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11 - Crónica do Homem a Dias e a Singularidade





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Herberto voltava para a cidade na carreira do meio-dia de domingo. A mãe ia com ele e regressava à aldeia na carreira do final da tarde. Esta carreira recolhia os passageiros que desciam do comboio na Guarda.

Joana tinha encontrado este quartinho escuro para o filho em casa de uma família que se tinha mudado para a cidade. Mas custava-lhe muito ver o filho, criado ao ar livre, confinado neste espaço triste e lúgubre. Assim, procurou e encontrou-lhe um quarto mais arejado, embora mais longe da escola. Mas caminhar era coisa que um miúdo de aldeia naqueles tempos fazia sem qualquer esforço. Por isso não havia crianças obesas nas nossas aldeias. As de hoje só desenvolvem os dedos da mão direita com tanto uso dos teclados.

Os haveres de Herberto cabiam todos numa mala de cartão. Foi fácil fazer a mudança. Alguma alegria retornou aos olhos do menino. Aqui, como a casa era nos arredores, era fácil sair para os campos e ouvir os pássaros. Fez uma lista de tudo o que via e ouvia.

Grilo, melro, tentilhão, rola, formiga, abelha, vespa, pica-pau andorinha, escorpião, etc… etc. Depois fez séries segundo diferentes características. E séries de séries com novas combinatórias. E isto não tinha fim. Herberto ficou deslumbrado. E o deslumbramento produz uma luz cujo rasto nunca se apaga. O que Herberto fez foi muito simples, mas de vasto alcance. Fez-lhe perceber isto: há uma possibilidade infinita de organizar as coisas e que esta possibilidade nunca se repete. E isto encheu-o de melancolia. Melancolia que nunca o abandonou. Sem o saber estava já a sentir a dificuldade da unicidade de cada ser. Cada acto e cada ser é uma singularidade. E assim, a comunicação será sempre um problema entre os convivas porque nunca se pode fazer na totalidade.

Começou aqui a paixão de H.D. pelas listas – uma necessidade de arrumação mental. Na verdade, quando alguém muda de marido ou de mulher, ou de casa, a primeira coisa que faz é organizar os bens ou haveres. Há tantas formas de dispor as coisas… e só uma delas é que está bem! Milhares de formas de organizar um milhar de objectos que transportamos connosco. Estes objectos são a caixa negra de cada um de nós. Uma infinitude de caixas negras convivem umas com as outras. Formam-se infinitos padrões de comportamentos. O equilíbrio é sempre instável porque dinâmico. Cada momento é único e irrepetível. Se o encontro de dois seres não se tem dado naquele momento, nunca mais… nunca mais. Para os desencontros a mesma coisa. Se não tivesse havido aquela falha na relação, a conexão seria feita por outro lado. 

A arrumação sempre fascinou Herberto. Em menino quando era excluído das brincadeiras, encontrava um lugar secreto e aí se deixava ficar a fazer jogos com pedras ou pauzinhos.

Alteramos uma parte, alteramos o todo. Isto Herberto compreendeu desde muito cedo. Por isso, quando mais tarde leu no fb de um amigo PENSAR GLOBALMENTE, AGIR LOCALMENTE entendeu de imediato este princípio. Aliás, esta era apenas a fórmula da acção que já praticava há muito tempo. (A este ponto regressaremos na próxima crónica.)

Que Herberto era introvertido não há dúvidas. Donde lhe vinha essa tendência? Na aldeia era um miúdo alegre e vivaz, apenas mais atento e curioso do que os outros. Com as dificuldades já conhecidas, começou a sentir-se um peixe fora de água. Muitos passaram a considerá-lo um pouco retardado. Mas não era – longe disso. O que ele começou a praticar foi uma espécie de alheamento que o protegia da pressão dos muitos grupos juvenis. Dos rapazes que saíram da aldeia para o Liceu ou para a Escola Comercial e Industrial quase todos regressaram a casa antes de concluído o 9º ano, reprovados por faltas. Ele conseguiu concluir o 9º ano e entrar num Banco da cidade, como já sabemos – o que na aldeia era visto como uma subida de escalão. Os outros rapazes da sua idade acabaram por emigrar para França, Alemanha e Bélgica. Passado um ano regressavam com uma Renault 4L, comprada em segunda mão. E com a qual faziam grande estardalhaço.

Herberto começou a interessar-se por fazer pequenas coisas. Metia a mão em todo o género de trabalhos e a sua paciência começou a ser notada e apreciada.

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Manuel Silva-Terra
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