, a única capaz de saciar a sua curiosidade. Ao longo da vida tem descoberto outras paixões, mas nunca sai de casa sem estar acompanhada por um livro. Acredita que a linguagem é o instrumento por excelência que nos define.
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